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'Não podemos desanimar', diz padre Julio Lancelotti em ato por morte de vendedor no metrô

27/12/2016 19:01 -02
Rovena Rosa/ Agência Brasil

Mais de cem pessoas se reuniram no saguão da Estação Dom Pedro II, do Metrô de São Paulo, para lembrar a morte do vendedor ambulante Luis Carlos Ruas, de 54 anos. Luis morreu espancado por dois homens ao tentar defender duas amigas travestis, em plena noite de Natal. O ato em apoio ao ambulante protestou contra a falta de segurança e a violência no metrô da capital paulista.

Segurando faixas e velas, o protesto contou com a presença da comunidade LGBTT, do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e também da Arquidiocese de São Paulo. Todos os manifestantes reclamaram da falta de segurança no metrô. Nas imagens de segurança, que mostraram o espancamento de Luis, nenhum dos seguranças da estação apareceram para conter a agressão.

“Que fique o alerta para o metrô coloque mais seguranças dentro das estações. Tem gente morrendo aqui, e isso é inadmissível”, lamentou Bruno Diego Alves, organizador do ato. Para ele o ato mostrou que as pessoas não toleram mais os crimes praticados nas estações. “O ato teve essa repercussão, e isso mostra que as pessoas ainda ficam indignadas, que a morte dentro do metrô não se torne algo comum. Aliás em nenhum local”, acrescentou.

O Sindicato dos Metroviários emitiu nota nesta terça-feira afirmando que a estação Dom Pedro II sofre com a falta de funcionários e que, por isso, não havia seguranças no momento do crime. "Não há funcionários nas estações e no corpo de segurança suficientes para cobrar todos os turnos de trabalho. Há muito solicitamos ao governo do Estado mais contratações", afirma.

Em um dos momentos mais emocionantes, o padre Júlio Lancelotti, conhecido por seu trabalho com moradores de rua e Direitos Humanos, fez um minuto de silêncio em homenagem a Luis. "É clara a questão homofóbica neste assassinato. A nossa pressão é muito importante", afirmou o padre. O padre falou sobre a questão social deste crime e como o preconceito contra os mais pobres ainda é presente no dia a dia. "Pessoas de rua não entram no metrô. Se entram, são colocadas para fora com truculência. Dois irmãos de rua, travestis, foram perseguidas e salvas pelo Luis", relembrou.

Como mensagem aos manifestantes, o padre pediu aos presentes para que não desanimem e persistam na luta pelo fim do preconceito. "Estamos acostumados a apanhar, a ter que correr e sermos perseguidos. O que importa é que continuamos no lado do amor. Não podemos desanimar", disse.

Foragidos

Ricardo do Nascimento Martins, de 21 anos, e Alípio Rogério Belo dos Santos, de 26 anos, que foram identificados pelo polícia como os agressores e tiveram a prisão temporária decretada pela Justiça, continuam foragidos. A expectativa é de que eles se entreguem ainda hoje. No entanto, o advogado dos primos afirmou que a dupla não vai comparecer à polícia.

Em entrevista à Folha, o advogado Marcolino Nunes Pinho afirmou que o caso não se trata de um caso de homofobia. Ele afirmou que seus clientes começaram a briga depois que de Alípio teve o celular roubado por um grupo de pessoas fora da estação.

A defesa também alega que os dois homens só agrediram o ambulante porque ele teria se envolvido na briga. "O senhor Luiz Ruas foi tentar ajudar os travestis, que ele conhecia lá, e deu uma garrafada na cabeça do Alípio. Aí, ficou nervoso porque tomou a garrafada e foi para cima dele. Ele disse que nem entendeu porque aquele senhor se envolveu na confusão. Deu uma garrafa nele", disse o advogado.

O delegado Osvaldo Nico Gonçalves contou que Santos e Martins foram identificados nas imagens de câmeras de segurança da estação pelos próprios familiares. Um deles já tinha histórico de agressão. Os dois suspeitos são moradores do bairro Aclimação e, na noite do crime, saíram para beber após um deles passar por uma “desilusão amorosa”.

“Foi um crime chocante. A vítima estava vendendo biscoitos para conseguir pagar o IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores), segundo me contou a mulher dele. Foi defender um travesti que estava sendo agredido e acabou pagando com a própria vida”, disse o delegado.

A Polícia Civil pediu 30 dias de prisão temporária e, a partir de quarta-feira (28) vai oferecer recompensa de R$ 50 mil para quem informações dos foragidos no Disque-Denúncia.