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'Não construí este sonho sozinho', diz André Garcia, filho de diarista aprovado em Yale

27/12/2016 14:23 -02

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Estudar em uma instituição de ensino renomada como a Universidade Yale, nos Estados Unidos, é sonho de muitos conquistado por poucos. A entrada é disputada e bastante criteriosa.

Yale é a universidade que formou cinco presidentes americanos: William Howard Taft (1878), Gerald Ford (1941), George Bush (1948), Bill Clinton (1973) e George W. Bush (1968). Clinton, inclusive, conheceu sua mulher, Hillary, quando ambos estudavam na Faculdade de Direito, lembra O Globo. Tem também ex-alunos famosos como Sigourney Weaver (1974), Paul Newman (1954), Meryl Streep (1975) e Jodie Foster (1985).

Yale é também um dos prováveis destinos acadêmicos do brasileiro André Garcia, 18 anos, de Embu das Artes (SP). Provável porque o estudante de escola pública, filho de uma diarista e de um vendedor de produtos de limpeza, ainda aguarda os resultados de outras universidades.

"Se optar por Yale, pretendo cursar algo na área de ciências que me possibilite a maior interdisciplinaridade possível, como bioquímica ou estudos ambientais, além de fazer diversos outros cursos adicionais como literatura, alguma língua estrangeira e música", explica o jovem ao HuffPost Brasil.

"Pude conhecer melhor a universidade quando descobri a oportunidade de participar em um curso de verão lá. Inscrevi-me pela primeira vez no segundo ano [do ensino médio] mas não fui aceito. Insisti no terceiro novamente e dessa vez fui aceito com bolsa completa. Fiz uma vaquinha para pagar a passagem de avião e outras despesas extras e de julho para agosto passei duas semanas lá, estudando Sustentabilidade, Energia & Meio Ambiente. A experiência foi fantástica."

Para chegar à aprovação em Yale, a trajetória de Garcia foi de muita luta e suor.

"Minha rotina sempre foi muito desafiadora e cansativa. Todo dia levava duas horas para chegar à escola e gastava quase três para voltar para casa. Às vezes o ônibus quebrava, demorava de passar ou tinha enchentes e coisas do tipo no caminho, que me faziam perder muito mais tempo."

Mas, como canta sua música preferida, "When you believe" de Whitney Houston e Mariah Carey, a fé e a persistência nos sonhos mesmo que pareçam impossíveis serviram de motor para que ele continuasse.

"Eu não reclamava muito da minha rotina nem desisti dela, pois, ao contrário, me sentia muito grato de poder ter a oportunidade de estar crescendo com ela."

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O jovem estudou em escola pública do 1º ao 9º ano, com dificuldades e esforços além das aulas, como aprender inglês por conta própria. "Infelizmente, o ensino público não foi capaz de me prepara para quase nada", lembra.

"As aulas na minha antiga escola eram, na maioria das vezes, mal preparadas. Os professores não eram bem treinados, a infraestrutura era horrível e, o pior, os alunos não tinham respeito algum pelos professores. Eles mesmos não se permitiam aprender, preferiam bater papo, usar o celular ou fazer qualquer outra coisa que não fosse prestar atenção na aula."

Foi no ensino médio que a história de Garcia passou a tomar outro rumo. Graças a uma bolsa de estudos dada pelo programa Ismart, um instituto social que viabiliza a educação de jovens carentes, o garoto passou a estudar em uma escola particular, o Colégio Lourenço Castanho, em São Paulo.

Para Garcia, o Ismart o tirou de seu "mundinho pequeno"e o coloco em "um mundo muito maior".

"Quando estudava na escola pública, minhas ambições eram fazer o Ensino Médio em uma ETEC, tentar uma vaga em alguma instituição de ensino superior e quem sabe, se eu desse muita sorte, poderia estudar em uma universidade pública. Ao conhecer o ISMART, vi histórias de gente nas melhores universidades do Brasil e até indo para fora, o que eu nunca tinha visto antes. Isso me inspirou muito e fez com que eu aproveitasse todas as oportunidades que eu estava tendo, me esforçando mil vezes mais para conquistar os meus objetivos."

O aumento de qualidade na educação foi nítido:

"Os professores tinham uma formação extraordinária, sempre dispostos a ajudar os alunos e muito dedicados ao trabalho. A infraestrutura também era de ponta, até me assustei quando vi todas as salas com datashows, laboratório de informática com vários computadores e todos funcionando, com laboratórios de química e física bem equipados e modernos."

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Desde criança apaixonado por ciências, o garoto costumava deixar a mãe sem respostas quando fazia perguntas do tipo "por que o céu é azul?". Ele queria entender como tudo funcionava. Apesar da infância humilde e cheia de dificuldades, o gosto pelo saber surgiu e foi alimentado em família. O pai e a mãe foram fundamentais em suas inspirações:

"Ambos de famílias pobres, eles sempre projetaram em mim e nos meus irmãos o futuro que gostariam de ter tido. Minha mãe teve que trabalhar muito cedo para ajudar a manter a casa dos pais e por isso teve de largar a escola. Ela só conseguiu chegar ao Ensino Fundamental e, mesmo assim, não o completou. Meu pai fez o mesmo, mas ele conseguiu pelo menos chegar ao ensino médio."

Ao saber que o filho foi aprovado em Yale, a mãe chorou bastante.

"Mas ao contrário de muitas mães que perguntam como ela me deixaria ir para um lugar tão distante sozinho, ela sempre me apoiou muito, dizendo 'esse é o sonho dele, tem mais que correr atrás mesmo. Quem sou eu para impedir?'."

Garcia tem consciência de que sua história é feita de investimento e superação. "Lá na escola pública onde estudei - e em várias periferias pelo Brasil - existe muita gente talentosa cujo potencial não esta sendo bem aproveitado. Infelizmente, nem todos possuem as mesmas oportunidades e eu sou muito grato por um dia ter ouvido falar do ISMART."

Ele tem uma mensagem para jovens sonhadores com poucos recursos financeiros:

"Eu diria para se esforçarem muito e se agarrarem a qualquer oportunidade que conseguirem. Hoje em dia não basta ser bom para suceder, você tem que dispor das oportunidades certas para te levar aos lugares certos. Esse sonho que estou vivendo agora eu não construí sozinho."

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