ENTRETENIMENTO

Como clássicos da música pop se tornaram a perfeita trilha sonora da história dos Estados Unidos

23/12/2016 18:22 -02
GETTY/HPMG

Aprender a história da música pop nos Estados Unidos pode ser muito divertido. Afinal, são canções que foram feitas para ser lembradas facilmente, com ganchos e ritmos que falam de sentimentos universais: amor, dor e momentos felizes.

O livro Anatomy of a Song: The Oral History of 45 Iconic Hits That Changed Rock, R&B and Pop (Grove Press, 2016), de Marc Myers, foi baseado em sua coluna no Wall Street Journal, onde ele entrevistou artistas importantes -- nomes como Debbie Harry, Stevie Wonder, Keith Richards e Smokey Robinson -- para descobrir como tiveram origem algumas das canções mais famosas das últimas cinco décadas. O livro parece um playlist dos sonhos de karaokê. Nem há uma única música que não seja um sucesso.

Das 45 canções que figuram no livro, apenas duas foram lançadas desde que eu nasci: Nick of Time, de Bonnie Raitt, e Losing My Religion, do R.E.M. Lendo o livro dele, esse fato se torna irrelevante. As letras e músicas de My Girl, London Calling, Suspicious Minds, Midnight Train to Georgia e inúmeras outras canções se repetiam em minha cabeça enquanto eu lia. De onde veio esse conhecimento, se não da experiência direta e vivida? Como essas canções ganharam seu espaço próprio em nosso conhecimento coletivo, enquanto outras caem no esquecimento, sendo ouvidas e analisadas apenas pelos fãs mais devotos de um gênero?

“Pelo fato de descrever essas músicas como icônicas, eu arquei com uma responsabilidade: definir a palavra ‘icônico’”, Myers me explicou ao telefone.

“Minha definição de uma canção icônica é algo que sobrevive à prova do tempo. Mas então a pergunta passa a ser: o que é o tempo?”

Ele optou por um quarto de século, um número de anos suficientes para uma nova geração tomar o lugar de uma geração mais velha.

anatomy of a song

A coluna de Myers no Wall Street Journal não era algo muito coeso. Mas ele descobriu que, ao reunir suas entrevistas e organizá-las em ordem cronológica, uma nova narrativa emergiu.

Myers disse:

“Eu quis criar uma atração horizontal, de modo que se você lesse apenas as introduções, ficaria com a grande história da ascensão do R&B, o rock ‘n’ roll, o soul, o reggae e as cantoras-compositoras folk. Há uma história que se desenrola que vai além disso, que transcende essas entrevistas.”

É uma boa visão geral de alguns grandes sucessos da música pop americana do século 20, e não uma lista abrangente.

A história de cada canção vem acompanhada de um breve apanhado do período de tempo em que ela nasceu. Please Mr. Postman surgiu a partir da decisão das gravadoras, na década de 1950, de afastar-se do rock ’n’ roll sugestivo, em favor de canções mais soft, que agradassem às massas. Light My Fire, do The Doors, foi lançada em duas versões, de sete minutos e de dois minutos; a primeira era mais semelhante às apresentações ao vivo da banda, longas e tortuosas para agradar ao público tomador de LSD.

A diferença entre inspiração artística e os interesses das gravadoras é um tema comum a várias das histórias das canções. Lendo o capítulo sobre Whole Lotta Love, do Led Zeppelin, disse Myers, “você começa a perceber que [o guitarrista] Jimmy Page odiava singles. Ele queria criar algo maior, mais longo e mais amplo.” Atitudes como a de Page, explicou Myers, somadas à ascensão das estações de rádio FM que tinham tempo para preencher no ar, levaram à tendência de os álbuns de rock serem tratados como um produto musical completo, em lugar de um mero catálogo de singles isolados. É claro que a gravadora também reduziu Whole Lotta Love ao formato de single.

robert plant and jimmy page led zeppelin

Robert Plant e Jimmy Page em show do Led Zeppelin na Suécia, em 1975

“Você começa a perceber que existem razões por que essas coisas acontecem e razões por que as músicas têm o som que têm naqueles períodos específicos”, disse Myers.

A outra atração do livro de Myers é que o leitor ouve os próprios criadores falarem da criação das canções mais conhecidas da música pop – e passa a enxergar as músicas sob nova ótica.

“Sou fã da música. Cresci com ela, então eu a vivo e a respiro”, explicou Myers.

“Mas não encaro essas canções do mesmo modo que um fã. Encaro como se eu estivesse em Roma, passeando por igrejas para ver suas obras de arte. Minha intenção não foi falar de sexo, drogas e rock ’n’ roll, foi falar da arte que esses músicos criaram. Apenas a arte.”

Myers citou a entrevista que fez como Stevie Wonder como um dos momentos mais importantes do livro. Ele estava falando com o músico sobre os detalhes técnicos de Love’s in Need of Love Today. Stevie Wonder revela que a canção foi gravada originalmente com um gravador de cassetes, permitindo que ele preservasse sua inspiração inicial, “como um traçado preliminar”.

Quando Myers fez uma pergunta a Stevie Wonder sobre a canção, “fez-se um silêncio”, ele contou.

“Comecei a pensar: ‘Ops, talvez não tenha sido uma boa pergunta. Esta entrevista vai acabar agora. Mas uns 30 segundos mais tarde, ouvi: ‘Marc, você está me ouvindo?’. ‘Estou ouvindo sim’. E ele começa a cantar a música inteira, ao mesmo tempo tocando um instrumento que ele tem em casa chamado harpeji, uma espécie de cruzamento entre piano e violão. Ele estava explicando o que quis fazer com os vocais e sentiu que precisou levar o telefone para seu estúdio caseiro e cantá-la. Alguma coisa desse tipo aconteceu em cada uma das canções.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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