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Onde o sofrimento não tem vez: Na nossa vida

21/12/2016 13:58 -02

emotional suffering illustration

Em tempos de Brasil mundo polarizado, o sofrimento nos une. Ou melhor, a recusa de que ele existe.

Não importa se na vida a gente é rei do camarote ou adepto da sofrência: o sofrimento, essa praga danada, precisa ser extinguido para cumprirmos nosso elaborado plano de conquista da felicidade garantida sabe-se lá onde. Esteja o meu destino onde estiver, eu vou buscar a sorte e ser feliz, diria uma filósofa brasileira.

Nas histórias infantis, o lobo mau vem repaginado: deixou a maldade de lado depois de ter sido marcado em um textão no Facebook. Na infância, o dedo na tomada é apresentado como o maior perigo da vida. O vestibular e o Enem são os maiores desafios que um jovem pode ter, e ai do adulto que se queixar de exploração no trabalho em um ano de tanto desemprego! Ilusões orquestradas para indicarem uma vida sem grandes sofrimentos quando, na verdade, não há como existir sem sofrer e sem passar por certo mal-estar.

“Nossa época acredita que todo mal-estar é redutível ao sofrimento e todo sofrimento deve ser reduzido a sintomas, que seriam então administrados por discursos e práticas específicas. Isso cria a ilusão de que o sofrimento é apenas um acaso evitável e que uma boa vida prescinde de sofrimento; basta ter meios e posses para erradicá-lo”, sentencia o psicanalista Christian Dunker, autor do livro Mal-estar, Sofrimento e Sintoma (Boitempo, 2015), vencedor do 2º lugar do Prêmio Jabuti deste ano.

Na publicação, Dunker estabelece um paralelo entre as formas atuais de sofrimento, o neoliberalismo, o mal-estar e o ideal de vida condominial cultivado pelos brasileiros. Em uma sociedade que estabelece muros para colocar o diferente do lado de fora, é fácil dizer que o problema é sempre do outro. E fica ainda mais difícil reconhecer que o sofrimento faz parte da vida.

Antes do século 19, o sofrimento era encarado como uma espécie de punição divina ou como parte do processo de purificação da alma, ele explica. Depois, sofrer foi se desligando da ideia de “fonte de salvação” e foi se associando a aspectos morais do ser humano. Hoje, seja na criação dos filhos, no trabalho ou na vida conjugal, reduzir o peso das experiências de sofrimento se tornou um símbolo de amor, exemplifica o psicanalista.

Além disso, há uma ideia equivocada de que o sofrimento seja uma experiência individual, quando, na verdade, é coletiva.

“Ele decorre de como interpretamos o mundo, nós mesmos e os outros. Se amamos alguém, sofremos quando este alguém sofre. E todos aqueles com quem estamos ligados por laços de amor sofrem quando nós sofremos.”

Porém, ao mesmo tempo em que o sofrimento é tido como algo a ser exterminado, o trabalho, onde investimos boa parte da nossa energia diária, tem se tornado um grande fazer-sofrer.

E, a cada dia que passa, costuramos ainda mais nossas vidas à atividade laboral: fazemos longos expedientes, marcamos reuniões na hora do almoço, ficamos disponíveis no celular todo o dia, e trazemos atividades pessoais para o mesmo local, como a academia ou o curso de inglês.

Nesse cenário, o neoliberalismo não só lucra como ainda estabelece uma política para o sofrimento:

“Se o liberalismo até os anos 1980 via no sofrimento um obstáculo à produção e um problema de saúde pública que poderia atrapalhar o desempenho geral das empresas e da vida das pessoas, o neoliberalismo descobriu como se pode usar a engenharia humana para aumentar a produtividade.”

Isso pode ser feito de diferentes maneiras. Uma delas é cilada conhecida: propõe-se que o empregado trabalhe pelo tempo que quiser, na forma de projetos. Porém, o volume de serviços aumenta com o número de projetos, ao mesmo tempo em que crescem a cobrança de engajamento e o volume de coisas a fazer, fazendo que todo o trabalho seja impraticável. Mas se o trabalhador não conseguir, o “fracasso” é dele.

“São como as seleções dos campos de concentração. A ideia de que os melhores sobrevivem leva em conta que o medo intenso de perder o emprego, ou seja, o sofrimento pode aumentar o engajamento no trabalho.”

Outra forma de expandir a produtividade do sujeito que está sofrendo é o incentivo ao uso de medicamentos e drogas.

“Dopagens consentidas, excitantes, calmantes, vitamínicos, energéticos, substâncias legais e ilegais são mobilizados para tratar insônias, ansiedades, agressividades, impaciências, intolerâncias ou irritações. Ou seja, tudo funciona para capitalizar o sofrimento.”

Porém, tal encaminhamento da vida produz resultados dolorosos: O trabalho se torna uma máquina produtora de sofrimento, e as pessoas que sofrem são tachadas de fracas ou doentes pelo mesmo sistema que as levou a essas condições. Desta forma, o sofrimento vira adoecimento.

“A ligação próxima entre trabalho e sofrimento já está na etimologia da palavra: Tripalium, no latim, era um instrumento de tortura, uma forma de torcer e fazer o corpo obedecer”, exemplifica Dunker. A separação entre fraqueza e adoecimento vai depender do nosso julgamento, e esse julgamento pode ser modificado pelas palavras que usarmos:

“Qual é a exata diferença entre a força e a brutalidade? Entre a perseverança e a teimosia? Entre a capacidade de liderança e a imposição autoritária? Entre a independência visionária que cria novas ideias e o egoísmo de quem não sabe pensar em grupo? Narrativas diferentes mudam completamente o valor do mesmo comportamento.”

Sofrimento ou depressão?

Dentro de uma sistemática que define o fraco e o doente pela capacidade de “resistir” ao sofrimento, e em meio à inflação de diagnósticos que categorizam muitos comportamentos humanos como doença, a depressão ganha popularidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que esta será a doença mais incapacitante do mundo. É a produtividade em risco, ao mesmo tempo em que surgem mais formas de produzir sofrimento.

Relatos de anônimos e de famosos sobre depressão ilustram um cenário preocupante. Porém, essa condição tem sido banalizada, especialmente dentro de um discurso em que “podemos tudo e temos infinitas possibilidades”, pondera Dunker:

“É uma narrativa que frequentemente encontramos na clínica. Uma vida que começa com todos os dotes e ideais possíveis, em geral sobre-estimados por toneladas de amor incondicional e reforçados por discursos de livre potência e de infinitas possibilidades, que estariam à mão de todos. Segue-se a descoberta de que a vida pode vir com certas dificuldades. Que você sente que está passando, mas seus colegas de Facebook, não. Você se dedica verdadeiramente a enfrentar seus limites, mas então percebe que sua empresa te dá muito mais trabalho que qualquer ser humano seria capaz de aguentar. E quando o sonho dourado não acontece, isso se deve 'apenas e exclusivamente à sua insuficiência e incapacidade'. Por que isso acontece?”

A falta de serotonina ou dopamina no cérebro – depressão - muitas vezes é apontada como a responsável pelos infortúnios de uma pessoa. Ou seja, uma causa biológica. Com ironia, Dunker questiona a passividade que vem junto com o discurso da depressão, como se não houvesse relação da pessoa com o próprio sofrimento.

“É preciso mudar alguma coisa em suas práticas, crenças e disposições? Não, de forma alguma nós somos o que somos, e o sofrimento não depende de como eu participo dele. O mundo é assim e devemos aceitá-lo como tal: É a versão obscena e complementar de ‘eu sou assim’. Ou seja, há uma inflação generalizada de nossa potência narcísica, que domina nossa educação e nosso discurso sobre as crianças hoje em dia. Uma vida pré-fabricada, uma narrativa de sofrimento compulsória e um sistema de tratamento que colabora com isso só poderiam criar uma epidemia mundial de depressão.”

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O outro que precisa ser afastado

No livro Mal-estar, Sofrimento e Sintoma, Dunker relaciona a vida em forma de condomínio com o sofrimento e com nosso modo de lidar com quem é diferente. Segundo o especialista, em 1970 o Estado começou a perceber que não iria dar conta de desenvolver e administrar o país todo. Então, repassou uma parte de seu serviço para a forma de autoadministração dos condomínios, em um modelo também visto nas prisões, favelas e shoppings centers – “áreas de exclusão e de aplicação parcial da lei, definidas por um estreitamento do tamanho do mundo e pela inflação da identidade dos participantes”.

No caso dos condomínios, o muro tem uma função defensiva cheia de efeitos colaterais, como o fato de não vermos mais o outro. Com isso, desaprendemos a lidar com as diferenças. E quando precisamos lidar com elas – afinal, elas vão aparecer – , sentimos perigo, paranoia e medo.

“Ao final, só consigo produzir ódio e mais segregação quando encontro o outro, cujo problema fundamental é que ele é diferente de mim. Em vez de uma diferença produtiva, ele é desqualificado por seus atributos de identidade: gênero, raça, posição social e ideologia política. Assim, eu importo o condomínio para onde eu for. Posso sair do país e ele virá comigo.”

Após a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, muito se discutiu a respeito das bolhas de Facebook, mas pouco se falou sobre o fato de nós mesmos criarmos esses espaços restritos, ao excluir do convívio quem nos desagrada. Em paralelo a essa falta de implicação, os problemas do mundo frequentemente são deslocados para o outro, e sofremos com a sua “invasão”.

“Junto com o condomínio vem esta narrativa de sofrimento de que o mal está no outro. O mal vem de fora, e deve ser purificado e detido com mais muros, silenciamentos, regulamentos e cercas. Tudo isso tem a função adicional de criar mais e mais síndicos, até que nos tornamos síndicos de nossas próprias vidas, e não propriamente agentes e sujeitos dela.”

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