MULHERES

Modelo brasileira Fluvia Lacerda é a primeira mulher plus size que estampa a capa da 'Playboy Brasil'

19/12/2016 15:19 BRST | Atualizado 19/12/2016 15:19 BRST

"O jeito como a moda trata as mulheres plus size é ofensivo e desmoralizante"

A afirmação inquietante de Tim Gunn, um dos consultores de moda mais reconhecidos no mundo, é uma alfinetada ao mercado de produção de roupas.

Se trocarmos "moda" por "mundo" na frase acima, é possível exemplificar como é a tentativa de silenciar e invisibilizar as mulheres que não têm um corpo que atende aos padrões impostos pela sociedade não só pelo mercado de roupas.

Desmoralizadas e ofendidas, as mulheres plus size até então não tinham chegado a lugares como, por exemplo, a capa de publicações voltadas ao público feminino e até de revistas como a Playboy.

Mas parece que este cenário está mudando.A modelo brasileira Fluvia Lacerda será a primeira mulher gorda quebrar este paradigma. Ela é quem estampa a capa da Playboy Brasil de dezembro.

O anúncio foi feito no último sábado (17) no perfil do Facebook da modelo. Ela divulgou uma das foto do ensaio em que aparece vestida da tradicional coelhinha e escreveu:

É oficial! Estou incrivelmente feliz com tanto amor e apoio de vocês!

Mais tarde, ela editou o post e completou:

Desci do meu voo em Dubai, liguei o celular e o pobre quase implodiu! Que incrivelmente maravilhoso é ver tanta repercussão positiva quanto a ser a primeira mulher gorda na capa da Playboy Brasil! Muito grata por tanto carinho e apoio!

Na tarde desta segunda-feira (19), ela divulgou a capa da edição:


Emocionada, Fluvia escreveu:

Livre e empoderada pela certeza de que debaixo da minha própria pele eu posso estar, viver e concretizar tudo aquilo que quiser. Por que o corpo é meu e posso celebrá-lo do jeito que quero e bem entendo.

Em entrevista à coluna do Bruno Astuto, na revista Época, Fluvia disse que está negociando com a revista desde fevereiro deste ano e que estudou muito antes de aceitar a proposta.

"Confesso que inicialmente não fui muito fã da ideia, mas soube que nessa nova fase da revista eles estão menos sexuais, digamos, e com fotos mais artísticas. Gostei da proposta que me fizeram e me deram carta branca para fazer as fotos do jeito que eu quisesse"

A revista será uma edição especial para colecionadores que ficará três meses nas bancas e estará disponível a partir desta terça-feira (20). A pré-venda já está disponível no site da revista.

Fluvia completa:

"A base do meu trabalho é apoiar essa revolução feminina no planeta, essa é minha luta. Meu discurso é que as pessoas precisam se aceitar do jeito que são. A vida é muito curta para se importar com padrões impostos."

Fluvia mora em Nova York, nos Estados Unidos, desde os 16 anos. A modelo, que ficou conhecida no meio da moda como "Gisele Bündchen tamanho GG", mede 1,73m e veste 48. Em entrevista ao EGO, Fluvia contou que nunca tinha pensado em ser modelo até ser abordada em um ônibus por uma agente:

"Estava atravessando Manhattan quando uma mulher se aproximou e perguntou se eu já havia considerado a ideia de trabalhar como modelo "plus size". Achei que era piada, afinal, sempre acreditei que para ser modelo era necessário ser pele e osso"

Por mais mulheres reais

Além de Fluvia, em outubro deste ano, a jornalista e modelo Ju Romano foi a primeira mulher plus size a posar para a revista.


Na época, ela escreveu em seu blog:

"Eu luto há mais de 9 anos para que a mulher não precise da aprovação de ninguém, eu sou feminista a ponto de saber que eu não preciso ser NADA para agradar a homem nenhum, mas eu também luto para que a sociedade olhe a mulher gorda como uma mulher normal, que as pessoas encarem uma mulher gorda da mesma forma que encaram uma mulher magra e um dos meios para conquistar isso se chama REPRESENTATIVIDADE"

E completa:

"É colocar a gorda em revistas, em seriados, em filmes... E não só como a gorda coitadinha ou alívio cômico, é colocar a gorda como uma mulher empoderada, bem sucedida, amada, desejada, confiante e de forma positiva, provando que a gorda não tem que se esconder e que faz parte sim da sociedade, como qualquer outra mulher com qualquer outro formato de corpo."

Assim como Juliana disse, colocar a mulher gorda como uma mulher empoderada -- provando que ela não tem que se esconder --, é romper um lado do modelo opressor e inalcançável de beleza que atinge as mulheres.

Novidades editoriais da Playboy

Em outubro de 2015, a revista masculina anunciou que, a partir de março de 2016 deixaria de publicar fotos de mulheres nuas.

Scott Flanders, presidente-executivo da empresa, disse ao New York Times que o fundador e editor-chefe Hugh Hefner, de 89 anos, que incorporou o estilo de vida da Playboy em seu pijama de seda, concordou com uma sugestão do principal editor, Cory Jones, de parar de publicar imagens de mulheres nuas.

Em um artigo, a Playboy explicou mais detalhes sobre a mudança:

"A pergunta que provavelmente todo mundo está fazendo é 'Por quê?'. A Playboy tem sido uma amiga da nudez, e a nudez tem sido um amiga da Playboy durante décadas. Uma resposta direta é: os tempos mudam. [...] Sim, nós estamos assumindo um risco ao fazer isso, mas esta é uma empresa - como todas as grandes empresas que tem o 'risco' em seu DNA. Foi construída quando ninguém achou que faria sucesso, mas agora é impossível (para nós), imaginar um mundo sem a Playboy. Nosso jornalismo, arte, fotos e ficção têm desafiado as normas, desafiou as expectativas e agora precisa estabelecer um novo tom"

A revista optou por continuar apresentando as mulheres em poses apenas sensuais e provocantes, e não completamente nuas.

Aqui no Brasil as mudanças foram incorporadas aos poucos pela revista. Uma das novidades mais curiosas a respeito da nova Playboy é que a publicação não pagará mais cachê para quem posar.

Segundo André Sanseverino, publisher da revista, a marca vem com uma "nova proposta sobre o nu" e objetivo de "oferecer uma experiência única", como disse ao UOL.

"Tanto a nossa capa de agora quanto as demais, quem vai dar os limites são elas. Vão ser grandes produções, e por isso não faz mais sentido colocar preço na nudez de uma mulher."

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