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Como o governo Temer foi de 'ponte para o futuro' a 'pinguela'

17/12/2016 09:20 -02 | Atualizado 17/12/2016 09:20 -02

Considerado uma “pinguela” pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governo tampão do presidente Michel Temer deixou de ser visto como uma “ponte para o futuro” - como o próprio PMDB nomeou a proposta de gestão. Nos corredores do Congresso Nacional, o discurso é de que o governo já acabou. O comentário predominante é de que “a ponte está caindo”.

As falas que se restringiam aos desejos da oposição e o clamor por novas eleições começam a ganhar corpo. Nos últimos dias o discurso foi endossado tanto pelo líder do DEM Senado, Ronaldo Caiado (GO), quanto pelo deputado da Rede Miro Teixeira (RJ), autor da emenda que prevê eleições diretas.

Enquanto Caiado quer antecipação das eleições para a presidência e o Legislativo, Teixeira defende eleições diretas para presidente até seis meses antes do fim do mandato.

As propostas preocupam o Planalto. Segundo o deputado da Rede, há um pedido formal da Casa Civil para que a emenda não seja votada pela possibilidade de causar mais “intranquilidade”.

"O importante de tudo é garantir eleições diretas para a população, que não quer sequer imaginar na possibilidade do Congresso escolher o presidente, diante dessa tamanha situação de profunda crise política no país”, diz o deputado da Rede.

Lava Jato, crises internas, baixa popularidade, reformas impopulares, perda de apoio da população são alguns dos ingredientes apontados por deputados para desistir da aliança com o presidente. Para completar, Temer foi citado duas vezes esta semana na Lava Jato, em uma delas é mencionado por ter pedido R$ 10 milhões a Odebrecht. O desgaste com a delação da maior empreiteira do País também fez o advogado José Yunes pedir demissão da assessoria especial do presidente. De acordo com o depoimento do executivo Cláudio Mello Filho, o amigo de Temer recebeu dinheiro em espécie em seu escritório.

“Porque empurrar com a barriga até 2018? Há uma somatória de fatos que impedem que o governo siga adiante. Esse governo já caiu. Não tem o menor respaldo popular. O presidente não fala com a população. Só se protege. Governar não é se resguardar. Tudo isso provoca essa reação de descrença na sociedade”, desabafou Caiado ao HuffPost Brasil.

Há a mesma crítica dentro do PSDB. A principal preocupado dos aliados de Temer é a economia, que não avança. Mesmo com a proposta do presidente de apresentar um novo pacote de medidas para alavancar as contas do País, os tucanos avaliam que o humor do mercado continuará pessimista.

Base treme

Se no Senado as reclamações se restringem a reuniões particulares, na Câmara a crise com o governo já se reflete na tramitação de projetos de interesse do governo. A reforma da previdência, por exemplo, não deve ser votada até abril, como deseja o governo.

“Do jeito que o texto foi enviado não precisa nem se posicionar contra para ele não ser aprovado”, disse ao HuffPost Brasil o deputado Paulinho da Força (SD-SP), da base de Temer. Integrantes do PSB e do PTB, da base governista, também se posicionam contra o conteúdo da reforma e dos projetos de governo do peemedebista.

Além da resistência pelo tom pessimista da proposta, a reforma está sendo afetada pela relação do presidente com os deputados. Fragilizado por críticas feitas pelo PSDB, Temer decidiu dar mais espaço aos tucanos com a escolha de Antônio Imbassahy para substituir Geddel Vieira Lima na Secretaria de Governo.

A futura indicação embaralha a disputa pela presidência da Câmara e deixa Temer refém do humor do centrão, que conta com cerca de 200 votos, e planeja concorrer ao cargo. Caciques do grupo, os deputados Jovair Arantes (PTB-GO) e Rogério Rosso (PSD-DF) resistem em apoiar incondicionalmente as estratégias de Temer.

Aposta de reconciliação

Os governistas acreditam que a fragilidade do governo é passageira. Acreditam que se pacificar a relação com a base na Câmara, o governo sobrevive ao próximo ano. Ao HuffPost Brasil, um tucano afirmou que se o governo conseguir atravessar os primeiros meses de 2017, a ponte pode voltar a ser segura, mas dificilmente será estável.

O cenário futuro é nebuloso. Temer enfrenta pedidos de impeachment, mais 76 delações da Odebrecht - só a primeira fez um estrago imensurável -, processo de cassação da chapa Dilma-Temer no TSE e pressão pela renúncia.

Temer que sempre disse não querer ser um governante popular viu sua taxa de popularidade despencar. Em julho, 31% achava o governo ruim ou péssimo, o índice chegou a 51%.

Eleições diretas X indiretas

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, caso a chapa seja cassada ate os seis últimos meses antes do fim do mandato são chamadas novas eleições diretas. Se o presidente renunciar ou for impedido, a regra atual prevê eleições indiretas.

Contra a possibilidade de o Congresso escolher o novo representante do povo, o clamor pela PEC de Miro Teixeira ganha força. A proposta já é defendida pelo PT e outros partidos de oposição.

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