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Você vive perdendo prazos? Uma infância sem rotina pode ser a 'culpada'

16/12/2016 12:29 -02 | Atualizado 16/12/2016 12:29 -02

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Psicólogos constataram que crianças que seguem rotinas diárias consistentes crescem com menos problemas de atenção e de gestão do tempo.

Você tem dificuldades em administrar seu tempo? Luta para concluir tarefas? Talvez precise “agradecer” a seus pais por isso.

Uma nova pesquisa revela que ter uma vida doméstica imprevisível, livre e cheia de improvisações na infância pode exercer efeitos negativos duradouros.

O estudo da University at Albany, publicado na edição de novembro-dezembro do Journal of Applied Developmental Psychology, concluiu que crianças que crescem seguindo rotinas diárias previsíveis têm menos probabilidade de apresentar problemas de atenção ou de administração do tempo quando chegam à idade adulta jovem.

No estudo, psicólogos convidaram 292 estudantes universitários a avaliar o grau de regularidade de uma série de atividades e rotinas de sua infância, incluindo refeições, atividades extracurriculares, hábitos de sono e tempo passado com a família e amigos.

Descobriram que os estudantes que relataram ter tido mais consistência em seu cotidiano quando crianças tendiam a ter menos dificuldades de atenção e gestão do tempo. Em outros estudos, a mesma equipe de pesquisadores mostrou que crianças que seguem uma rotina mais regular também possuem autocontrole melhor na idade adulta, além de menos ansiedade e depressão.

“Este estudo faz parte de uma linha de pesquisas mais ampla que explora a relação entre a estabilidade do ambiente familiar e o grau de ajustamento de crianças, adolescentes e adultos emergentes”, disse ao Huffington Post a Dra. Jennifer Malatras, psicóloga da University at Albany e autora principal do estudo.

“Nossa pesquisa sugere que a regularidade maior nas atividades e rotinas familiares está associada a menos problemas em geral. E acreditamos que é possível melhorar a regularidade das rotinas familiares, mesmo quando talvez não seja tão viável modificar aspectos mais globais da estabilidade familiar.”

As rotinas provavelmente contribuem para dar à pessoa uma sensação de segurança e controle sobre seu ambiente. Crianças que sabem o que esperar numa base diária têm probabilidade maior de sentir um senso de estabilidade na família do que as crianças cujas vidas diárias são mais erráticas, explicaram os pesquisadores.

Esse parece ser o caso especialmente de crianças cujas famílias passam por dificuldades. As pesquisas anteriores de Malatras mostraram que a consistência nas atividades diárias exerce impacto positivo sobre crianças que passaram por grandes mudanças na família, como uma morte ou o divórcio dos pais.

“Uma família que passa por um divórcio talvez possa manter ou até aumentar a regularidade e previsibilidade do ambiente familiar, garantindo que as crianças sigam rotinas diárias sempre iguais, como por exemplo uma rotina consistente na hora de dormir ou de participar de atividades extracurriculares. Isso pode servir como um fator protetor”, explicou a psicóloga.

Vários outros psicólogos já sugeriram que rotinas conferem à criança um senso de estabilidade e conforto, recomendando que os pais estabeleçam um ritmo de atividades e tradições diárias desde o início da vida de seus filhos.

“Criar rotinas com seus filhos ajuda a dar segurança a eles”, falou em entrevista recente a psicóloga infantil australiana Danielle Kaufman. “Eles vão saber o que esperar quando vão para casa, e isso lhes garante limites e expectativas claras, além de consistência.”

É evidente que uma limitação do estudo recente é que ele foi baseado nas memórias que adultos jovens tiveram de sua infância, e não em informações reais sobre suas rotinas na infância. Mesmo assim, o estudo sugere que as rotinas são uma área importante para ser estudada por psicólogos.

“É importante reconhecer a complexidade do desenvolvimento infantil e as múltiplas influências que afetam a trajetória de desenvolvimento da criança”, disse Malatras. “Promover a estabilidade familiar durante a infância e adolescência pode reforçar o desenvolvimento de habilidades que podem ser importantes para o ajustamento e o funcionamento geral da pessoa.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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