COMPORTAMENTO

WhatsApp, Messenger, SMS: Como é estar conectado aos amigos 24 horas por dia

15/12/2016 16:25 -02 | Atualizado 15/12/2016 16:25 -02
Rawpixel via Getty Images
Diversity Friends Connection Global Communication Concept

Numa metrópole como São Paulo, em que as agendas quase sempre estão tomadas de compromissos - sejam eles profissionais ou acadêmicos -, o "vamos marcar de sair" já virou piada entre algumas pessoas.

Manter as amizades com encontros presenciais tem sido um desafio. Em contrapartida, o contato virtual entre amigos conectados é cada vez mais frequente. O Brasil é hoje um dos países que mais usam aplicativos de mensagens no mundo.

Uma pesquisa da MEF (Mobile Ecosystem Forum), divulgada em junho deste ano, aponta que o WhatsApp é a ferramenta preferida de 76% dos assinantes de linhas móveis. Em segundo lugar está o Facebook Messenger, acessado por 64% dos brasileiros. Em terceiro aparece o serviço de SMS (37%). Das 6 mil pessoas entrevistadas, 5% usam o Telegram e apenas 3% o WeChat.

Com essas ferramentas de comunicação, compartilhar momentos com os amigos passa a ser uma experiência ainda mais simultânea.

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Yasmin Muller e sua cadela Pepa. Diversos grupos de amigos e algumas experiências inusitadas

É assim que funciona para Yasmin Muller, de 28 anos. Nascida em Fortaleza e radicada em São Paulo, a editora de conteúdo coleciona grupos de colegas e familiares no WhatsApp. Há três anos, também mantém contato com meia dúzia de grandes amigos - que conheceu em um antigo trabalho - no Facebook Messenger, batizado carinhosamente de Forever Young.

“Acabei me mantendo mais próxima dos amigos que estão nos grupos, especialmente se comparar a relação que tenho com outros que não estão em nenhum deles”, afirma ao HuffPost Brasil.

"O fato de alguns amigos de Fortaleza que eu só vejo pessoalmente, por exemplo, não participarem de grupo nenhum fez com que nossa relação se distanciasse absurdamente."

A manutenção desse contato geralmente é feita por meio de textos, fotos, links de conteúdos interessantes na internet e dicas de discos. "Raramente é por áudio", revela. No Forever Young, a rotina já foi mais agitada. Hoje em dia, a troca de mensagens acontece uma ou duas vezes por semana.

Explosão de notificações

Já a frequência de mensagens no grupo do Facebook que reúne os principais amigos do produtor musical Pedro Lima, de 24 anos, é bem diferente. "O grupo é bem ativo, com um nível de 500 mensagens por dia", revela ao HuffPost Brasil. Esse número alto de mensagens se resume, basicamente, a textos e fotos. "Printscreen [imagem da tela], mais especificamente, para compartilhar coisas com detalhes", conta entre risos.

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O produtor musical Pedro Lima. Seu grupo mais ativo troca mais de 500 mensagens por dia

Lima também acumula uma porção de grupos tanto no Facebook Messenger quanto no WhatsApp.

"Tem um com uma turma X de amigos, outro com uma turma Y, outro com pessoas que vão passar o Ano Novo comigo, além daqueles com pessoas ligadas a projetos profissionais."

Para ele, essa variedade de grupos em ferramentas online não é algo que facilita as relações no cotidiano de um jeito "óbvio": "Juntando todo mundo num lugar só e entregando informação direta com mais praticidade", diz.

Na rotina de interação nos grupos online não há regras para entrada de novos membros.

"É uma questão de fazer sentido. Não tem por que colocar fulano do grupo Y no grupo X, se lá no grupo Y está tudo ok e a pessoa está bem informada do que acontece por lá."

Mas nada impede essa edição de acontecer. "Recentemente, adicionamos um novo membro nesse grupo mais ativo que participo. Ele não é de São Paulo, estava saindo com a gente de vez em quando e ficava por fora dos assuntos que rolavam pessoalmente. Então fez sentido colocá-lo no grupo", conta o produtor musical.

Para Yasmin, a chegada de novos membros aos grupos é uma questão de "bom senso": "Nos meus grupos normalmente não há muita mudança pois todo mundo sabe que eu sou chata com pessoas novas, além de não ser 'galerosa'", revela.

Momentos memoráveis

Uma das grandes vantagens de manter a comunicação online para além do "mundo real" com os amigos está na possibilidade de compartilhar uma história engraçada, um relato importante ou uma boa notícia e poder acompanhar a reação simultânea de todos.

Há pouco mais de um ano, Yasmin viveu um desses momentos marcantes no grupo Forever Youg, quando foi anunciado o sexo do bebê de um dos casais que integra o grupo. Ela havia apostava que seria uma menina. E acertou.

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Altos e baixos

Nem tudo são flores na experiência de comunicação 24 horas via grupos online. Por vezes, frases podem ser mal interpretadas e diálogos podem ganhar novos sentidos, tornando uma discussão aparentemente simples em uma cruzada desgastante capaz até de encerrar amizades.

Lima viveu recentemente um episódio do tipo com Vitor, um dos membros do seu principal grupo online de amigos. Num dia de estresse acumulado, o produtor musical disse algo que foi interpretado de maneira equivocada pelo amigo. "Ele deu uma explodida, saiu do grupo, mas no dia seguinte já voltou mais calmo. Daí conversamos [no Facebook] e ficou tudo bem".

Esse desfecho feliz não foi o mesmo vivido por Yasmin em um dos conflitos que já vivenciou em um grupo de WhatsApp.

"Uma amiga nossa de faculdade convidou a turma para o casamento dela em Ilhabela, onde ela mora. O casamento foi um desastre, ela foi uma escrota e a amizade acabou ali, com a gente indo embora da casa dela no dia seguinte. Ninguém estava falando sobre isso e, antes de chegarmos na balsa, ela já tinha saído do grupo. Nunca mais falei com ela direito."

A partir desse caso, Yasmin passou a ver que é especialmente complicado quando um membro decide abandonar um grupo no Facebook Messenger ou WhatsApp após um episódio de desentendimento.

"Acho que quando a pessoa sai do grupo, fica uma sensação de sair batendo porta, e ninguém vai ter muito saco de ir atrás."

Um fator que pode colaborar para eventuais desentendimentos nos grupos online é a comunicação por meio de texto que, segundo Yasmin, "sempre abre espaço para interpretações erradas". Ela fala por experiência própria. "Sou a rainha disso. Pareço sempre grossa e sempre acho que os outros estão sendo escrotos. Mas aprendi a não ter conversas espinhosas por WhatsApp e afins. Espero falar pessoalmente, se puder", diz.

Para ela, os problemas que nascem nos grupos online geralmente têm que ir para o "mundo offline" para serem resolvidos. O olho no olho e o tom de voz ainda são requisitos importantes para uma reconciliação.

"Mas tem muita coisa que a gente deixa pra lá, né? Não vale a pena lidar no offline. Então todo mundo finge que não aconteceu nada. Senão vira tudo bola de neve."

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