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Por trás da foto perfeita, nada de vida ideal: As vivências reais de mães e pais na era da internet

15/12/2016 16:16 -02 | Atualizado 15/12/2016 16:16 -02

selfies de família

Quem vê as crianças sorrindo nas fotos, em instantes de plenitude capturados por uma câmera, não imagina as diversas conciliações, sacrifícios, horinhas de descuido e aprendizados envolvidos naquela cena.

Ainda que hoje sejam divulgados online, nas redes sociais, os álbuns de família continuam trazendo recortes da vida cotidiana e seus detalhes, preparos e imprevistos.

Com o sinal verde para a interação de quem vê as fotos, por meio dos likes e comentários, algumas famílias têm se popularizado no compartilhamento desse tipo de conteúdo e se tornado referência nos desafios e dilemas da maternidade e da paternidade.

O casal Lua Fonseca, 35 anos, e Pedrinho Fonseca, 41 anos, soma quase 29 mil seguidores em seus perfis no Instagram. Nas redes, um mosaico afetuoso de imagens da família composta pelos filhos João, Irene, Teresa e Joaquim, que está a caminho. As crianças são também a inspiração para o site de Lua, No Drama Mom, onde ela escreve sobre maternidade, e para as mensagens e cartas que Pedrinho endereça aos filhos no site Do Seu Pai.


Ambos dizem que já tiveram receio da exposição das crianças, mas a questão foi resolvida de modo prático, diz Lua ao HuffPost Brasil:

“A primeira coisa é que não ganhamos dinheiro com essa exposição. Não somos percebidos como blogueiros. Essa exposição serve para compartilhar, agregar, chamar mais gente para o diálogo. E segundo que a gente recebe tanto amor, tanto carinho de volta, que o receio passou.”

Também ao HuffPost Brasil, Pedrinho completa:

“A minha família é esta que está nas fotos, nos textos, nos vídeos. Não tem fantasia. Cuido bastante para que não haja nada que os envergonhe no futuro, claro. Mas estamos todos ali (até mesmo nas redes sociais) porque SOMOS isto. E essa fração é a mais importante que temos. De uma família que escolheu, diariamente, levar uma vida leve.”


O casal concilia o cuidado das crianças com seus trabalhos – Lua é doula e terapeuta corporal, e Pedrinho é fotógrafo e trabalha com publicidade.

“Eu e Pedro nos dividimos nas tarefas todas, o que facilita a vida. Se preciso atender gestantes, ele fica. Além disso, temos trazido as crianças para ajudar em algumas funções, como botar a mesa, tirar o prato, arrumar as mochilas.”

O pai também é bastante participativo na educação sentimental das crianças. Ao falar de emoções com elas nas cartas Do Seu Pai, Pedro ajuda a desconstruir a imagem de que homens não se emocionam, não choram e não se fragilizam.

“Sinto uma estranheza quando percebo que ainda há homens que se vestem de heróis e põem suas capas de invencibilidade, como se fosse possível não estar vulnerável a este mundo tão roto. A vulnerabilidade é fundamental para que a gente baixe a guarda, receba amor, possa se reconstruir como homem. Quando falo com as crianças (ou quando escrevo para elas), tento ser o mais honesto comigo mesmo sobre o que (e como) quero dizer. Para que, no futuro, elas percebam isso, saibam de onde vieram, do que são feitas, e como atravessamos juntos esse percurso.”


Maternidade idealizada

No site No Drama Mom, Lua compartilha vivências da maternidade. O que se lê são depoimentos que trazem tanto aprendizados como dúvidas e falhas. “A gravidez tem me tirado um bem precioso. À medida que a barriga cresce, a paciência vai embora e tá difícil manter a tranquilidade. Claro que essa falta de paciência atinge diretamente as crianças e o marido, mas ela também me consome, porque essa vibe não é legal”, escreve em um post. Um retrato bastante distinto da maternidade idealizada disseminada pela cultura e pela publicidade.

“Eu nunca idealizei a maternidade, então, acho que sofri menos pressão pessoal. Vejo que hoje as mães querem seguir cartilhas, manuais. São tantas as expectativas criadas, que facilmente elas se frustram. São muitos ‘pode e não pode’, ‘faça e não faça’. Quando, na verdade, as mulheres precisam ouvir seus instintos e tentar respirar no turbilhão emocional que é receber uma criança.”

Segundo ela é fundamental entender o filho como um indivíduo.

“É alguém que, apesar de precisar muito de você, não é a sua continuação. Respeitar a criança também ajuda a desconstruir essa maternidade idealizada.”

A photo posted by Lua Fonseca (@luabfonseca) on


Carol Rocha, conhecida nas redes sociais como Tchulim, possui 56 mil seguidores em seu perfil no Instagram. Lá, temos acesso às adoráveis fotografias de Valentin, o filho de um ano e meio. Ela também tem um canal de vídeos no Youtube, onde expõe situações da maternidade.

“Aprendi a ‘ler’ meu filho, deixar a intuição falar mais alto. Busquei muita informação e tipos de maternagem e, no fim, descobri que essas informações são ótimas para dar uma base para a intuição.”

Ela conta ao HuffPost Brasil que a desconstrução mais importante em sua experiência pessoal foi a do amor instantâneo pelo filho.

“Não, a gente não ama de cara. A gente cuida, alimenta, acolhe, mas o amor mesmo só vem com o tempo. Existe uma construção social que pressiona a mulher para que assim que descobre a gravidez TEM QUE amar loucamente, e, na verdade, esse amor só virá com o tempo, descobrindo aquele serzinho, conhecendo.”

A photo posted by Carol Rocha (@tchulim) on


Segundo Tchulim, falar de seus dilemas nas redes sociais a ajudou a solucionar problemas. E a outras mulheres também.

“Recebo relatos lindos de mulheres que descobriram soluções para algum problema lendo algum post e conversando com outras mulheres nos comentários! Isso é lindo demais!”

Famílias perfeitas

Uma das críticas frequentes às redes sociais é de que elas fariam uma espécie de maquiagem da realidade, mostrando situações e vidas perfeitas. Mas julgar é fácil: Quem olha as fotos compartilhadas por Tchulim, Lua e Pedrinho, com os encantos do dia a dia, não faz ideia dos “tombos” que eles levam nesse mesmo cotidiano.

“A internet serve a muitas coisas, inclusive a maquiar, fingir ser o que não é, tentar se adequar a esse tanto de padrões impostos”, afirma Pedrinho.

“Mas temos escolha. A nossa foi ser o mais fiel ao que vivemos. As imagens podem até ter tratamento, edição, photoshop. Mas a situação não. A nossa escolha é usar as redes sociais para o diálogo, para a empatia, para nos conectar às pessoas inclusive fora dela.”

A photo posted by Carol Rocha (@tchulim) on


“Se fôssemos conhecer uma família da modernidade, pelas fotos que ela punha nos porta-retratos, igualmente teríamos uma visão apenas dos melhores momentos, tanto afetivos, como estéticos. A rede social apenas amplia essa tendência”, explica a terapeuta de família e psicóloga clínica Louise Madeira em entrevista ao HuffPost Brasil.

Lua destaca a pluralidade do universo da internet, e, que há de tudo um pouco:

“Falando especificamente da maternidade, é igual: tem as mães que insistem no modelo da perfeição e aí os filhos estão sempre lindos, penteados e arrumados; ela é magra, malha, tem uma vida linda e milhares de pessoas querendo justamente aquilo. Tem as mães alternativas e todas as suas regras do que é necessário fazer para criar filhos de bem. Tem as mães vida real, que tentam mostrar um pouco do caos que é uma vida com crianças...Para todas essas existem seguidores, fãs, admiradores e está tudo certo. Para mim, as redes sociais são um grande ponto de inspiração e encontros.”

Para Tchulim, as redes geram um aprendizado quanto à realidade de cada um.

“Acho que com o tempo estamos aprendendo a ser mais realistas com nós mesmos e usando a internet pra isso também. Sempre que posto algo que não é idealizado, mas sim da minha vivência real, percebo a conexão que isso tem a com a realidade de outras pessoas que também estão procurando por isso. Acho saudável e acredito que precisa ser cultivado cada vez mais, precisamos nos libertar dos padrões de vida perfeita, mas entendo quem tenta passar essa imagem, pra si mesmo ou para o outro, é da condição humana. Estamos nos adaptando a novas plataformas, mas os comportamentos são os mesmos.”

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