COMPORTAMENTO

Correntes, Memes, kkkkk e muitos áudios: Como as famílias brasileiras se conectam no WhatsApp

15/12/2016 16:23 -02

family smartphone

Mensagens para animar o grupo, que anda muito parado. Correntes de orações. Fotos do primo quando era mais novo. Belíssimos textos para melhorar a sua semana. Piadas divertidas. Memes. Selfies. Fotos de festas. "Cadê você????". Discussões sobre política. Áudios. Mais áudios. Kkkkkkkk. "O que tem para o jantar hoje?". Mensagens particulares pedindo para você responder no grupo. "Você não leu o que eu te mandei?".

Se você se identificou com alguma destas situações, você faz parte de algum ~grupo de família no WhatsApp~. Por vontade própria ou não.

Antes restritas ao Natal ou às festas dos avós, as famigeradas reuniões da parentada migraram para o ambiente digital e reúnem desde o núcleo familiar mais próximo - pai, mãe, irmãos - até aquele primo de terceiro grau com quem você não conviveu muito.

Independentemente dos integrantes, o fato é que a reunião virtual tem gerado tantas interações (e tretas) quanto os célebres almoços de domingo em família.

No mundo, o WhatsApp chegou à marca de 1 bilhão de usuários. O "efeito whats" mostra mudanças na comunicação cotidiana, seja com o imediatismo das respostas ou com o encurtamento de distâncias.

Não seria diferente nas relações familiares. Se por um lado a plataforma permite uma maior conexão com os membros dos grupos, ela também constrói uma certa indiferença quando a quantidade de mensagens enviadas é muito grande, ou uma aparente impessoalidade, quando temas que antes eram tratados com o bom e velho olho no olho agora são resolvidos à distância de um clique.

Inconvenientes ou não, as interações têm facilitado a vida de muita gente.

Para a funcionária pública Roberta Nogueira, por exemplo, a troca de mensagens instantâneas possibilita que ela saiba mais do cotidiano dos filhos, que compartilham imagens e áudios sobre o que fizeram no dia.

Roberta é mãe de Mariana, 21 anos, e Gabriel, 23. Casada com o advogado Luiz Otávio, ela defende o uso do aplicativo para que a família participe mais da rotina de cada um.

"Eu acho o grupo muito importante. É o meio de comunicação mais rápido. Quando quero falar algo mais pessoal, falo no privado. No grupo da família a gente interage sobre coisas como política e envia muita foto. Se o Luiz está em algum evento legal, ele compartilha imagens do que está rolando. É a maneira mais rápida que a gente tem de saber como foi o dia da outra pessoa."

No caso da família de Roberta, o grupo também funciona com mais fluidez para assuntos que anteriormente seriam deixados apenas para a mesa do jantar. Se alguém leu ou viu algo de interessante, logo compartilha para render assunto.

"A gente troca muito conteúdo no nosso grupo. Se o Luiz posta uma matéria importante que ele achou interessante para o Gabriel ler, ele compartilha no grupo. Vai além do 'Vocês vêm jantar?' ou 'Onde vocês estão?'. Mas não nego que sempre pergunto isso por lá. É o lado da praticidade do WhatsApp. Mas tem horas em que o grupo não funciona pra mim, e aí eu vou no chat pessoal mesmo."

Ao HuffPost Brasil, Roberta diz que se sente confortável em usar a tecnologia e acredita que é o meio de comunicação mais eficiente com seus filhos.

"Eu tenho que reconhecer que os meus filhos dificilmente deixam de me responder. Nem que seja um emoji eles vão lá e colocam. Para responder mensagem essa geração é ótima!"

familia nogueira

Roberta, Luiz Otávio, Gabriel e Mariana

Além deste grupo, Roberta também faz parte de outras reuniões virtuais: um grupo com a família por parte do marido, em que seus sogros compartilham as novidades de alguma viagem; outro chat apenas com as suas irmãs; ainda, há o grupo com os tios e primas de seu lado. Assuntos não faltam.

Mas com tanta interação, como fazer para que nenhum ~ruído~ atrapalhe os diálogos? No caso de Roberta, ela explica que nunca presenciou nenhum tipo de desentendimento virtual. No máximo, ocorreu aquela "ignorada".

"Já rolou de alguém falar coisas meio indelicadas, mas nada muito sério, que chegasse a gerar um desentendimento na vida real. Sabe quando todo mundo percebe que o outro foi indelicado e aí simplesmente deixa no vácuo?"

Encurtando distâncias

Já para quem mora longe, o grupo no WhatsApp permite que notícias importantes, como a data de um casamento, o nascimento de um filho ou até mesmo parabenizações de aniversários sejam compartilhadas sem o risco de deixar alguém de fora.

É também um canal eficiente quando há algum tipo de situação em que a distância e o fuso horário não permitem uma simples ligação telefônica. Como no caso da jornalista Camila Gregori. O seu tio, Paulo Gregori, mora em Nagoya, no Japão, e eles fazem parte de um grupo com outros parentes, como os avós, outras tias e primos.

"Eu amo e odeio os grupos de família. Meu tio mora no Japão e é por lá que nós nos comunicamos com ele. É muito melhor que Skype. Ele manda muitas fotos de lá, fala do meu primo, contamos da vida aqui, mas às vezes o papo é falar de política sem parar. Devido ao fuso horário, é a forma mais fácil de a gente ter notícias dele no dia a dia. É engraçado essa diferença. Vira e mexe meu tio fica tagarelando empolgado, às 3h da madrugada, contando coisas do dia dele, e a gente só responde horas depois."

Quando ocorreu um grande terremoto no país, em novembro deste ano, a família só conseguiu se tranquilizar quando Paulo respondeu às mensagens do grupo no aplicativo.

"Ele mandou uma mensagem como se fosse um simples pedido de desculpas pelo sumiço e voltou a falar de política, mas na verdade tinha ocorrido um tremor em Nagoya!"

Não é a primeira vez que Paulo lida com a distância para se fazer próximo de seus familiares. Em 1995 ele morava em Londres e explicou ao HuffPost Brasil que precisava se comunicar por cartas, pois as ligações telefônicas para o Brasil eram muito caras e pouco frequentes.

"Eu escrevia para os meus pais, pois eles não usavam email ou algo parecido. Hoje em dia, moro do outro lado do mundo e a comunicação passou a ser onipresente e instantânea. Por exemplo, outro dia conversei com a minha mãe pelo aplicativo e pude ver o jardim da casa em São Paulo. Já no caso do tremor, eu consegui transmitir as informações daqui quase em tempo real."

gregori

Imagem que ilustra o perfil do WhatsApp do grupo da família Gregori

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A família de Maria*, porém, viveu uma situação delicada e inusitada por meio do WhatsApp. Os desentendimentos da vida real resultaram em uma mensagem, por meio do aplicativo, de que o seu irmão estava saindo de casa. Para comunicar a notícia, ele criou um grupo com ela, a mãe, e o pai, afirma a jovem ao HuffPost Brasil.

"Ele queria que a gente soubesse o que ele estava fazendo, mas simplesmente não teve coragem de dizer pessoalmente. Ele tinha 20 anos, mentiu para a minha mãe que tinha conseguido emprego em outro lugar e trancou a faculdade. Levou tudo que conseguiu do quarto dele e foi para a casa de uma namorada em Guarulhos. Só voltou duas semanas depois, quando a responsável pela garota avisou que não iria sustentá-lo. A gente já tinha tido outros grupos de famílias antes, mas acabaram desativados porque ninguém aguentava mais discussão de política. Ele criou esse novo grupo só para dar essa notícia."

*A entrevistada preferiu não ser identificada.

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