MULHERES
15/12/2016 18:05 -02

Adolescente leva produtos de higiene íntima para mulheres sem-teto ao redor do mundo

NILAYA SABNIS PARA L'OREAL PARIS EUA

Nadya Okamoto tinha 15 anos quando sua mãe perdeu o emprego e sua família ficou legalmente sem um lar.

Em questão de instantes, a vida de Okamoto se transformou em noites dormidas em sofás de amigos, empacotada em malas. Ela levava quatro horas para ir à escola particular onde tinha uma bolsa de estudos. Um ano depois, aos 16, Okamoto se viu em um abrigo para mulheres, escondendo as lesões que um parceiro abusivo havia deixado em seu corpo.

“Estava em um relacionamento abusivo, com um cara que era um pouco mais velho do que eu, e não havia contado à minha mãe”, Okamoto disse ao The Huffington Post. “Foi logo depois de conseguirmos voltar ao nosso apartamento, sabendo que minha mãe tinha trabalhado muito duro para que isso pudesse acontecer.

Mas a experiência de estar sozinha em um abrigo para mulheres e de escutar histórias de mulheres que estavam em situações muito piores do que a minha — me fizeram passar por um completo ‘teste do privilégio’.”

Aquele momento levou a estudante a criar a Camions of Care, uma organização não governamental liderada por jovens que distribui produtos de higiene íntima para mulheres e meninas carentes.

Okamoto disse que a inspiração para criar a ONG surgiu de conversas que ela teve com mulheres em abrigos e durante aquelas quatro horas diárias no trajeto de ônibus de ida e volta da escola.

Hoje, Okamoto, com 18 anos, frequenta a Universidade Harvard e comanda com sucesso a operação global da Camions of Care. Ela já até deu uma palestra na no TED em janeiro de 2016. Em novembro, Okamoto também foi homenageada pela empresa de cosméticos L’Oréal durante a cerimônia “Mulheres de Valor 2016”, em Nova York.

“Estamos muito empolgados que uma corporação enorme como a L’Oréal tenha tomado conhecimento do que começou na verdade com encontros ao redor da mesa de almoço e planejamento durante o segundo grau”, disse Okamoto.

“Agora podemos dizer que comandamos uma operação global com 40 parceiros de ONGs, em 23 estados, 13 países e 60 unidades em universidades e escolas de ensino médio nos EUA.”

O The Huffington Post conversou com Okamoto sobre a Camions of Care, a importância da higiene menstrual para todas as mulheres e por que precisamos lutar contra o estigma em relação à menstruação.

Como a vergonha e o estigma em relação à menstruação impactam o acesso das mulheres aos produtos de higiene íntima?

O que impede as mulheres e meninas de obter os produtos para menstruação de que realmente necessitam é a falta de uma conversa aberta sobre isso. Simplesmente se resume ao fato de que muitas [mulheres] não se sentem à vontade para pedir caso estes produtos estejam disponíveis.

Muitas organizações não governamentais não conseguem certos produtos devido à falta de fundos ou falta de expor essa necessidade. A falta de expor a necessidade é realmente uma parte essencial do por que estou fazendo isto.

As ONGs pensavam que os produtos para menstruação não eram uma necessidade, porque as pessoas não os estavam pedindo, enquanto as mulheres nos diziam que eram uma grande necessidade. Desse modo, a ONG se tornou a intermediária entre mulheres e abrigos.

Agora podemos criar uma conscientização entre as ONGs e, ao mesmo tempo, empoderar as mulheres para que se sintam mais confiantes e falem abertamente de suas necessidades em relação à higiene menstrual.

De todas as conversas que você teve com as mulheres sem-teto — durante seu período em abrigos e no trajeto de ida e volta da escola —, há alguma que foi especialmente memorável?

Acho que o momento decisivo que me fez perceber que estava diante de algo [significativo] aconteceu uma semana depois de decidir abrir a organização.

Saímos e distribuímos pacotes [com produtos de higiene íntima], e uma das primeiras pessoas a quem entregamos era uma mulher que estava sentada na rua esperando a missa matinal e que começou a chorar.

Ela ficou muito chocada com o fato de alguém estar lá para ajudá-la e dar-lhe os produtos que ela sempre quis.

Li na Camions of Care que, desde muito jovem, você começou a usar coletores menstruais. Você escreveu que, se você não tivesse usado coletores menstruais quando estava sem lar, necessitaria de produtos de higiene íntima como qualquer outra mulher sem-teto — e não teria condições de comprá-los. Como foi perceber isso?

Chegar a esta conclusão foi um completo ‘teste do privilégio’. Eu sofria com a automutilação, não sabia exatamente como podia ajudar minha família, estava realmente confusa.

Então, foi sair daquele estado de me sentir vitimada e impotente, e de repente perceber que eu tinha muitos privilégios. Nunca realmente tive de me preocupar sobre coisas como higiene menstrual. Isso me fez perceber que, se eu pensava que não era privilegiada e, no entanto, nunca tive de me preocupar com isso — então precisava fazer algo.

okamoto

Okamoto durante a cerimônia L’Oréal Paris — Mulheres de Valor, em 16 de novembro.

Como sua experiência com a falta de um lar a ajudou a entender as necessidades de outras mulheres sem-teto?

Acho que quando as pessoas tomam conhecimento de que minha família sabe o que é não ter um lar, automaticamente assumem que eu fui inspirada a começar isso porque podia me conectar com as mulheres com as quais conversava. Mas, na verdade, acho que é exatamente o oposto disso. Foi a percepção do privilégio.

Sofri com a depressão e a automutilação porque me sentia sem voz aos 15, 16 anos. Estar com aquela mentalidade pessimista, mas, depois, ouvir histórias de mulheres que estavam em situações de vida muito piores e perceber “Uau, tenho muito o que agradecer”.

Não podia nem imaginar ter a minha idade e passar pelas coisas que essas mulheres passaram. As mulheres nesses abrigos me contaram histórias de ter de lidar com abuso de drogas ou nem mesmo ter o segundo grau. Enquanto isso, eu estava indo a uma das escolas privadas mais caras com uma bolsa de estudos.

Ao mesmo tempo, eu podia me conectar com elas porque sabia o que era não ter os mesmos recursos que as pessoas ao seu redor.

Houve elementos pelos quais pude me conectar com muitas dessas mulheres. Mas, no geral, acho que o que me empurrou a realmente agir não foi o fato de que podia me conectar com elas — foi o fato de que eu não podia me conectar com elas, mas tinha sido ingênua o suficiente para pensar que poderia.

Qual o futuro que você espera para a Camions of Care?

Apenas queremos continuar crescendo. Estaremos lançando nosso programa de políticas, espero, nossos próximos meses, que inclui um kit de ferramentas abrangente, desde material de comunicação para temas de discussão até propostas de legislação para passos concretos. Também estamos relançando nossa marca e mudando nosso nome, e tudo isso provavelmente acontecerá no começo de 2017.

Ao mesmo tempo, estamos tocando nossa campanha de fim de ano para arrecadar fundos e assim poder continuar aumentando nossos serviços e ampliando nossa rede de unidades. Até o fim deste ano acadêmico, esperamos ter unidades em operação em 50 estados nos EUA. Vamos simplesmente continuar nos esforçando para isso.

Procure uma unidade da Camions of Care para aprender um pouco mais sobre a organização. Para doar ou saber como ajudar, clique aqui.

A L’Oréal Paris fornece a cada Mulher de Valor Homenageada reconhecimento nacional por meio de oportunidades de networking, apoio de marketing, uma plataforma para contar sua história e US$ 10 mil para apoiar a causa. Clique aqui para ler as histórias das homenageadas de 2016.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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