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A 'direita alternativa' é um movimento de ódio e é mais assustador do que você pensa

12/12/2016 17:30 -02 | Atualizado 12/12/2016 17:30 -02
LINDA DAVIDSON/THE WASHINGTON POST VIA GETTY IMAGE

Se você quer saber por que o movimento de “alt-right”, ou direita alternativa, declaradamente racista e simpatizante do nazismo, está ganhando destaque na administração Trump e mais além, basta olhar para Tila Tequila e seu amigo nacionalista branco Richard Spencer.

Em uma das coisas mais bizarras e assustadoras a acontecer em uma temporada política já bizarra e assustadora o suficiente, a figura na mídia social, ex-apresentadora de TV e atual atriz pornô Tequila compareceu a uma conferência de nacionalistas brancos no fim de semana passado.

À primeira vista, sua participação pareceu estranha: Tequila é americana de origem vietnamita, e seu nome de nascimento é Thien Thanh Thi Nguyen. Mas sua presença se encaixou perfeitamente com a estratégia política e de mensagem de Richard Spencer e seu National Policy Institute, que organizou o evento.

“A direita alternativa está disposta a trabalhar com aliados de cor”, disse Spencer a jornalistas no sábado. Foi difícil naquele momento não pensar em Tila Tequila, que na noite anterior tinha postado no Twitter uma foto dela mesma fazendo a saudação nazista, com a legenda “Seig (sic) heil!”.

É claro que Spencer considera a maioria das raças não brancas geneticamente inferiores; ele vê os judeus com desconfiança profunda e se associa a neonazistas. Ele quer ver europeus e pessoa de ascendência europeia “protegidas” das outras raças, através de uma segregação imposta pelo Estado. A lista continua.

Mas é o modo hábil como Spencer embala esse discurso de ódio que fez dele o líder informal da autodenominada “direita alternativa”, um movimento formado por jornalistas e escritores semi ou totalmente fascistas, nazistas disfarçados e criadores de memes cheios de desafetos. Spencer faz de conta que adere ao multiculturalismo, expressando seu respeito pelos “americanos nativos”, a “espiritualidade” dos afro-americanos e os acima citados “aliados de cor”.

Seu discurso nacionalista branco é cheio de jargão acadêmico; a fundação de uma organização com o nome insosso de National Policy Institute (Instituto Nacional de Políticas Públicas) e a descrição de seu movimento como “direita alternativa” são elementos importantes dessa estratégia.

Tudo isso não chega a ser uma abordagem nova, mas Spencer é assustadoramente hábil em manejá-la.

Apesar de estar perto dos 40 anos, Spencer representa um membro da geração dos millenials e o faz tão bem que me dá vontade de vomitar. Pense nele como um Ezra Klein para pessoas que não hesitariam em colocar pessoas chamadas Ezra Klein em um trem (a caminho de um campo de concentração).

Ele é ativo nas mídias sociais – até ser expulso delas por veicular discurso de ódio – e adora chamar os republicanos convencionais de “conservadores que são basicamente nojentos”.

O convite à convenção enviado por Spencer exemplifica o modo como ele lança uma ponte entre cultura jovem e cultura do ódio. O convite tinha uma apresentação gráfica com as letras A e R – de alt-right—numa fonte tubular decididamente início dos anos 1990.

As letras estavam sobrepostas a uma foto etérea de uma mulher em um campo de trigo, e a coisa toda remetia às capas de álbuns de compilações que se veem no SoundCloud. A mesma mulher no campo de trigo também pode ser vista na página de David Duke no Twitter.

direita alternativa

O FUTURO DA DIREITA ALTERNATIVA

Esta foto de arquivo de uma mulher em um trigal é popular nos círculos nacionalistas brancos.

Spencer exala o mesmo tipo de elã do milênio que muitos profissionais brancos jovens de Washington, com seu rosto bem barbeado, maxilar angular, queixo quadrado e cabelo curtinho – um visual que no passado pode ter sido associado à Juventude Hitlerista, mas hoje tem muito mais chances de lembrar o ator Ryan Gosling.

Ele anda muito arrumado, e, se não vivesse discursando sobre gangues muçulmanas, a necessidade de se dar tratamento preferencial a imigrantes europeus ou como as mulheres curtem ser violentadas, Spencer poderia igualmente bem ser um desses yuppies que existem aos milhares e que têm opiniões demais sobre assistentes pessoais inteligentes e meias supostamente divertidas.

Seu currículo também soa lamentavelmente familiar: bacharel pela Universidade da Virginia, mestrado da Universidade de Chicago e doutorando na Universidade Duke. Ele chegou a publicar um artigo na revista The American Conservative.

Mesmo assim, sua conferência não foi uma reunião de mentes pensantes, foi um caldeirão de homens irados.

Homens usando bonés dizendo “Vamos Fazer a América Ser Grande Outra Vez”, homens vendendo pôsteres do presidente eleito Donald Trump com os dizeres “FORÇA DE DEPORTAÇÃO de Trump”, homens folheando livros com títulos como The Perils of Equality (Os Perigos da Igualdade) e The Problem of Democracy (O Problema da Democracia), homens que reagiam irritados quando jornalistas faziam perguntas sobre Spencer, homens americanos com cabelos cortados à moda de Ryan Gosling, homens ingleses com cabelos como Ryan Gosling, homens holandeses com cabelos como Ryan Gosling.

Dizer que nove em cada dez participantes eram homens seria pouco. Havia alguns participantes mais velhos, cujos trajes de professores universitários e ressentimento fervilhante contra a sociedade contemporânea lembravam as pessoas mais iradas que já participaram de uma reunião do corpo docente de um departamento de história.

E havia Tila Tequila – que ganhou destaque cultural no final dos anos 1990, mas descambou em meio a uma série de gestos e declarações antissemitas.

Ela era perfeita como um acessório de palco de Spencer: uma celebridade D – e ainda por cima mulher de cor – com histórico menos conhecido de preconceito. Tequila conferiu um toque irreverente de cultura pop ao evento aparentemente burocrático. Em troca, ela ganhou atenção.

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Às vezes é difícil saber se Trump, aquela outra celebridade D, está usando a estratégia de Tequila ou a de Richard Spencer. Como a atriz pornô, também Trump cortejou racistas para reforçar seu nome de marca – ficou famoso o modo como ele levantou dúvidas infundadas sobre o local de nascimento do presidente Barack Obama para chamar a atenção a si mesmo e elevar seu próprio perfil político.

Como Spencer, Trump lança mão de informações mal direcionadas e “pontos” mal elaborados sobre certidões de nascimento completas para fazer sua cruzada ganhar algum verniz de credibilidade.

E as pessoas de seu círculo aderiram alegremente à sua legitimação de posições marginais. Tome-se o caso do estrategista Steve Bannon, que descreveu sua plataforma, o Breitbart News, como “a plataforma da direita alternativa”, enquanto Michael Flynn, o assessor de Segurança Nacional, regularmente promove a direita alternativa nas redes sociais.

“A direita alternativa está aqui, ela não vai embora e vai mudar o mundo”, proclamou Spencer na conferência. Apesar de dizer que Trump e Steve Bannon não são da direita alternativa, ele deu uma declaração preocupante, dizendo que seu movimento é “uma cabeça sem corpo” e que a campanha de Trump era “um corpo sem cabeça”.

A eleição de Trump pode completar esse monstro de Frankenstein político, segundo o pensamento de Spencer. O racismo e a intolerância declarados que vieram à tona desde 8 de novembro vêm sendo abertamente hostis e intimidadores: o Ku Klux Klan promovendo um comício da vitória na Carolina do Norte, suásticas sendo pintadas em playgrounds e um número incontável de atos de preconceito dirigidos contra indivíduos e divulgados mais tarde nas redes sociais.

Não chega a ser um grande consolo, mas é verdade que esse tipo de vilania não pode ser facilmente incorporada às nossas instituições de poder.

Uma pessoa que entra em um escritório do Congresso usando capuz branco e pedindo uma reunião sobre a pestilência judaica provavelmente não terá grandes resultados, mas um sujeito bem barbeado e de cabelos curtos que exale o mesmo tipo de normalidade de colarinho branco que a daquele rapaz irritante do seu trabalho que não para de falar de sua liga de beisebol ou do lugar onde compra suas roupas é outra história.

É isso o que faz Richard Spencer e o National Policy Institute ser tão assustadores. Um sujeito bem-falante que se formou na Universidade da Virgínia e discute coisas que soam complexas, como “nosso currículo escolar identitário”, pode levar algumas pessoas a mudar de ideia.

Spencer insiste que não está em contato com Trump ou sua equipe de transição, mas revelou estar bem impressionado por figuras que aparentemente farão parte do novo governo, como Steve Bannon e o indicado para a pasta da Justiça, Jeff Sessions.

Spencer expulsou a mídia depois de sua coletiva de imprensa terminar, mas a Atlantic gravou um vídeo que o mostra proclamando “Salve Trump, salve nosso povo, salve a vitória!” e várias pessoas da plateia respondendo com a saudação nazista.

Diferentemente de Tila Tequila, essas pessoas provavelmente sabem grafar “sieg” corretamente. Podemos apostar que Richard Spence sabe o que está fazendo.

O livro de Eliot Nelson, do Huffington Post, The Beltway Bible: A Totally Serious A-Z Guide to Our No-Good, Corrupt, Incompetent, Terrible, Depressing and Sometimes Hilarious Government, já está à venda.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.