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'Um ambiente que não é amigo das mulheres e crianças não tem como ser amigo do povo', diz deputada Manuela D'Ávila

11/12/2016 09:21 -02 | Atualizado 11/12/2016 09:21 -02
Reprodução / Facebook

Deputada com mais votos no Rio Grande do Sul em 2014, Manuela D`Ávila (PCdoB) acredita que enquanto o Legislativo não for menos machista não haverá espaço para a política voltada para a população. "Um ambiente que não é amigo das mulheres e das crianças, tem como ser um ambiente amigo do povo?", questiona.

A gaúcha foi também a deputada federal mais votada no Brasil em 2006 e repetiu o feito em 2010, com quase 500 mil votos. Em fevereiro, ela anunciou que não iria concorrer à reeleição para se dedicar à filha, que nasceu em agosto de 2015.

Para a parlamentar, que concilia a rotina de mãe com o trabalho, o espaço público é pensado apenas para homens. "É um ambiente não adaptado às mulheres que são mães e sobretudo mães de crianças pequenas. Porque os homens não cuidam, ou quase nunca cuidam de crianças pequenas", afirmou ao HuffPost Brasil.

Sobre as críticas após publicar um vídeo em que divulga o "machistômetro", uma cartilha informativa sobre os tipos de violência contra a mulher, Manuela rebate: "qualquer instrumento de esclarecimento, conscientização e empoderamento das mulheres gera revolta em alguns segmentos da sociedade".

Na avaliação da parlamentar, o fim das doações empresariais a campanhas não foi suficiente e é preciso corrigir distorções do sistema eleitoral. "Campanhas de partidos muito grandes, com grande acesso ao fundo partidário contratam um número de pessoas que equivale basicamente a um número de votos necessário numa eleição, sobretudo nas menores cidades", afirmou.

Confira a íntegra da entrevista.

HuffPost Brasil: Sobre a reforma política, o PCdoB por ser um dos partidos que mais seria atingido pela cláusula de barreira tenta construir um acordo para diminuir o percentual exigido de votos aprovado pela Senado. A senhora acha possível um acordo na Câmara?

Manuela D`Ávila: Volta e meia quando acontece algum problema na política brasileira a solução encontrada é o discurso de que o que atrapalha a política no Brasil são os pequenos partidos e que colocando a cláusula de barreira e o fim das coligações todos os problemas do nosso sistema político e eleitoral estariam resolvidos. Isso é uma grande mentira porque na realidade se nós formos pegar os grandes problemas da política brasileira recentes quase nenhum deles envolveu um pequeno partido, portanto é apenas um jogo de retórico para justificar uma concentração de poder maior nos grandes partidos. O PCdoB em 2006 já venceu uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo que derrubou a cláusula de barreira. Evidente que nós fazemos gestões dentro da Câmara para diminuir esse índice, mas além disso o que fazemos é a denúncia dos grandes partidos para descontruírem os partidos com tradição ideológica larga, como é o nosso caso.

Tem a ver também com a dificuldade do financiamento de campanha, no sentido de que os partidos querem reduzir o número de legendas para dividir os recursos?

Na realidade o Congresso nunca deliberou sobre o financiamento das campanhas. O financiamento foi feito como um ato contínuo da decisão do Supremo que proibiu o financiamento privado. Então eu creio que sim, pode ser um esforço para concentrar o fundo partidário, mas há necessidade de o Brasil discutir o financiamento das suas campanhas, o que é permitido com esse dinheiro. Porque que o que vimos na eleição que passou é que nessa campanha não pode nada que ampliasse a discussão, mas pode sobretudo contratar pessoas. E a contratação numerosa de pessoas muitas vezes equivale a "compra de votos" porque campanhas de partidos muito grandes, com grande acesso ao fundo partidário contratam um número de pessoas que equivale basicamente a um número de votos necessário numa eleição sobretudo nas menos cidades.

Apesar de o financiamento privado ter sido proibido, ainda houve distorções na última campanha? Esse não é o modelo ideal?

A gente simplesmente teve o avanço da proibição do recurso privado, mas a gente ainda não chegou a um modelo de financiamento e de regras eleitorais para esse financiamento. Porque a gente manteve as permissividades da eleição anterior. O Brasil era um país acostumado com campanhas multimilionárias sem o dinheiro para isso. Então há necessidade de regular o que pode ser feito com esse dinheiro.

Qual modelo a senhora defende?

O financiamento público exclusivo, com a contribuição de pessoas com um teto para essa contribuição. Esse teto não foi regulado [pela decisão do Supremo]. Nós tivemos campanhas milionárias com contribuições apenas de milionários e isso perpetua a desigualdade que nós identificávamos no financiamento privado, que motivou a ADIN (ação direta de inconstitucionalidade). A ADIN dizia que os brasileiros não eram iguais perante a lei porque havia uma desigualdade na escolha dos candidatos por parte de pessoas com grande poder de influência. Por exemplo, um diretor do Itaú teria mais poder que um brasileiro comum. Quando não criamos um teto estamos reproduzindo isso, então evidente que o Jorge Gerdal é mais importante que a Manuela D`Ávila porque ele tem mais poder financeiro. Ele escolhe com maior influência seu candidato.

Apesar de isso não estar sendo discutido na comissão da reforma política, tem uma PEC aguardando para ser votada no plenário da Câmara que estabelece uma cota de vagas para mulheres no Legislativo. Essa é uma boa forma de aumentar a participação feminina na política?

É um dos avanços que temos. Cotas não é a medida ideal. Ninguém acredita que a cota é a solução para a construção de igualdade. Porém em sistemas que são absolutamente desiguais, como é o caso do sistema brasileiro, que perde para quase todos os países do mundo em participação feminina na política, as cotas são um medida de acelerar a construção da igualdade entre mulheres e homens na política. E depois nós podemos retirá-las.

A senhora algumas vezes leva sua filha para o trabalho e sofreu críticas por amamentá-la em público. A que a senhora atribui essas críticas?

Embora eu não critique quem faça, eu não levo frequentemente a minha filha para o plenário. Eu e meu marido dividimos a responsabilidade nos cuidados com ela e no horário que eu tenho responsabilidade de ficar na Assembleia raramente ela vai comigo. (...) Sim, os horários extraoficiais, os horários de almoço, que a Assembleia insiste em fazer reunião de líderes, no horário das 20h, que ela precisa ser amamentada ou que ela dorme, aí sim... porque o ambiente público é um ambiente não adaptado às mulheres que são mães e sobretudo mães de crianças pequenas. Porque os homens não cuidam, ou quase nunca cuidam de crianças pequenas. Então para eles é muito fácil marcar reunião de líderes no horário do almoço. É muito fácil marcar sessão que começa às 16h para acabar às 22h porque eles não se relacionam com o mundo do privado, da busca na escola, do cuidado, do levar no médico, daquilo que recai sobre nós.

E sobre a amamentação?

Acho que qualquer mulher consegue imaginar como se sentiria. Primeiro que só sendo mulher num ambiente hegemonizado por homens… basta andar, entrar no plenário, sentar e se colocar no lugar de qualquer uma de nós, que fica num ambiente absolutamente masculino. Num mundo que julga que amamentar é um ato quase sexual e erótico porque o corpo da mulher é todo, o tempo inteiro, erotizado e sexualizado, como se sentiria fazendo esse ato, que perante uma parcela significativa de homens é um ato erótico, nesse ambiente. É um ambiente nada acolhedor e talvez seja uma das reflexões que a gente deva fazer. Um ambiente que não é amigo das mulheres e das crianças, tem como ser um ambiente amigo do povo? Para mim não.

Como foi a repercussão do "machistômetro"? Houve muitas críticas?

Acho que a repercussão do "machistômetro" me pegou de surpresa positiva e negativamente porque ele era só um instrumento de caracterização dos tipos de assédio. Coisas que para mim são óbvias, que para as pessoas razoavelmente esclarecidas são óbvias, mas que para a minha surpresa, para um conjunto grande de homens ainda não são óbvias. Eu falo para grande surpresa ironicamente. Ele gerou polêmica porque muitas pessoas acham que realmente as mulheres são estupradas porque andam com roupas curtas e não sabem se portar ou esfregam o peito na cara dos homens e depois reclamam se são assediadas. Num país em que a cultura é essa, é óbvio que qualquer instrumento de esclarecimento, conscientização e empoderamento das mulheres gera revolta em alguns segmentos da sociedade.

O Planalto esteve recentemente envolvido com as denúncias sobre Geddel e o Congresso modificou o pacote de medidas anticorrupção. Há perspectiva de uma política menos volta para os interesses particulares?

O episódio do Geddel é a prova de que tudo que aconteceu com a presidente Dilma (Rousseff) foi um golpe porque não há preocupação nenhuma com a moralidade. Não há preocupação nenhuma com a ética e com a diferenciação entre o público e o privado. O ministro Geddel expressa a mais velha política patrimonialista que usa o público para benefício privado no sentido mais elementar, na sua casa. Acho que isso demonstra que os erros da presidente Dilma são na realidade os seus acertos. A distância que ela tomou de determinados setores que se revelam nos primeiros dias de governo Temer. Mostram a sua verdadeira face.

Sobre o plano de ajuste econômico anunciado pelo governador do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori, e o pacto dos estados que limita, por exemplo, aumento de salário para servidores, os trabalhadores serão prejudicados? Qual a melhor solução para a crise?

No Rio Grande do Sul, o pacote do Sartori responsabiliza os trabalhadores por uma crise sendo que nos últimos 30 anos o PMDB só não governou duas vezes o estado. Ou seja, responsabiliza os trabalhadores por uma crise que foi gerada pelo próprio partido dele, com soluções que já foram apresentadas em outro momento e não resolveram a crise do estado. Aliás uma das soluções, a negociação da dívida, foi feita pelo governo (de Antônio) Britto no ano de 1994, como se pudesse solucionar a crise naquela ocasião. Não solucionou e mais uma vez o PMDB apresenta uma solução que só tira direitos dos trabalhadores e enfraquece o estado.

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