MULHERES

Maria Rita Kehl: 'As meninas, hoje, representam a vanguarda das liberdades individuais'

10/12/2016 18:43 -02 | Atualizado 10/12/2016 18:43 -02

maria rita kehl


Garotas, avancem.

Quase duas décadas se passaram desde que Kathleen Hanna, líder da banda punk feminista Bikini Kill, fez o simbólico convite para que as meninas fossem para a frente da plateia e se sentissem confortáveis para assistir aos shows, em um meio bastante dominado por homens e com pouco espaço para elas.

Desde então, as mulheres vêm avançando nas mais diferentes situações, em busca de lugares originalmente delas ou a serem conquistados.

Em 2016, o debate sobre gênero ganhou força: movimentos feministas se multiplicaram em escolas, faculdades, associações e locais de trabalho, e ganharam voz em espaços de grande repercussão, como a internet, as ruas e a imprensa. Paralelamente ao avanço das discussões, alguns questionamentos permanecem, como “o que querem as mulheres” e “qual a diferença entre mulheres e homens”.

Perguntas como essas fazem parte da investigação da psicanalista Maria Rita Kehl no livro Deslocamentos do Feminino (Boitempo), publicado em 1998 e relançado este ano, pela mesma editora.

Integrante da Comissão Nacional da Verdade e ganhadora do prêmio Jabuti de 2010, por O Tempo e o Cão (Boitempo), Kehl usa o romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, para refletir sobre as angústias das mulheres naquela época e nos dias atuais. Ao mesmo tempo, busca desconstruir a noção universal e abstrata que se tem da mulher, como se um mesmo conjunto de representações pudesse identificar todas, ignorando a singularidade.

Foi justamente a particularidade de cada uma das mulheres ouvidas por Freud – as histéricas - que permitiu a criação da clínica psicanalítica, no fim do século 19. Porém, ao longo da história, elas foram associadas a um lugar passivo nesta narrativa. Um dos deslocamentos do feminino propostos pela psicanalista traz um novo e revolucionário lugar para as mulheres: A autora as declara fundadoras da psicanálise junto com o neurologista.

A partir da defesa de uma "mínima diferença" entre homens e mulheres, o livro propõe uma reflexão sobre os papéis assumidos na sociedade e as aproximações entre os gêneros. Em tempos de intolerância, de incentivo à segregação e de generalizações, reconhecer as semelhanças e as diferenças é um passo fundamental para uma coexistência harmoniosa.

O HuffPost Brasil conversou com a autora sobre a nova edição, alguns dos impasses vividos pela mulher, os papéis na sociedade e a importância da singularidade.

HuffPost Brasil: Como os "rótulos" dados às mulheres e inscritos na diferenciação biológica afetam o psiquismo delas?

Maria Rita Kehl: Não saberia dizer que as mulheres foram afetadas pelos rótulos, mas sim pelo lugar social que lhes foi atribuído. Um lugar muito restrito ao seio da família nuclear, com tarefas restritas à administração da casa e cuidado com os filhos. A esposa do pai de família burguês não tinha lugar na vida pública a não ser para prestigiar o marido em alguns eventos sociais. Seu espaço era o espaço doméstico. Claro que a família tem muito valor para todas as mulheres (e para os homens também). Mas não oferece muitas oportunidades nem de realização - a não ser a maternidade, com tarefas que duram o tempo de os filhos crescerem - nem de intervenção na vida pública ou de expressão. E como a mulher "do lar" logo se torna pouco interessante também para seu marido, a família raramente é um espaço de realização afetiva e sexual. Principalmente porque a moral burguesa também não permitia grandes arroubos; a sexualidade feminina existia para ser domada pelo homem e não para desabrochar no casamento. Havia exceções, claro. Algumas são citadas na primeira parte do livro [Deslocamentos do Feminino].

De que maneira uma mulher pode desconstruir o discurso em que é colocada? Muitas mulheres tentam se aproximar de seu desejo, mas o afastamento do que a sociedade considera "ser mulher e feminina" provoca muita angústia e dúvida...

Angústias e dúvidas fazem parte da nossa pequena epopeia particular: principalmente quando se trata de buscar a via que nos aproxima (todos nós, homens e mulheres) do nosso desejo. Em todo caso, na questão dos padrões de feminilidade hoje, não concordo com os termos da pergunta. As mulheres da "passagem para a modernidade" (este é o subtítulo de meu livro) sofreram muito para encontrar seus caminhos individuais; os padrões eram muito estreitos e rígidos. Mas desde as grandes revoluções dos costumes dos anos 1960/70, as perspectivas existenciais, profissionais, intelectuais e sexuais para as mulheres se alargaram enormemente, e não deixam de se alargar, dia após dia.

O momento atual é marcado por mais mulheres falando e mais pessoas dando ouvidos a elas, na sociedade. O fato de estarem falando mais, e para mais ouvintes, é suficiente para desconstruir a “imagem universal do que seria uma mulher”? Estamos finalmente podendo falar de desejo e expressar subjetividade?

Sim. Já não se espera mais que as mulheres, individualmente, correspondam a alguma "imagem universal". O espaço para as diferenças estilísticas, subjetivas e eróticas se ampliou de forma sem precedentes desde a segunda metade do século 20 até nossa era. As meninas, hoje, representam a vanguarda das liberdades individuais. Me parece até que, por causa das novas composições criadas para e pelas mulheres, hoje os homens é que andam em crise sobre a masculinidade. A meu ver, uma boa crise, que pode ter saídas progressistas para todos.

De que maneira o consultório psicanalítico pode ser um espaço que possibilita à mulher descobrir novas maneiras de estar no mundo?

As mulheres - as histéricas do século 19 - inventaram a psicanálise. A ousadia de Freud consistiu em escutar com respeito e curiosidade investigativa o que as primeiras pacientes histéricas lhe diziam. Desde então, as mulheres continuam a constituir a maior clientela dos nossos consultórios. Elas vêm, assim como os homens, tentando entender seus desejos. Se, a partir daí, vão inventar novas maneiras de estar no mundo, isso vai depender da coragem e da disposição de cada uma. Algumas inventam, outras se acomodam por opção às condições existentes - mas por escolha própria, não mais por imposição da moral e dos costumes.

Quais as perguntas e angústias mais frequentes das mulheres no consultório, e que mudanças você verificou no discurso das mulheres ao longo da sua experiência na clínica?

Difícil responder a essa pergunta a partir da experiência clínica. Sempre digo que um consultório psicanalítico não é um IBGE. Cada análise é única; ninguém se parece com ninguém. O que uma psicanálise permite (se a pessoa quiser) é um ganho de coragem para fazer escolhas.

Ser mulher implica viver e reconhecer apenas o feminino?

Certamente não. Aliás, a partir de nossa bissexualidade infantil (não vou explicar, pois seria longo; seria o caso de sugerir que o leitor dessa entrevista leia o texto de Freud "Três ensaios sobre a sexualidade", de 1905), é possível dizer que cada sujeito improvisa ao longo da vida, consciente e inconscientemente, seu próprio estilo e sua própria dosagem de feminilidade e masculinidade. Isso vale para homens e mulheres.

Os territórios do homem e da mulher têm se aproximado cada vez mais, principalmente com a incorporação, por parte das mulheres, de atributos que até então só diziam respeito aos homens. Essa aproximação justifica o momento de intolerância e animosidade que vemos entre os gêneros atualmente? Como o diálogo e a coexistência igualitária se faz possível, pensando que essas fronteiras estão se embaralhando ainda mais?

Sim, concordo com você com a hipótese de que a intolerância não se dá em relação àqueles que são completamente diferentes de nós, mas em relação aos que nos são tão próximos que parecem ameaçar nosso senso de identidade. Freud chamou isso de "narcisismo das pequenas diferenças". O machista não vai implicar com uma mocinha dócil e submissa (caso esse tipo ainda exista), mas com uma mulher mais independente, mais segura de si. É essa que, mesmo sem pretender, ameaça sua pretensa superioridade masculina. É contra ela que vai se dirigir a agressividade, ou pelo menos a intolerância, dele.

A cada dia, felizmente mais mulheres descobrem ser capazes de fazer muito mais coisas do que aquilo que se espera delas. Tenho a impressão, porém, de que fica uma grande angústia perante o reconhecimento de que, como qualquer ser humano, temos limitações e impossibilidades. Ao mesmo tempo, no discurso atual, me parece que não "cai bem" falar das limitações de uma mulher ou das situações em que ela dependa de alguém. Transmitir uma ideia de que se pode ter e fazer tudo, absolutamente tudo, não seria uma ilusão dolorosa e que ignora toda a falta que marca a vida de todas as pessoas?

Essa é uma ilusão que todos estamos fadados a perder, mais cedo ou mais tarde: a ilusão de onipotência. Talvez as mulheres, que descobriram mais recentemente suas potencialidades, estejam mais sujeitas a delírios de onipotência; mas não é raro que os homens se tornem violentos, ou no mínimo muito chatos, quando a realidade da vida impõe limites a algumas pretensões exageradas. Como seres humanos, dependemos profundamente do afeto e da solidariedade de nossos semelhantes. Isso vale para homens e mulheres, gays e heteros, bissexuais, transexuais. Não há, nesse aspecto, nada que imponha maior dependência às mulheres. Nem mesmo, hoje em dia, a maternidade. Quantas mulheres solteiras não decidem ter filhos sozinhas e dão conta do recado?

São recorrentes as referências à psicanálise e a Freud como um conhecimento machista. Quais foram as falhas de Freud na escuta das mulheres?

O "machismo" de Freud consiste no fato de que ele, como homem de seu tempo, não vislumbrava para as mulheres outro destino a não ser a maternidade e a vida doméstica. Ele chega a afirmar, em um texto sobre a feminilidade, que as mulheres não tinham capacidade de sublimar. Não eram capazes de participar das tarefas da cultura a não ser para "tecer os panos com que tentam esconder sua castração". Talvez fosse uma conclusão empírica; era o que ele observava, na maioria das mulheres à sua volta - inclusive suas pacientes histéricas, insatisfeitas com seus destinos mas pouco habilitadas para construir outros. Daí a grandeza da personagem Emma Bovary, "nascida" da pena de Flaubert no mesmo ano que o bebê Sigmund Freud.

Pensando na singularidade de cada sujeito, podemos afirmar que falar de "mulheres", como um todo, será sempre um recorte parcial de um universo extremamente subjetivo?

Claro! Não existem "as mulheres" como um conjunto unificado e homogêneo. Assim como não existem "os homens", também. Cada um é único. As estilísticas definem grupos, às vezes definem gêneros, mas hoje as liberdades individuais de composição de estilos (no sentido da aparência, do comportamento, das escolhas de vida) comprovam esta sua afirmação. O que não impede que, ao defender ou reivindicar direitos comuns, as mulheres não possam se unir e se identificar como gênero a partir de alguns avatares culturais compartilhados.

deslocamentos do feminino

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