ENTRETENIMENTO

'Fleabag': Série da BBC mostra feminismo imperfeito. E isso é bom

09/12/2016 19:44 -02 | Atualizado 09/12/2016 19:44 -02

No primeiro episódio da série Fleabag, série da BBC3, nossa anti-heroína Fleabag e sua irmã certinha Claire se encontram para assistir a uma palestra feminina chamada “Conversa de Mulher”, cujo mote é “abrindo a boca das mulheres desde 1998”.

As irmãs vêm participando desse tipo de evento desde a morte da mãe, quando as duas eram jovens, e seu pai começou a comprar ingressos para que elas assistissem palestras feministas, presumivelmente suprindo a ausência da mãe.

Uma mulher de terninho de tweed sobe ao palco, sob muitos aplausos. “Faço uma pergunta para as mulheres nesta sala hoje”, começa ela, num tom grave.

“Por favor, levante a mão se você trocaria cinco anos de vida pelo chamado corpo perfeito.”

Fleabag e a irmã botam a mão para cima sem vacilar. O resto da plateia observa horrorizada.

“Somos más feministas”, sussurra Fleabag, sorrindo.

Fleabag foi criada pela dramaturga e atriz britânica Phoebe Waller-Bridge, adaptando uma peça de mesmo nome exibida no festival de teatro Fringe, em Edimburgo.

Waller-Bridge faz o papel-título, uma mulher, segundo sua própria descrição, “gananciosa, pervertida, egoísta, apática, cínica, depravada e moralmente falida”, que “nem sequer pode se chamar de feminista”.

A curta série de seis episódios – uma exploração terrivelmente sombria e histericamente engraçada de luto, irmandade, sexo e amizade entre mulheres – começa com Fleabag lidando com a morte de sua melhor amiga, Boo.

Ela tenta manter-se no controle de seu negócio e de sua sanidade, com ajuda da irmã austera, do cunhado obsceno, do pai distante, da madrasta má e de vários parceiros sexuais que não valem a pena.

Mas já outra força importante na série: o feminismo. Em tempos de crise, Fleabag se volta a reuniões feministas – palestras, retiros, exposições – com reticência, esperança e, finalmente, desapontamento.

Em “Fleabag”, o feminismo é enquadrado não como fonte de poder ou refúgio, mas sim como um padrão adicional que a protagonista tem dificuldades para alcançar; mais um barômetro segundo o qual as mulheres inevitavelmente medem sua inadequação.

Na segunda reunião feminista da série, Fleabag e Claire vão para um retiro silencioso, cujo mote é “Não importa o que aconteça, nenhuma palavra deve ser ouvida”. O retiro exige que as participantes fiquem em silêncio a qualquer custo, enquanto fazem trabalhos como cuidar do jardim e lavar o piso.

“Esse fim de semana é de meditação”, explica a líder do retiro, com determinação tranquila em sua voz. “É deixar pra trás a voz na sua cabeça, prender os pensamentos dentro do seu crânio.

Pense nele como uma prisão para os pensamentos da sua cabeça.” Por mais desanimador que pareça a descrição, Fleabag tem outra interpretação para as atividades do fim de semana: “Pagamos para que eles nos deixem limpar a casa em silêncio”.

A combinação de “Conversa de Mulher” e o retiro que poderia ser chamado de “Mulher, cale a boca” satiriza a corda bamba na qual as mulheres caminham em nome do empoderamento: presas entre o falar mais ou falar menos, sem ter para onde correr.

Embora o feminismo seja claramente importante para a personagem de Waller-Bridge, algo que ela se sente compelida a busca e incorporar, ela luta constantemente para não cair na risada quando é confrontada com os absurdos propagados nos espaços feministas estabelecidos.

A aventura final de Fleabag em terreno feminista vem via uma “sexposição”, uma exposição de arte erótica das obras de sua odiada (mas artisticamente dotada) madrinha/madrasta. As obras incluem fotos e moldes do pai de Fleabag, que, como diz a madrasta, é um homem “muito sexual”.

A madrasta continua alertando a família de que, junto com os moldes de gesso de pênis que ela encontrou ao longo da vida, a exposição vai incluir uma série de auto-retratos nus. “Venho tirando fotos do meu corpo nu há 30 anos”, diz ela, cheia de orgulho.

Mais fascinada e perplexa que ofendida, Fleabag pergunta por quê. A madrasta responde: “Acho importante que mulheres de todas a idades vejam como o meu corpo mudou ao longo dos anos”.

A personagem faz piada com artistas performáticas feministas como Carolee Schneeman e Hannah Wilke, imaginando seu espírito revolucionário seguindo vivo no corpo de uma caricatura desagradável.

A série não sugere que o trabalho da madrasta seja idiota nem ruim – na verdade, muito pelo contrário. “Vivo esquecendo que ela é muito talentosa”, diz Claire, quando as irmãs entram no estúdio da madrasta sem permissão.

“Dá muita raiva”, responde Fleabag. Se as obras de arte estão fazendo alguma coisa para ajudar a humanidade, entretanto, segue sendo uma dúvida.

Ao longo da série, Fleabag se esforça para conter seu cinismo e sua depravação em um mundo que ambas as características deixam os outros pouco à vontade.

Os espaços feministas que aparecem só confirmam o comportamento autodestrutivo de Fleabag, oferecendo mais modelos de saúde e virtudes além de seu alcance.

Em entrevista ao Guardian, Waller-Bridge falou mais sobre o medo profundo que Fleabag tem de ser uma má feminista, ou talvez simplesmente não ser.

Será que ainda sou feminista se assistir pornografia ou se quiser mudar meu corpo para me sentir mais sexualmente atraente?”, pergunta ela.

Vale notar que os três modelos de feminismo presentes na série são liderados por mulheres mais velhas, talvez indicando a obsolescência das gerações feministas passadas.

Para as feministas da quarta onda, por exemplo, assistir pornografia não contradiz os valores feministas; abraçar a própria sexualidade é uma faceta chave do feminismo contemporâneo. Mas Fleabag, colocando o corpo à frente da mente e a atenção à frente do prazer, testa os limites da positividade sexual “aceitável”.

Em uma cena particularmente sombria, Fleabag despeja uma série de insultos contra um agente financeiro que cometeu o erro de perguntar se ela estava bem. “Sei que meu corpo como é hoje é a única coisa que me resta e que quando ele envelhecer e incomível posso matá-lo”, diz ela, às lágrimas.

“E, de alguma maneira, não há nada pior do que alguém que não queira me comer.” Esses sentimentos podem não ser feministas, mas são reais. E as mulheres merecem o espaço para serem reais.

Mais mulheres em filmes e na TV

Para Fleabag, pelo menos neste momento, a vida está uma confusão. Mesmo sendo uma mulher branca de classe média, ela tem enormes dificuldades para gostar de si mesma, se apoiar, se envolver com os outros e simplesmente sobreviver. Ser mulher certamente não facilita as coisas.

Além do luto pela melhor amiga e da dificuldade de manter seu negócio em pé, Fleabag toma uma cantada do cunhado, é humilhada pela madrasta e elogiada pelo ex por não ser “como as outras meninas” porque ela consegue “acompanhar” intelectualmente.

Até mesmo nos pontos mais baixos dessa derrocada emocional, o cabelo encaracolado e o batom vermelho de Fleabag está sempre impecável. Porque as mulheres são assim.

A relutância de Fleabag de abraçar a retórica feminista lembra a artista contemporânea Audrey Wollen, que costuma descrever sua alienação do discurso feminista popular.

“Trabalhar duro, manter-se positiva, reagir e manter-se forte: não é minha linguagem”, disse ela em entrevista à revista Artillery.

“Nossos corpos e nossa dor, física e emocional, têm de ser retomadas, e não acho que isso possa ser feito romantizando o inverso dos nossos sintomas: força, energia, vigor, sanidade, ‘saúde’ definida por padrões masculinos. Nossos sintomas podem ser transformados em armas e criar uma nova imagem de força.”

Ao tentar categorizar Flebag como feminista ou não, o público acaba questionando a um ponto absurdo se certas ações são “empoderamento”.

Amar sua melhor amiga mais que tudo? Feminista. Dormir com o namorado dela?

Não feminista. Mastubar-se assistindo o presidente Barack Obama fazendo um discurso? Hmm, feminista? Convidar uma menina completamente bêbada para passar a noite na sua casa? ... Ligar para uma amiga?

Esse exame interminável, essa tentativa de entender se Fleabag é uma afronta ao feminismo, indica o absurdo da empreitada. Julgar quão feminista é uma mulher é realmente feminismo? Será que tudo o que as mulheres fazem tem de ser feminismo?

A questão lembra uma entrevista recente com a música Angel Olsen, que, quando questionada se seu novo disco era feminista – simplesmente porque é o disco de uma mulher – respondeu exasperada. “Bom, se for o caso, estou comendo uma salada feminista agora”, disse ela.

“Acabei de dar uma volta feminista com meu cachorro. Dei uma cagada feminista. A palavra está na moda, a palavra significa muito para mim e não não sou feminista. Mas acho que a gente deveria dar uma relaxada e ser humano. Quero poder andar de A até B sem que gritem para mim.”

O feminismo é poderoso e extremamente importante, como diz Olsen. Mas às vezes as mulheres simplesmente querem ser seres humanos. A relação ambígua de Fleabag com o feminismo é, em parte, sinal dos avanços do movimento.

Ela faz sexo casual, é dona de um café e fala o que lhe dá na cabeça sem censura ou hesitação – qualidades que não seriam possíveis sem o trabalho incansável das feministas. Ainda assim, na série o movimento parece sempre estar devendo algo.

Muitose escreveu sobre Fleabag como uma personagem feminina radicalmente “difícil”; ela faz suas compatriotas Hannah Horvath, Ali Pfefferman e Rebecca Bunch parecerem as pessoas mais tranquilas do mundo.

Mas além de um retrato nuançado de uma mulher imperfeita, “Fleabag” oferece algo ainda mais raro: um retrato do feminismo imperfeito. De um movimento que às vezes é irrelevante, obsoleto, hipócrita e alienante.

Entretanto, como bem sabem mulheres desesperadas para ser ver refletidas na tela em toda sua complexidade e melancolia, um retrato imperfeito é um retrato realista. Nas palavras da artista Mary Reid Kelley: “Acho que feminismo é apresentar a realidade. Feministas são realistas”.

Com seu retrato crítico do feminismo, Fleabag pinta um quadro fiel do feminismo que, embora esteja longe do ideal, é real. E uma representação fiel é um tributo muito mais respeitoso que um elogio todo retocado.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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