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Índices de demência podem estar diminuindo, mas cientistas não têm ideia do motivo

08/12/2016 09:10 -02 | Atualizado 08/12/2016 09:10 -02

idosa

Apesar dos níveis crescentes de obesidades, diabetes e outras doenças que teriam relação com um risco mais alto de demência, os índices de demência entre os americanos estão diminuindo, segundo um novo estudo nacional envolvendo 21 mil idosos.

Estima-se que entre 4 milhões e 5 milhões de idosos americanos sofram de demência, um termo amplo que descreve perda de memória e das funções cognitivas e inclui mal de Alzheimer, mal de Parkinson e demência com corpos de Lewy.

Os especialistas não têm certeza sobre o que causa a demência, mas doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade aumentam os riscos de perda das funções cognitivas.

O estudo não é o primeiro a apontar para uma diminuição dos índices de demência, mas é o maior. Ele confirma o que estudos menores, realizados com grupos menos diversos de participantes, já indicaram nas últimas décadas.

Os pesquisadores descobriram que o índice de demência diminuiu de 11,6% em 2000 para 8,8% em 2012, entre adultos de 65 anos ou mais que participaram do estudo. Isso significa cerca de 1,5 milhão de pessoas a menos sofrendo do problema de acordo com as estimativas de prevalência.

Os dados são um quebra-cabeça para os pesquisadores, que não sabem se se trata de um acaso ou se a tendência vai continuar no futuro.

“Definitivamente não temos certeza nem confiança de que a diminuição do risco que vimos nos últimos 25 anos vai se manter, se estabilizar ou voltar a aumentar aos poucos”, disse Kenneth Langa, professor da escola de medicina da Universidade de Michigan e médico do centro de recuperação de veteranos de Ann Arbor.

“Quem tem está entre os 40 e 60 anos hoje terá passado, na média, mais tempo acima do peso e com diabetes do que as pessoas que foram estudadas”, continuou ele. “Ainda há incerteza sobre o efeito dessas tendências nos índices de demência daqui 10, 20 ou 30 anos.”

Uma explicação possível é que as pessoas que hoje têm 65 anos ou mais têm níveis mais altos de escolaridade, um fator associado a uma melhor saúde cognitiva na idade avançada. Isso pode indicar que as gerações futuras, que terão educação cada vez melhor, podem manter a tendência atual.

Como os pesquisadores medem os índices de demência nos Estados Unidos

Os pesquisadores entrevistaram 10 546 pessoas em 2000 e depois entrevistaram 10 516 pessoas em 2012 (incluindo novos participantes). O questionário incluía vários testes para medir função cognitiva. As tarefas incluíam contar de trás para frente começando em 20 ou contar de trás para frente começando em 100, em grupos de 7 (100, 93, 86 e assim por diante).

Eles descobriram que o grupo de 2012 teve uma redução relativa de 24% nos sintomas de demência em comparação com o grupo entrevistado no ano 2000. O grupo de 2012 também tinha, em média, um ano a mais de escolaridade, em comparação com o grupo de 2000.

Entretanto, o grupo de 2012 também tinha índices mais altos de diabetes, obesidade e outras doenças crônicas – condições que aumentam os riscos de demência, acredita-se. Os pesquisadores concluíram que níveis de educação, assim como controle melhor de problemas de saúde crônicos que podem levar a doenças cardiovasculares, podem explicar a redução.

O que a redução significa para os americanos

Os resultados do estudo são boa notícia porque sugerem que mudanças no estilo de vida podem reduzir os riscos de demência, diz Munro Cullum, neuropsicólogo e especialista em Alzheimer da Universidade do Texas. Cullum não esteve envolvido na análise, mas disse que as tendências populacionais são consistentes com o que os cientistas vêm descobrindo a respeito da saúde cognitiva.

Resumindo: “O que é bom para o coração é bom para o cérebro”. A redução do número de fumantes e a consciência sobre a importância da nutrição, dos exercícios físicos, da educação e dos estímulos mentais representam esperanças de que os índices de demência continuem caindo no futuro.

Mas Cullum também aponta que a população americana está envelhecendo rapidamente – os baby boomers mais velhos chegaram aos 70 anos este ano. Essa mudança demográfica pode ter impacto maior que as mudanças de hábito da população.

Langa concorda. Quando os baby boomers chegarem aos 70 e 80 anos, provavelmente haverá um aumento no total de pessoas sofrendo de demência, simplesmente porque haverá um número maior de idosos.

Na mesma linha, a Associação do Alzheimer afirmou, em comunicado sobre o estudo, que os índices podem estar diminuindo, mas os números absolutos de pessoas que sofrem de demência continuam aumentando – junto com a população.

Segundo o relatório de 2016 da organização, o número de idosos americanos com algum tipo de demência deve aumentar de 5,2 milhões hoje para 13,8 milhões em 2050. Mundialmente, esses números vão aumentar de 47 milhões para 131 milhões.

“Obviamente, ainda vemos muitos indivíduos com sintomas de demência. Nossas clínicas não estão menos movimentadas do que antes”, disse Cullum. “O que está menos claro é o impacto dessas tendências populacionais nas clínicas, estados e instituições.”

O efeito protetor da educação por toda a vida

Os médicos não têm como prever quem vai sofrer de demência, mas há algumas coisas que pessoas de todas as idades podem fazer agora para manter o cérebro saudável. Isso inclui exercícios físicos regulares, controle de peso e dieta nutritiva.

Langa também estudou uma hipótese chamada “reserva cognitiva”, que supões que o cérebro se torna resistente com educação e estudo durante toda a vida. Desafios novos e complexos mudam a biologia do cérebro, explicou ele, e esses desafios podem vir na forma de estudo, treinamento para um novo trabalho e até mesmo hobbies.

“[Desafios cognitivo] criam mais conexões entre as células nervosas, mais redes neurais, que são mais capazes de suportar as patologias e problemas que se acumulam no cérebro conforme vamos envelhecendo”, disse ele. “Como o cérebro está mais apto a compensar, as pessoas conseguem seguir pensando normalmente e têm menos risco de sofrer de demência.”

Vários tipos de estudo sustentam essa ideia. Estudos observacionais, como o novo trabalho de Langa, apontam para uma associação de mais anos de educação formal e um menor risco de demência.

Autópsias cerebrais que comparam pessoas com menor e maior nível de escolaridade sugerem que, embora a educação não proteja o cérebro da doença, ela possa significar menos sintomas de demência nos anos finais da vida da pessoa com mais educação.

Entretanto, como tudo o que diz respeito à saúde, é difícil estabelecer relação direta com o estilo de vida. Robert Sargent Shriver Jr., político que fundou a organização Peace Corps, sofreu de mal de Alzheimer apesar de seu amor pelos estudos e de sua inteligência extraordinária.

Os estudos apontam que os índices de demência seguem numa direção positiva, mas Langa conclui que ainda são necessários muitos estudos para entender por que a demência se manifesta e o que podemos fazer para evitá-la.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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