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Bernardo Bertolucci, diretor de 'Último Tango em Paris', diz que polêmica sobre cena de estupro é 'ridículo mal-entendido'

05/12/2016 17:24 -02
Venturelli via Getty Images
ROME, ITALY - OCTOBER 15: Bernardo Bertolucci attends a photocall during the 11th Rome Film Festival at Auditorium Parco Della Musica on October 15, 2016 in Rome, Italy. (Photo by Venturelli/WireImage)

Em resposta à repercussão de que Bernado Bertolucci e o ator Marlon Brando haviam planejado a cena de estupro da personagem da Maria Schneider no filme Último Tango em Paris, o diretor italiano disse que a discussão não passa de um "ridículo mal-entendido" sobre o que realmente aconteceu.

De acordo com o The Hollywood Reporter, a declaração do diretor, que foi feita em um comunicado nesta segunda-feira (5), argumenta que a atriz tinha conhecimento sobre a violência da cena.

"Eu gostaria, pela última vez, de esclarecer um mal-entendido ridículo que continua a gerar matérias na imprensa sobre Último Tango em Paris ao redor do mundo. Alguns anos atrás, na Cinemateca Francaise, alguém me pediu detalhes sobre a famosa cena da manteiga. Eu detalhei, mas talvez eu não fui claro, quando eu disse que decidi com Marlon Brando não informar Maria que nós usaríamos a manteiga. Nós queríamos sua reação espontânea a esse uso impróprio da manteiga. É aí que reside o mal-entendido."

O argumento do diretor é de que a atriz, então com 19 anos, teria conhecimento sobre a cena de estupro que protagonizaria com Brando, na época com 48 anos.

Porém, o uso da manteiga como lubrificante nas partes íntimas da atriz é que teria surgido como um artificio do qual ela não havia sido previamente informada.

"Alguém pensou, e pensa, que Maria não tinha sido informada sobre a violência que ela encenaria. Isso é falso! Maria sabia tudo porque tinha lido o roteiro, onde tudo estava descrito. A única novidade era a ideia da manteiga. E isso, como eu aprendi muitos anos depois, ofendeu Maria. Não a violência a que ela está sujeita na cena, que foi escrita no roteiro."

O comunicado de Bertolucci é a resposta e a tentativa de explicar o que ele mesmo declarou em entrevista há 3 anos. O vídeo foi republicado por uma ONG em novembro de 2016 e voltou a gerar discussões sobre a cena.

Na entrevista de 2013, o diretor afirma que não contou à Schneider, pois queria sua "reação como menina, não como atriz". No vídeo, porém, ele não deixa claro sobre o que omitiu à ela: se foi apenas o uso da manteiga ou a violência completa da cena.

"Depois do filme a gente quase não se viu, porque ela me odiava. A sequência da cena com a manteiga foi uma ideia que eu tive com Marlon Brando no dia da filmagem pela manhã. Mas eu me comportei de uma maneira horrível com Maria porque eu não contei a ela o que iria acontecer. Eu não contei porque eu queria sua reação como menina, não como atriz. Eu queria que ela reagisse a cena em que ela se sentiria humilhada, que ela sentisse e gritasse 'não, não'. E eu acho que ela nos odiou, a mim e ao Marlon, porque não contamos a ela esse detalhe da manteiga como lubrificante. Eu ainda me sinto muito culpado por isso. Eu não me arrependo de ter feito essa cena dessa maneira, mas me sinto culpado. Para fazer filmes, algumas vezes você precisa obter coisas e para isso você precisa ser completamente frio. Eu não queria que Maria fingisse a sua humilhação, a sua raiva. Eu queria que Maria sentisse. E por isso ela me odiou o resto da vida."

A declaração de Bertolucci chocou atores e outros diretores da indústria do cinema.

Nomes como Jessica Chastain e Chris Evans publicaram no Twitter que não voltarão a assistir ao filme e nem devem respeitar Bertolucci ou Brando como antes. A diretora Ava DuVernay classificou a cena como "indesculpável".

Maria Schneider enfrentou problemas com drogas e depressão após o filme. Ela morreu em 2011 devido a um câncer e, em 2007, revelou em entrevista ao Daily Mail que havia se sentido "humilhada e violentada" por Bertolucci e Brando.

"Marlon me disse: ‘Maria, não se preocupe, é só um filme’, mas durante a cena, embora o que Marlon fizesse não fosse real [não houve penetração], eu chorava de verdade. Senti-me humilhada."

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