NOTÍCIAS

'A sociedade não quer saber se é de direita ou esquerda, quer saber da vida real', diz prefeito eleito de Porto Alegre

05/12/2016 08:24 -02 | Atualizado 05/12/2016 08:24 -02
Thyago Marcel/Câmara dos Deputados

As eleições municipais deste ano deixaram clara a preferência do eleitor por candidatos que vão “contra tudo isso que está aí”. Em Porto Alegre não foi diferente. Com um perfil mais próximo ao de um gestor e forte discurso pela transparência, o deputado federal Nelson Marchezan Júnior (PSDB) foi eleito em outubro com 60,5% dos votos.

Em uma cidade com forte tradição de partidos de esquerda, a eleição de Marchezan tem um simbolismo extra: é a primeira vez que um tucano chega ao comando do Executivo local.

Com propostas que se fossem catalogadas estariam mais ligadas ao pensamento do que se chama de direita liberal, próximo aos integrantes do Movimento Brasil Livre e dos mais ferrenhos defensores do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, Marchezan rechaça a comparação entre direita e esquerda:

“Esses rótulos de esquerda e direita não conseguem mais definir um político ou um partido. (…) A sociedade quer saber o que você vai fazer e se isso vai funcionar porque a vida real está ruim. Ela não quer mais esses discursos muito abstratos”, afirmou, em entrevista ao HuffPost Brasil.

O prefeito eleito do 10º maior município do País, em termos de população, acredita que está nítido que os brasileiros estão insatisfeitos com a atual relação entre a “política, coisa pública e sociedade”.

Nesse contexto, Marchezan afirma que propõe uma política diferente dessa que está sendo “negada” pela sociedade. Ele acredita que essa postura lhe trará facilidades em uma Câmara de Vereadores, na qual o PSDB só elegeu uma cadeira das 36 disponíveis.

“Acho que os próprios vereadores amadureceram muito. Quem fez campanha em Porto Alegre, quem andou pelas ruas, sentiu o desejo de mudança, acho que tem consciência.”

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: Prefeito, qual a sua expectativa para o mandato e quais seus principais planos?

Nelson Marchezan: Uma boa parte de Porto Alegre, representada pelos meus eleitores, tem a mesma expectativa que eu, de mudança na relação entre a política e o Estado, o Estado latu senso, a coisa pública e a sociedade. Acho que tem uma grande frustração com a política, isso foi representado nos votos brancos, nulos e nas ausências e tem uma expectativa de mudança, de modernização. Porto Alegre hoje é uma cidade com uns problemas que não tínhamos há um tempo, hoje tem quatro vezes mais homicídios que São Paulo, duas vezes mais que o Rio de Janeiro. Uma cidade com serviço de limpeza que está mal, as obras que se iniciaram públicas foram as da Copa e não foram concluídas. Já tem três anos que a Copa acabou. A gente está piorando os índices de educação. A cada dois anos quando sai o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) a gente se afasta mais da meta. É uma cidade que você percebe que as pessoas gostam dela, gostam de morar lá, mas que estão com a autoestima um pouco baixa, um pouco triste. A expectativa é que a gente possa tornar as pessoas um pouco mais felizes.

Seu discurso tem um forte aspecto liberal. O senhor vai propor alguma mudança para deixar o Estado mais enxuto?

Esse foi um discurso, que não foi a principal base do meu. Foi mais do candidato do PSL, Fábio Ostermann, que é um liberal mais explícito e muito mais a base do discurso da Luciana Genro, do PSOL. Todos falaram que temos muitas secretarias, muitos cargos em comissão. O discurso de gastar menos recursos, com a proliferação de cargos, e mais com a atividade-fim, como saúde, segurança, educação. Foi um discurso forte na campanha porque eu acho que não é só a sociedade porto-alegrense que deseja isso, acho que a sociedade percebeu que o seu dinheiro, com essa alta carga tributária, está ficando no meio do caminho. Não está chegando na sua finalidade.

A que o senhor credita a quantidade de votos brancos, nulos e abstenções? Os números superaram a sua votação.

Acho que representa uma negação dessa atual política, coisa pública e sociedade. Essa relação não está sendo aprovada... E quem pode aprovar o ambiente político onde o empreiteiro mais rico do Brasil está preso por corrupção, o presidente da Câmara está preso por corrupção, o ex-presidente está sendo processado por corrupção, dezenas de políticos estão sendo investigados e alguns já estão presos por corrupção? É evidente que o ambiente político está desacreditado.

A sua atuação no Parlamento foi marcada pela ampla defesa do impeachment. Qual a sua avaliação sobre o governo do presidente Michel Temer?

Acho que o governo começou muito fraco, muito sem posições, sem definições e acho que aos poucos está se fortalecendo, parece que está demonstrando algum caminho. Mas acho que ainda tem muito o que mostrar para a sociedade, mostrar a que veio. A vida real do brasileiro longe da estrutura pública está muito ruim.

A candidata do PSOL Luciana Genro sofreu uma queda drástica nas intenções de voto. Por quê?

Ela tinha pouco tempo de TV, quase nenhum. Ela tentou se alinhar a um discurso mais moderno e acho que isso de alguma forma pode ter sido uma tentativa de conquistar novos eleitores, mas pode ter feito ela ter perdido uns seus.

O PSDB elegeu apenas uma cadeira na Câmara de Vereadores. O senhor prevê dificuldades com o Legislativo local?

Acho que, se o tipo de relacionamento proposto por mim fosse o mesmo dessa política que está sendo negada pela sociedade, eu [talvez] pudesse ter dificuldade, mas acho que os próprios vereadores amadureceram muito. Quem fez campanha em Porto Alegre, quem andou pelas ruas, sentiu o desejo de mudança, acho que tem consciência.

Ainda não me encontrei com os vereadores, conversei durante o período eleitoral. Nesse período inicial, vou focar em fazer um diagnóstico das finanças, principalmente da prefeitura, que estão mal. O duodécimo da Câmara de Vereadores não foi pago para pagar o salário dos servidores. Temos fornecedores com pagamento atrasado há um ano. A situação é bastante difícil. Primeiro avaliar essa condição para depois chamá-los para conversar, independentemente do partido.

O senhor sente que rompeu a tradição esquerdista de Porto Alegre?

Acho que hoje esses rótulos de esquerda e direita não conseguem mais definir um político ou um partido. Acho que viraram rótulos de campanha eleitoral, de marketing só. Acho que quem tentar se definir com isso não se comunica com a sociedade. A sociedade quer saber o que você vai fazer e se isso vai funcionar porque a vida real está ruim. Ela não quer mais esses discursos muito abstratos.

Nessa linha, acredita que pode ter um bom relacionamento com os petistas da cidade?

Acho que sim. Como eu disse, alguns discursos foram unânimes em todos os candidatos. E o sentimento das ruas é muito claro de que as coisas não estão funcionando e precisam de mudanças. O único setor que está se beneficiando com essa crise é o setor público.

Após a campanha, muitos congressistas começaram a defender um novo modelo de financiamento. A sua campanha foi a que mais arrecadou na cidade. O senhor está entre os que defendem uma mudança?

A minha campanha foi a que tudo declarou. Todas as despesas e todas as receitas. Atualmente, todas as despesas estão superando em quase R$ 1 milhão as receitas. Acho que essa campanha teve um marco de caixa dois porque a possibilidade de arrecadação legal diminuiu muito e proporcionalmente diminui a forma legal de arrecadar e aumenta o percentual a forma ilegal, que é o caixa dois, a troca de favores, a corrupção. Acho que a gente deve facilitar as doações legais, aí facilita que políticos honestos tenham mais chances nas eleições.

De que maneira?

Não sei. Não pode reduzir ao máximo a forma de doação. Desde quando doação legal é corrupção? Pode criar um fundo, mas tem que ser claro para a sociedade: estamos tirando aqui dinheiro público, que poderia ir para outra área, para financiar campanha eleitoral. Essa é uma forma, é uma escolha. Ou você pode liberar para pessoa jurídica voltar a contribuir e pode colocar critérios, como só pode contribuir para um partido ou um candidato. Não se pode limitar a forma legal de contribuir, ir amarrando, dificultando as contribuições legais, aí você facilita a competitividade dos que são corruptos.

O senhor defende as prévias no PSDB para presidente da República em 2018?

Acho que ainda é muito cedo para falar sobre isso. Acho que temos alguns processos aí pela frente, como eleição do líder da bancada, tem que ser algo transparente, tem que construir a próxima presidência do partido de uma forma que faça bem para a legenda e depois a forma de escolha do nosso candidato a presidente.

A gente sabe que tem uma disputa interna…

Isso é extremamente saudável quando a gente sabe que tem um partido grande e bom, que cresceu pela sua coerência nas eleições, acho que é normal que tenha pessoas, como José Serra, Aécio Neves, Geraldo Alckmin.

O senhor vê o Alckmin mais forte?

Tivemos eleições municipais que tornaram o PSDB mais forte. Acho que a eleição vai depender muito, muito do governo Temer até março do ano que vem. Isso vai definir muito, o que o governo vai fazer, como o PSDB vai se comportar. Se até o final do ano que vem a economia não demonstrar um resultado bom, acho que tem reflexo nas eleições presidenciais.

Pensa em disputar o governo do Rio Grande do Sul?

Primeiro, acho que a sociedade gaúcha não está preparada para as mudanças que precisam ser feitas. E vou cumprir meus quatro anos.

E quem vai ser o candidato?

A gente não começou a pensar ainda, mas tem o Eduardo Leite, que foi prefeito de Pelotas.

LEIA TAMBÉM:

- Crivella diz que eleição dele, de Doria e Kalil é sinal em favor dos valores tradicionais

- 11 dos 26 prefeitos de capitais eleitos são milionários

- Voto nulo vira candidato, ganha jingle e até comício no segundo turno em Porto Alegre