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Pressão para ser bem-sucedido ‘em tudo' agora atinge homens também

02/12/2016 14:44 -02 | Atualizado 02/12/2016 14:44 -02

Os homens britânicos também estão sentido pressão para serem bem-sucedidos “em tudo”, segundo uma nova pesquisa.

A ideia de ter “tudo” — isto é, sucesso na carreira e na vida familiar — há muito tempo tem sido associada às mulheres e gerado um intenso debate se as mães estariam tentando viver de acordo com padrões impossíveis.

Agora, é a vez dos pais correrem em busca dos mesmos ideais inatingíveis, de acordo com uma pesquisa da instituição de caridade para a saúde mental de homens The Campaign Against Living Miserably (CALM) em parceria com o The Huffington Post UK, quecfoi lançada como parte da campanha Building Modern Men (Construindo Homens Modernos).

O estudo revelou que a maioria dos homens (87%) deseja passar mais tempo com os filhos, embora acreditem — mais do que as mulheres — que devem ser os principais provedores da família. “O mundo em mudança no trabalho e na vida familiar produz pressões adicionais e conflitantes sobre os homens”, explicou Joel Beckman, gerente geral da CALM.

cuidado

“Embora os homens agora queiram passar mais tempo em casa e com os filhos (e de fato agora são muitas vezes obrigados a fazer isso para gerenciar conjuntamente as tarefas para o cuidado das crianças), as expectativas clássicas para ser o principal gerador derenda permanecem”, Beckman acrescentou.

“Até que essas forças sejam equalizadas para que os homens sintam que não há problema em compartilhar a esponsabilidade da renda da mesma forma que o cuidado dos filhos, as pressões autoimpostas na gestão da vida cotidiana continuarão a aumentar.”

Os pais que participaram da pesquisa da CALM disseram que as horas de trabalho, a pressão no emprego e o tempo de

deslocamento são as principais razões que os impedem de passar o tempo que gostariam com os filhos. As mulheres também relataram um desequilíbrio entre o tempo despendido no trabalho e na vida familiar (72% gostariam de passar

mais tempo com os filhos).

No entanto, enquanto o número de mulheres que se sentem dessa forma tenha se mantido estável desde 2014, a proporção de homens aumentou em 10% (de 77%), mostrando uma mudança no valor que os homens depositam na vida em família.

Novas políticas do governo britânico, como a Shared Parental Leave (Licença Parental Compartilhada), e a criação de organizações como o The Fatherhood Institute, cujo objetivo é ajudar a moldar políticas que assegurem uma abordagem inclusiva para os pais, refletem uma mudança cultural relativamente recente no entendimento do valor que os homens desempenham na vida de seus filhos.

No entanto, apesar dessa nova visão sobre a importância do papel dos pais, muitos homens ainda sentem a responsabilidade de cumprir o ‘papel masculino tradicional’ de provedor da família — já que 31% dos homens (comparados com 19% das mulheres) disseram que sentem pressão para ser o principal provedor da casa.

David Bradburn, de 27 anos, programador de software e colaborador do site Daddilife, se preocupa com o fato de não estar passando tempo suficiente com a filha Amber, de quatro meses e meio. “Quando chego do trabalho, só consigo passar cerca de uma hora com Amber antes dela ir para a cama”, disse Bradburn, que mora na cidade de Sunderland, na Inglaterra.

“Claro que adoraria ficar mais com ela, mas preciso ganhar dinheiro para sustentar minha família.”

“É estressante saber que não posso conseguir mais tempo para Amber”, acrescentou Bradburn.

“Às vezes, um pensamento passa na minha mente, o de que ‘um dia vou chegar do trabalho e Amber não me reconhecerá e começará a chorar’.”

“Li muitos relatos de pais passando por esse tipo de situação, e realmente sinto por eles. No meu caso, não acho que isso vai acontecer, graças ao fato de ter tido o privilégio de participar do ‘Shared Parental Leave’, que me proporcionou um tempo crucial para me conectar com Amber. Mas aquele pensamento [da filha não o reconhecer] realmente me assusta.”

Jeremy Davies, chefe de comunicações do The Fatherhood Institute, concorda com Beckman ao afirmar que essa pressão dupla que os homens sentem vem de um desejo de uma condição de igualdade de gênero que ainda não alcançamos como sociedade.

“Temos uma percepção de que as coisas mudaram mais do que [presenciamos de fato]”, explicou. “Muitos homens e mulheres querem compartilhar o cuidado das crianças e provisão financeira em 50/50. Mas, apesar dos pais estarem participando mais do cuidado das crianças do que nos anos 70, ainda estão longe de fazer o que as mulheres fazem.”

Uma pesquisa realizada pelo The Fatherhood Institute e publicada em junho deste ano revelou que os homens britânicos passam 24 minutos cuidando das crianças, comparados aos 60 minutos gastos pelas mulheres. “A diferença de remuneração entre gêneros significa que um pai provavelmente ganhará mais do que uma mãe”, explicou Davies.

“E muitos escritórios ainda estão pensados para serem mais compreensivos em relação a uma mulher que precise de folga para cuidar dos filhos, o que significa que muitas pessoas se veem em papéis mais tradicionais do que desejariam, e isso pode ser frustrante.”

“Este é o lado oposto da moeda para mulheres que lutam para serem levadas a sério no ambiente de trabalho. São homens lutando para serem levados a sério [no papel] de pais.” Muito do desejo de “ter tudo” é internalizado — 65% dos entrevistados na pesquisa disseram que a pressão para serem o provedor vem deles mesmos —, mas isso não significa que seja menos real e que não afete a saúde mental dos pais.

Dan Flanagan, de 42 anos, que tem um filho de 4 e fundou a organização Don’t Believe The Hype, já sentiu a pressão de precisar ter tudo”.

“Não é possível na maioria das vezes. Algum lado tem que ceder”. “Seja o relacionamento ou mesmo os problemas de saúde mental causados pelo estresse da situação. Foi o que aconteceu comigo.”

pai e filho

Dan Flanagan e o filho Nathaniel, de 4 anos.

“No ano passado, deixei meu emprego em uma grande agência de mídia porque percebi que era quase um estranho em minha própria casa”, acrescentou Flanagan.

“Estava saindo cedo para o trabalho e voltando só na hora que meu filho ia dormir. Quando estava em casa minha mente estava só no trabalho. Nos finais de semana, enchia meu filho de presentes caros para tentar aliviar minha culpa por não estar por perto na maior parte da semana.”

“Agora trabalho de casa. Fico encarregado de levá-lo à escola na maioria das vezes e desempenho um papel ativo no dia a dia do meu filho”, disse Flanagan.

“Ele está muito mais feliz porque passamos bastante tempo juntos. Estou muito mais feliz porque posso participar ativamente de sua vida ao invés de ouvir falar dela por meio de outras pessoas.” Se não puder fazer mudanças em sua rotina de trabalho para passar mais tempo com a família, Davies recomenda outras dicas para que

os pais possam se sentir mais satisfeitos com o tempo dedicado à família.

“Certifique-se de ter um tempo só seu com cada um de seus filhos”, disse. “Quando você está trabalhando cinco dias na semana, pode ser tentador passar seus dias livres em família, mas você precisa de algum tempo sozinho com seus filhos para desenvolver seu próprio relacionamento com eles,” afirma Davies.

“É bom que as crianças o vejam como um pai totalmente competente e independente, e é bom para você, porque aumenta sua confiança.” “As evidências também dizem que não é a quantidade de tempo que importa, mas a natureza de seu envolvimento com seu filho”, acrescentou Davies.

“Mesmo se você tiver apenas meia hora à noite para eles, passar esse tempo totalmente envolvido — de modo que seu telefone esteja desligado, olhando diretamente nos olhos deles, usando boas habilidades para escutar e falar, fazendo algo construtivo e agradável juntos — é mais valioso do que passar um dia inteiro juntos quando você está distraído com o trabalho.”

“As crianças precisam entender: ‘Posso falar com o papai sobre o que comi na escola e ele estará interessado, porque entende que é importante para mim, porque está no mesmo nível que o meu

quando está comigo’.”

E Davies conclui: “Isso é o que as crianças precisam e, quando ficar bom nisso — seja você mãe ou pai —, conseguirá o que os psicólogos chamam de ‘interações de qualidade’”. Segundo Davies, esse tipo de interação é o que define uma boa criação dos filhos

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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