ENTRETENIMENTO

Ronaldo Fraga leva trans para passarela da SPFW em ato pelo fim da transfobia

27/10/2016 11:37 -02
Nacho Doce / Reuters
Brazilian designer Ronaldo Fraga reacts next to transsexual models at the end of the presentation of his collection during Sao Paulo Fashion Week in Sao Paulo, Brazil, October 26, 2016. REUTERS/Nacho Doce TEMPLATE OUT

ronaldo fraga

Depois de Emicida agitar a SPFW (São Paulo Fashion Week) com um retumbante grito em prol de maior diversidade na moda, com a estreia de LAB nas passarelas, foi a vez de Ronaldo Fraga mexer com as estruturas tradicionais do evento fashion.

Nesta quarta-feira (26), o estilista mineiro - que já levou idosos e refugiados para as passarelas - trouxe visibilidade às mulheres trans, colocando 28 modelos transexuais em seu desfile, no Theatro São Pedro. A maioria delas eram estreantes nas passarelas.

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Uma gravação com a voz de Fraga deu início ao desfile: "O corpo aprisiona, e as roupas libertam o ser". Todas as modelos usaram vestidos com estampas inspiradas em bonecas de papel. Ao final, voltaram ao palco usando calcinha e sutiã pretos e dançaram uma valsa.

"Estamos em tempos de guerra. Minha forma de protesto é essa. Nós não precisamos mais de roupas. A moda precisa começar a dialogar em outras frentes”, disse o mineiro à imprensa e convidados presentes na plateia.

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Conhecido por trabalhar não apenas com roupas, mas também com reflexões e novas ideias respeito da sociedade, o estilista revelou à revista Elle que escolheu ter apenas mulheres trans nesse desfile por conta da discussão sobre identidade gênero em voga, dentro e fora das redes sociais e, sobretudo, devido à violência que essas mulheres sofrem no Brasil.

“Eu sou meio repetitivo. Falo sempre de amor, resistência e da moda como ato político, força de protesto e apropriação cultural. São as mesmas histórias. E eu gosto dos invisíveis. Falamos hoje de um grupo que é dizimado no Brasil. São estatísticas que colocam o país no topo do ranking das nações que mais matam travestis e trans no mundo. Mas ninguém faz nada sobre isso. A média de vida de uma trans no Brasil é de 35 anos. Elas morrem devido à violência, suicídio ou pelo tratamento errado de fundo de quintal com hormônios. E ninguém fala nada. Elas saem das escolas aos 10 anos de idade por conta de bullying e não voltam mais. Não dá mais para ignorar isso.”

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Em entrevista à Folha de S. Paulo, Fraga explicou sua visão sobre moda e porque chama de seu desfile de um ato político.

“A roupa aqui é um detalhe. Ou melhor, a roupa aqui vem com uma história. A história de cada uma das modelos. Isso faz parte do meu pensamento de descobrir a nova função das velhas coisas. O mundo não precisa de mais um desfile, mais uma coleção, mais uma tonelada de roupas e sapatos. Moda é muito mais do que isso. (...) A bancada evangélica [no Congresso Nacional] traz muitos retrocessos. Por isso o desfile é um ato de coragem e resistência. E a gente não tem noção do poder de uma sementinha que a gente planta, do alcance que a moda tem no Brasil. Ainda se discute muito no país a questão do feminino. As pautas feministas se tornaram urgentes. Imagina o quanto um homem que se vê como mulher não sofre?”

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Em entrevista à Elle, a cantora Danna Lisboa, uma das modelos, comemorou a ação do estilista:

“Hoje me senti valorizada e percebi que a luta das transexuais não é em vão. Um desfile como esse não dá voz só a mim, mas sim a todas as trans. É preciso falar sobre a nossa resistência e questionar onde fazemos guerra e onde fazemos paz.”

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