NOTÍCIAS

'Provem uma corrupção minha que irei a pé até a delegacia', diz Lula após denúncia

15/09/2016 13:53 -03 | Atualizado 15/09/2016 13:53 -03
NELSON ALMEIDA via Getty Images
Brazilian former president Luiz Inacio Lula da Silva speaks during a press conference in Sao Paulo, Brazil on September 15, 2016. Lula da Silva defended himself against corruption charges Thursday, saying the case against him was an attempt to destroy him politically ahead of elections in 2018. / AFP / NELSON ALMEIDA (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Denunciado nesta quarta-feira (14) por corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se dispôs a prestar "quantos depoimentos forem necessários" e refutou as acusações.

"Provem uma corrupção minha que irei a pé para ser preso até a delegacia", afirmou. "A gente não pode mentir nem pra Deus nem pra gente mesmo", completou o ex-presidente.

No início do discurso nesta quinta-feira (15), o ex-presidente afirmou que não iria "fazer um show de pirotecnia como fizeram ontem". "Não vou me comportar como ex-presidente da República. Não quero me comportar como um cara perseguido, como se tivesse reivindicando algum favor (…) a declaração é pura e simplesmente de um cidadão indignado com as coisas que estão acontecendo nesse país."

O petista relembrou a trajetória da legenda, que "em 20 anos de existência ganhou as eleições (presidenciais)". "Tenho orgulho de ter criado o mais importante partido de esquerda da América Latina", afirmou.

Lula destacou a vitória no pleito em 2002, ao alcançar o "sonho de que pela primeira vez um trabalhado, metalúrgico, sem diploma, tenha ganhado democraticamente as eleições no Brasil" e conquistas sociais ao longo de seus mandatos e da ex-presidente Dilma Rousseff.

O ex-presidente também relembrou as eleições de 2006 e relembrou uma fala sua na época. "Eu disse... Não tenho a vocação do Getúlio [Vargas] de me dar um tiro, nem do Jango de sair do Brasil. Se eles quiserem me tirar, vão ter que disputar comigo na rua".

O ex-presidente criticou o processo de impeachment de sua sucessora, que chamou de "golpe tranquilo e pacífico" e a atuação dos investigadores da Lava Jato.

"Já derrubaram Dilma, já derrubaram [o ex-presidente da Câmara, Eduardo] Cunha, já elegeram [Michel] Temer. Agora precisa concluir a novela, acabar com a vida política de Lula. Porque não existe outra explicação para o espetáculo de pirotecnia de ontem."

Em referência à frase "não tenho provas, mas tenho convicção", que ganhou as redes sociais após a apresentação da denúncia, o ex-presidente afirmou "eu não posso dizer qual é a convicção que eu tenho deles" e foi aplaudido pela platéia, aos gritos de “Lula, guerreiro do povo brasileiro” e “fascistas não passarão”.

O petista disse ainda que "pouca gente com a vida mais publica mais fiscalizada do que a minha" e afirmou que "só ganha de mim nesse país Jesus Cristo", em referência à sua popularidade.

Em outra referência ao futuro político, o petista com 70 anos, afirmou que pretende viver mais 20 anos. "A história mal começou. Alguns pensam que ela terminou. E eu vou viver muito."

Concursados

Durante a fala, Lula fez críticas a funcionários públicos concursados, algumas vezes em referência ao Ministério Público Federal e aos procuradores autores de sua denúncia.

"A profissão mais honesta é do político porque todo ano, por mais ladrão que seja, tem que encarar, ir na rua pedir voto. O concursado não. Tá com emprego garantido. O político é chamado de ladrão, filho da mãe, filho do pai, de tudo, mas tá lá encarando."

'Orquestra criminosa'

O petista foi identificado como “comandante máximo do esquema de corrupção” e "verdadeiro maestro dessa orquestra criminosa", de acordo com o procurador da República Deltan Dallagnol. Ele afirmou ainda que Lula instituiu a propinocracia: uma governabilidade corrompida por meio da distribuição de propina.

Lula foi denunciado por ter recebido R$ 3,7 milhões de propina da OAS. O repasse foi feito por meio de upgrade em imóveis, reforma e decoração de um tríplex, além do armazenamento de bens do ex-presidente pela empreiteira.

O ex-presidente estava acompanhado de aliados, como o ex-ministro da Casa Civil Jacques Wagner, o líder do PT no Senado, senador Humberto Costa (PE), a senadora Gleisi Hoffmann e o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas.

Antes da fala de Lula., o presidente do PT, Rui Falcão, leu a nota de repúdio aprovada pelo Diretório Nacional da leganda no final da manhã. O texto faz duras críticas à atuação do MPF e sustenta que as denúncias desta semana são uma continuação da perseguição política e do "golpe" iniciado no impeachment.

"Ao denunciar, confessadamente sem provas, o ex-presidente Lula e sua esposa, Marisa Letícia, além de Paulo Okamoto e outros cidadãos, o chefe dos procuradores sediados em Curitiba torna cada vez mais evidente o envolvimento de seu grupo na tramóia que levou ao golpe contra a presidenta eleita democraticamente. E desmascara sua intenção cavilosa, persecutória e autoritária,de antecipar, à margem da lei, um julgamento sumário e condenatório dos que elegeu, seletivamente, como vítimas."

CORREÇÃO: Ao afirmar "se eles quiserem me tirar, vão ter que disputar comigo na rua", o ex-presidente Luis Inácio da Silva se referiu a uma fala dele próprio durante campanha nas eleições presidenciais de 2006. Ao contrário do publicado anteriormente, não houve uma referência à disputa em 2018. A informação foi corrigida às 15h40 desta quinta-feira (16).

LEIA TAMBÉM

- 'Fosso entre acusações verbais e denúncias formais coloca em risco Lava Jato', diz Chicago Tribune

- 'Querem implodir candidatura dele em 2018', diz Dilma sobre Lula denunciado

- A internet não soube lidar com o powerpoint de Lula na Lava Jato