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Mulheres negras são mais vítimas de violência que as brancas, diz promotora

21/07/2016 10:03 -03 | Atualizado 21/07/2016 10:03 -03
Pilar Olivares / Reuters
Women kneel as they hold signs during a protest against the death of five youths in Rio de Janeiro, Brazil, December 3, 2015. Five youth, aged between 16 and 25 years old, were killed inside a car when policemen fired at them when they were driving near Lagartixa slum, local media reported. The signs read (from L) "It shouldn't have happened with one more person", "To be a black person is to be a target" and "One hundred eleven lashes." REUTERS/Pilar Olivares

As mulheres negras são mais vítimas de violência que as brancas e as raízes do problema estão associadas à escravidão. A avaliação é da promotora de Justiça Lívia Santana Vaz, do Ministério Público da Bahia, que participou hoje (20) do I Seminário Biopolíticas e Mulheres Negras: práticas e experiências contra o racismo e o sexismo.

“Não há dúvida nenhuma que, em decorrência da forma como houve a escravização das mulheres negras no Brasil e o racismo institucional que persiste até os dias de hoje, a mulher negra é muito mais vítima de violência de gênero do que a mulher branca.”

A promotora destacou que, de acordo com o Mapa da Violência 2015, os homicídios de mulheres negras aumentaram 54% em dez anos no Brasil, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. No mesmo período, o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%.

Segundo Lívia Vaz, elementos culturais e midiáticos contribuem para a manutenção e aumento da violência e discriminação contra as mulheres negras e citou o exemplo do carnaval, em que as mulheres negras são associadas ao sexo e parte do negócio do turismo.

“Isso tudo tem a ver com a nossa história e tem a ver com como ainda estamos lidando com essa situação hoje, por exemplo: a hipererotização do corpo da mulher negra, isso contribui para que ela seja, ainda, considerada objeto. Essa questão da cultura da violência e da violência sexual, principalmente, a cultura do estupro”.

Educação e desigualdade

A ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Nilma Lino Gomes, também participou do debate, que faz parte das celebrações do Dia Internacional da Mulher Afro-Latina Americana e Afro-Latina Caribenha, comemorado no próximo dia 25 de julho.

Nilma destacou as desigualdades a que são submetidas as mulheres negras e disse que a mudança de perspectiva pode ocorrer por meio da educação.

“A educação, seja ela escolar, formal, seja a educação enquanto processo de vida, sempre fez parte da luta das mulheres e, principalmente, das mulheres negras”, destacou.

Para a ex-ministra, houve avanços na educação brasileira no que se refere às minorias, sobretudo com a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas brasileiras. No entanto, segunda ela, o atual momento político do país, com o governo interino de Michel Temer, ameaça algumas dessas conquistas.

“Estamos na conjuntura de um golpe de Estado e eu tenho chamado atenção de que esse é um golpe parlamentar, midiático, de classe, de gênero e de raça. E nós temos visto a emergência de um fundamentalismo religioso e político muito sério, com uma ala muito conservadora que tem ido contra os avanços que já fizemos no campo do gênero e da diversidade sexual. Me preocupa muito, porque um dos focos onde essa onda conservadora tem investido é a educação”, criticou.

No fim do evento, será elaborado um levantamento de possíveis intervenções do Ministério Público em áreas de atuação do órgão para garantir o cumprimento de direitos das mulheres negras.

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