MULHERES

'Personagem Feminina Pouco Desenvolvida' mostra tudo o que as mulheres NÃO querem nos cinemas

08/07/2016 17:29 -03 | Atualizado 08/07/2016 17:29 -03
Reprodução/Facebook

"Todas essas relações entre mulheres, pensei, recordando rapidamente a esplêndida galeria de personagens femininas, são simples demais. (...) Era estranho pensar que todas as grandes mulheres da ficção, até a época de Jane Austen, eram não apenas vistas pelo outro sexo, como também vistas somente em relação ao outro sexo." - Virginia Woolf

Em seu ensaio, Um Teto Todo Seu, Virginia Woolf desvendou em 1929 o que o Teste de Bechdel viria a questionar dentro das obras de ficção a partir da década de 80: A falta de representatividade feminina de qualidade em obras ficcionais, seja na literatura, no teatro ou no cinema.

O teste é simples e questiona se em uma obra de ficção há pelo menos duas mulheres que conversem entre si algo que não seja relacionado a um homem. A maior parte das produções culturais, no entanto, falham nesse sentido, o que demonstra como o sexismo e machismo estão enraizados e são reproduzidos de forma naturalizada na sociedade.

Pensando nisso, a página do Facebook SourceFed publicou, nesta terça (5), um trailer super sincero e sarcástico de um filme muito conhecido por todas as pessoas: A Personagem Feminina Pouco Desenvolvida.

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O trailer ironiza aquela narrativa batida de filmes que estereotipam a mulher e a reduzem a um ser raso, sem controle de suas emoções e discernimento racional, além de ter um "instinto cuidador" -- no sentido de querer transformar homens fracassados/tristes/"bad boys" em seres humanos decentes. Urgh!

A publicação original fez tanto sucesso que um brasileiro colocou legendas e republicou em seu perfil -- o que rendeu mais de 2 mil curtidas e quase 4 mil compartilhamentos.

Os estereótipos femininos no cinema

No teaser, a protagonista é "sequestrada" por um grupo de três mulheres que se autodenominam "As Personagens Femininas Pouco Desenvolvidas".

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Nesse ponto a crítica se aprofunda em explanar o modo como a misoginia e o racismo se interseccionam para anular tanto a complexidade das personagens femininas, como excluir atrizes que envelhecem e renegar lugares de destaque para personagens negras, gordas e fora do padrão.

De modo cômico e exagerado, eles separam quatro estereótipos corriqueiros no cinema:

1. A "Mamãe-Urso", uma atriz que fez 36 anos e foi demitida de Hollywood por ser "velha demais";

2. A "Atrevidinha", uma personagem negra e gorda, que é sempre construída de modo cômico e solitário, como uma espécie de "cota de minorias" para filmes;

3. A "Colírio", a personagem feminina hipersexualizada que geralmente participa de filmes de ação;

4. E a protagonista, colocada como "A Garota Ideal Doida e Alternativa", que serve para desenvolver as narrativas masculinas de idealização romântica sobre as mulheres, ou seja, existe apenas como adjunto do homem.

Neste último caso, qualquer semelhança com a crítica de O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir não é mera coincidência.

Voltando ao Teste de Bechdel, o trailer também brinca com isso. Em uma cena típica de interrogatório, uma das mulheres usa o que ela chama de "Bechdelômetro", para medir o conteúdo da fala da protagonista -- que pode falar sobre o que quiser, mas, evidentemente, erra rude ao citar o término de seu relacionamento com um homem.

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O teaser continua com outras boas cutucadas, como o racismo velado em relação a personagens orientais e a padronização do "moço hipster bonzinho".

Bem que esse filme poderia se concretizar na realidade, o cinema mundial está precisando desses tapas na cara.

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