ENTRETENIMENTO

Chegou o 'Rotten Tomatoes' para amantes de livros

08/07/2016 19:25 -03 | Atualizado 08/07/2016 19:25 -03
Vimvertigo via Getty Images
Stack of colorful books, grungy blue background, free copy space Vintage old hardback books on wooden shelf on the deck table, no labels, blank spine. Back to school. Education background

A cena: você acabou de ler (e reler) o último parágrafo de um romance que estava saboreando e está quase bravo com a autora porque ela conseguiu terminar a história de maneira tão redonda e poética. Como ela tem a audácia de se recusar a sugerir a possibilidade de uma continuação? O que você vai ler agora?

É tentador entrar na Amazon e olhar a lista de “clientes também compraram”. Você encontra um livro de 800 páginas – ganhador do Pulitzer, que vai dominar sua atenção por um tempo – mas, pera lá, o que é isso? Uma avaliação de 3,5 estrelas? Você não quer perder o ânimo – o livro parece inteligente, ágil e cheio de garra. Mas... você decide procurar outra coisa, com uma nota de quatro ou cinco estrelas.

Todo mundo já passou por isso: deixar-se influenciar pelo conjunto de resenhas dos outros leitores na hora de escolher a próxima leitura. Mas, embora os sistemas de estrelas da Amazon e do Goodreads tenham seu propósito, eles talvez tenham peso demais sobre as escolhas que fazemos. O que faz sentido; é a única avaliação quantitativa que temos sobre os livros.

É por isso que o Literary Hub, um site dedicado a notícias, ensaios e trechos de livros, lançou o Book Marks, que eles chamam de “Rotten Tomatoes para livros”, agregando as opiniões dos críticos profissionais sobre os lançamentos e atribuindo a cada um deles uma nota.

Andy Hunter, editor do Lit Hub, contou ao HuffPost como vai funcionar o sistema. O site hoje agrega 70 veículos que têm críticos profissionais, do New York Times a blogs como o Millions e a resenha semanal do Huffington Post, The Bottom Line. Se 3 dos 70 escreverem sobre um livro, ele entra para o Book Marks.

Como os resenhistas não costumam dar uma nota em suas críticas, os editores do Lit Hub – muitos dos quais já trabalharam como críticos – atribuem as notas (que vão de A a E). Mas Hunter observa que o site incentiva os críticos a dar suas próprias notas, para evitar qualquer tipo de ruído de comunicação. “Queremos uma coisa aberta e colaborativa, que deixe os críticos felizes”, disse ele.

“Acho que livros são uma parte extremamente importante da nossa cultura, e os críticos profissionais são pessoas que dedicam suas vidas a se envolver com livros de maneira substantiva”, afirmou Hunter, explicando por que o Lit Hub embarcou nesse projeto. “Um crítico tem a responsabilidade de falar sobre a importância do livro no contexto de seus pares, a história do gênero e as obras de outros autores que tratam de assuntos similares.”

O resumo de Hunter sobre a importância da crítica literária faz sentido; críticos profissionais têm a tarefa de entender que obras possam ter inspirado um livro, como ele se encaixa no restante da produção do autor e como o livro conversa com um contexto cultural mais amplo. As críticas, portanto, são mais do que apenas uma avaliação superficial – elas devem ser profundas e consideradas.

Mas nem todos são fãs das críticas. Muitos sites – incluindo o BuzzFeed Books e o blog Book Riot – deixaram claro que suas missões não incluem fazer resenhas de livros, para evitar as possíveis reações a críticas negativas. “Por que desperdiçar saliva falando mal de algo?”, disse o editor do BuzzFeed Books, Isaac Fitzgerald, logo depois de ser contratado.

O clima positivo criado por essas abordagens tem sido de várias maneiras, bem, positivo. Mulheres e escritores não brancos têm a chance de discutir suas preferências literárias em vez de se sentir invalidados pela velha guarda – que ainda é dominada por caras brancos, como aponta a ONG Vida. Mas uma solução melhor a longo prazo seria que os veículos contratassem mulheres e pessoas não brancas para escrever as críticas, em vez de simplesmente abandoná-las.

Outras queixas, como a feita recentemente pela fundadora do Bookslut, Jessica Crispin, apontam um suposto nepotismo nas resenhas. Os críticos seriam muito influenciados pelas editoras, o que criaria uma comunidade insular que não deixa espaço para opiniões subversivas. Talvez por causa dessas críticas à crítica que Hunter tenha notado “tanta mudança em termos da mídia [...] jornais optando por sites e diminuindo o número de resenhas ou as escondendo em submenus”.

É altruísta a decisão do Lit Hub de oferecer uma solução para o problema multifacetado e polêmico da crítica literária profissional. Os críticos podem ser criticados, mas eles ainda cumprem uma função prática para os leitores – e muitas vezes importante para os autores.

“Achamos que poderíamos fazer algo positivo em termos de destacar essas resenhas”, disse Hunter. “Colocá-las diante das pessoas, onde elas possam ser úteis.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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