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Doações enchem ruas do centro de SP de cobertores

21/06/2016 10:08 -03 | Atualizado 21/06/2016 10:08 -03
FADEL SENNA via Getty Images
Moroccan homeless youth prepare to sleep in a corner of a street in the northeastern coastal city of Tangier, on January 28, 2016. Having left their homes due to precarious social circumstances, some of these children attempt to travel to Europe by jumping on the back of a truck or a bus at the port of the city, in hope of finding a better life elsewhere. Drug addiction is very common among street children who commonly sniff glue and other chemicals to help them bear hunger and cold. / AFP / FADEL SENNA (Photo credit should read FADEL SENNA/AFP/Getty Images)

Depois de um fim de semana inteiro de doações feitas por organizações e grupos de amigos às pessoas em situação de rua do centro de São Paulo, a capital paulista começou a semana ontem com pilhas de cobertores forrando as calçadas, deixados nas sarjetas após a noite de uso.

Os cobertores se amontoaram no corredor que começa na Praça da Sé, segue pelo Pátio do Colégio, avança pela Rua Boa Vista e termina na Praça do Patriarca. Conforme a reportagem mostrou na segunda-feira, 20, no fim de semana moradores de rua chegaram a se agredir para receber as doações, que vieram às centenas, motivadas pela onda de frio e pelas notícias de mortes supostamente ligadas à baixa temperatura.

As montanhas de cobertor surgiram depois de a Prefeitura ser criticada por recolher objetos pessoais dos moradores de rua. Para o padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, um dos principais críticos da política da Prefeitura para moradores de rua, a ação da gestão Fernando Haddad (PT) em deixar os cobertores no chão "é colocar como réu quem é a vítima". "O meu cobertor eu deixo na minha cama. A cama deles é a calçada. Eles não têm como carregar os cobertores consigo durante todo o dia", afirmou.

A Prefeitura argumenta que está providenciando a coleta do material. A retirada de colchões e papelões das pessoas em situação de rua pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) foi duramente criticada e resultou na edição de um decreto impedindo agentes públicos de tomar bens dessa população.

"Em função da grande quantidade de cobertores distribuídos de forma voluntária e extemporânea nos últimos dias, o material foi tratado como descartável pelos eventuais usuários", informou a Prefeitura, em nota, ao comentar o material acumulado.

O abandono do material no centro foi justificado com a afirmação de que "as equipes da Guarda e da zeladoria, depois de serem acusadas de ter concorrido para os óbitos da semana passada, estão receosas de novas acusações infundadas".

Ainda segundo a nota oficial, a Prefeitura tomou providências "no sentido de tranquilizar servidores, temerosos com o uso político que tem se adotado sobre as ações regulares de zeladoria", encerra o texto.

Um servidor público de 30 anos, que organiza doações com amigos e pediu para não ter o nome divulgado, afirmou que a imagem dos cobertores largados deve motivar as pessoas a diversificar o material a ser doado.

Frio

O inverno começou ontem, às 19h34. Para hoje, há previsão de chuva fraca a moderada, segundo a meteorologista Aline Tochio, da Climatempo. O céu estará nublado e as temperaturas devem variar entre 11°C e 15°C. "Entre quarta e quinta-feira, a chuva pode ser de moderada a forte. O tempo abre na sexta e teremos um fim de semana com sol", diz.

Preparada, a assistente administrativa Marisete Alexandra da Silva, de 48 anos, saiu de casa com cachecol e luvas na bolsa. "A gente sabe que vai se molhar. Já tem de deixar calça e sapato no trabalho", afirma.

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