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As feridas invisíveis provocadas pelo estupro e que não cabem no boletim de ocorrência

31/05/2016 16:14 BRT | Atualizado 26/01/2017 22:34 BRST
Mario Tama via Getty Images
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JUNE 06: Photographs by Marcio Freitas of models portraying women who are abused are displayed on Copacabana beach with 420 pairs of underwear at a demonstration against violence against females on June 6, 2016 in Rio de Janeiro, Brazil. The demonstration was put on by the NGO Rio de Paz who said the 420 pairs of underwear represent the number of women raped in Brazil every 72 hours. The protest follows the gang rape of a 16-year-old girl in late May in Rio de Janeiro. The Rio 2016 Olympic Games begin August 5. (Photo by Mario Tama/Getty Images)

Sinais de uma relação sexual não consentida. Marcas de coação e agressão. Vestígios de esperma na cena do crime – manchas nas roupas, lençóis, almofadas, móveis, tapetes, chão – e no corpo da vítima. Exame de DNA do esperma encontrado.

A apuração pericial de um estupro depende, fundamentalmente, da coleta de indícios do crime e de exames clínicos que apontem para a probabilidade e posterior comprovação do fato ocorrido. Passa, portanto, pelo corpo e por sinais físicos da existência do crime.

Mas uma etapa anterior, e muito imprescindível, é a denúncia do estupro. Nessa fase, a vítima é ouvida, e seu relato expressa um sem-número de medos, confidências e lembranças dolorosas.

Para quem escuta, é a oportunidade de perceber uma violência que vai além da corporal, e feridas que não cabem em um boletim de ocorrência. Como reportar o constrangimento, o terror diante da violação, o desespero, o desrespeito, a confiança abruptamente abalada ou o horror do desconhecido, o domínio por quem foi mais forte, a preocupação com o que os outros vão pensar?

Aí entra um residual invisível, pesado, complexo e, justamente por isso, essencial para pensarmos as consequências de um estupro. O corpo machucado não resume a situação de desamparo de quem passou por isso.

Uma das consequências possíveis é a instauração de um trauma, que pode gerar qualquer tipo de sofrimento, como medo, sensação de perseguição, doenças psicossomáticas, crueldade e sentimento de vingança, explica o psicanalista e sexólogo Sérgio Máscoli, que atua em clínica particular e no Projeto Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria da USP.

A família da vítima também carrega os efeitos psíquicos de um estupro e, portanto, também deve ser tratada, ele destaca. "Se alguém da família foi estuprada(o), todos da família também, pois a família é um sistema interligado e é uma expressão cultural."

“No caso da vítima, podemos elencar quadros que vão de crises de ansiedade, depressão até suicídio. Mas, o fato é que ninguém passa incólume”, atesta Paula Land Curi, doutora em Psicologia Clínica e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O HuffPost Brasil perguntou a ela e à psicóloga em formação Ivana Maria Fortunato de Barros sobre os efeitos psíquicos de um estupro sobre a vítima. Ambas atuam em um projeto que acolhe mulheres vítimas em Niterói, no Rio de Janeiro.

A experiência de Curi mostrou quão delicado é o momento da denúncia: Nem sempre os familiares estão por perto.

“Normalmente, quando uma mulher é estuprada e consegue pedir ajuda, ela chega às unidades de saúde sozinha. Sente vergonha de contar a experiência vivida, sente medo de ser criticada pela própria família. A mulher vive sua dor na solidão. Nem mesmo o parceiro, com o qual muitas vezes essa mulher dividiu uma vida, tem conhecimento do que aconteceu”, ela relata.

Essa vergonha está diretamente ligada ao machismo que estrutura nossa sociedade, impondo identidades e padrões de comportamento para a mulher, contextualizam Curi e Barros.

“Assim, cria um modelo do que é ser mulher, restringindo as roupas que ela pode vestir, o horário em que pode estar na rua, os lugares que pode frequentar, como pode se comportar, como deve se relacionar com os homens. Assim, a mulher que não se encaixa nesses padrões é culpabilizada por tudo aquilo que lhe acontece. É assim com a mulher que é assediada na rua e a culpam pela roupa que estava vestindo, ou com a mulher que apanha do marido e as agressões são justificadas por ela não ter aceitado algo que ele lhe impôs.”

Elas citam como exemplo a adolescente de 16 anos vítima de um estupro coletivo, no Rio de Janeiro, no dia 21 de maio. O caso está sendo investigado e despertou grande comoção, uma vez que um vídeo divulgado nas redes sociais aponta para a participação de 33 homens no estupro. O então responsável pela investigação, o delegado Alessandro Thiers, foi afastado no dia 29 de maio, depois que a então advogada da vítima, Eloísa Samy, o acusou de "machismo" e de constranger a adolescente durante o depoimento.

“No caso desta menina, o medo dela se justifica, por exemplo, quando vemos diversas vezes ela sendo questionada, em várias instâncias e de diversas formas, sobre o que estava fazendo no local, se ela já havia se relacionado com algum dos estupradores, ou quando vemos uma enxurrada de comentários na internet buscando culpabilizá-la por algum comportamento.”

Independentemente do caso citado acima, em um percurso que transforma vítimas de estupro em provocadoras, o medo impede que as mulheres denunciam o crime e busquem assistência após uma violência, analisam Curi e Barros. Neste contexto, tudo fica pior.

“Sem cuidados em saúde, os agravos físicos e psíquicos podem se intensificar. Vale lembrar que as instituições não são distintas da sociedade em que se inserem. Deste modo, o machismo também está presente nelas.”

Da mesma maneira que é preciso desconstruir uma sociedade estruturada pelo machismo, é necessário rever a maneira como se enxerga os efeitos do estupro – atualmente configurado na presença de conjunção carnal ou de atos libidinosos.

Curi e Barros questionam:

“O estupro, como ato de violência, age diretamente no corpo, mas, para além da carne. Contudo, a sociedade tende a vê-lo como algo banal, quase sem efeito para aquele que a sofreu, especialmente quando não apresenta os sinais que procuramos.”

Esses sinais dizem respeito à (não) vontade da pessoa estuprada de praticar o ato sexual ou libidinoso, afirma Curi.

“Há uma busca por evidências que comprovem ‘que a mulher não queria’, ‘que ela poderia ter lutado para evitar’. Logo, busca-se pelo que é visível. Contudo, isso é mais um equívoco enorme, que leva a inúmeros problemas nos encaminhamentos dados aos casos de estupro. A sociedade, em geral, deixa de escutar essas mulheres quando não consegue deixar de fora o julgamento moral.”

Com esse julgamento, há uma tendência em ser inverter os autores: a vítima se torna culpada.

“Nos casos de estupro, recorrentemente, são as vítimas que têm que provar que não tiveram culpa e que não contribuíram para o crime. Desta forma, podemos dizer que deixamos de escutar o que elas têm a dizer, visto que há uma tendência a desconsiderar sua fala e a provocar seu silenciamento. O que temos visto é que temos uma sociedade que, surda, tolera o estupro. Embora tenhamos conseguido avançar na lei e apontar que o ponto fundamental da questão não é a ruptura himenal da mulher honesta, como era antes, mas sim o consentimento, nós ainda vemos uma sociedade que não consegue pensar além das evidências corporais.”

Confirmar a existência de um estupro se torna, portanto, ainda mais complexo: “Se com as marcas no corpo, nunca foi simples apurar o fato, hoje então... O fato é que se não conseguirem se deslocar do corpo biológico, não conseguirão escutar o que a mulher tem a dizer. Afinal, escutar não é sinônimo de ouvir”, lembra Curi.

Máscoli ressalta a importância de se pensar a vítima como um todo:

"O corpo mental é tão corpo como a vagina. Tratá-los de forma fragmentada é esquartejar o corpo da vítima em fatias, para que cada especialista veja e dê sua avaliação do fragmento analisado. A violência sexual pode, inclusive, ser não verbal/tátil, mas por atitudes de quem se julga empoderado para fazê-la".

Falar sobre o fato dói, seja no momento da denúncia, para apuração do caso, ou depois, para receber os cuidados médicos e psicológicos. Mas é extremamente importante. Igualmente importante é ter alguém sensível a esse relato, que deve ser sempre reservado ao máximo da privacidade e do acolhimento.

Seja um médico ou um policial, “suas condutas devem estar embasadas pelos princípios e pela ética que regem suas categorias e não por ideologias que atravessam a sociedade e, muitas vezes, se colocam contra as mulheres que procuram ajuda”, pondera Curi.

“Devemos sempre lembrar que existe uma rede serviços de saúde voltados à assistência às mulheres em situação de violência sexual. Isso não é nada novo. Contudo, nem sempre as mulheres chegam a ela. Nos protocolos de atendimento, o suporte psicológico está garantido desde a entrada da mulher nas unidades de referência. Os atendimentos podem continuar, ficando a critério da mulher, no segmento ambulatorial. Ou seja, a mulher será acompanhada por um psicólogo enquanto necessitar de seus cuidados”, reforçam Curi e Barros.

Superar um estupro, por outro lado, permanece como uma pergunta sem resposta, afirma Curi. Há muitas variáveis em questão. “No entanto, podemos oferecer um espaço de escuta para que a mulher seja escutada em sua dor.”

A análise pode ser uma via de ajuda para suportar o fato, destaca Máscoli, na medida em que trabalha o sofrimento relacionado ao estupro. "Ela auxilia o fortalecimento do ego da vítima e ajuda a empoderá-la para superar o trauma, cujas lembranças permanecerão na memória, e não no afeto/emoção da vítima analisada."

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