MULHERES

Dilma: 'A História ainda vai dizer o quanto de violência contra mulher tem nesse impeachment'

10/05/2016 20:35 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Brazil's President Dilma Rousseff attends the opening of the National Conference of Women, in Brasilia, Brazil, Tuesday, May 10, 2016. The impeachment proceedings against Rousseff took another hairpin turn Tuesday after the acting speaker of Congress' lower house Waldir Maranhao put the impeachment process back on track a day after he sparked chaos and sowed further discord among Brazil's fractious political class by annulling an April 17 vote by the Chamber of Deputies for impeachment. (AP Photo/Eraldo Peres)

No que pode ser a sua última agenda pública fora do Palácio do Planalto antes do seu afastamento pelo Senado, que deve acontecer nesta quarta-feira, 11, a presidente Dilma Rousseff escolheu uma plateia de mulheres para reforçar o seu discurso de que vai continuar trabalhando em defesa de seu mandato.

Ela reiterou que não existe a hipótese de que ela renuncie e reforçou que essa ideia "jamais passou pela cabeça".

Dilma disse ainda que o último dia de seu mandato continuará sendo 31 de dezembro de 2018 e que ela não deixará de batalhar por isso. "Eu não estou cansada de lutar, estou cansada dos desleais e dos traidores. Mas esse cansaço impulsiona a mim a lutar ainda mais", afirmou na abertura da 4ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, em Brasília.

"A renúncia é algo que satisfaz a eles; a nós o que satisfaz é a luta", afirmou. "Eles querem de todas as formas evitar que eu continue falando e denunciando o golpe", disse, acrescentando que sua capacidade de resistir "é enorme".

A presidente assegurou a plateia de apoiadoras que vai lutar com todas as suas forças e "usando todos os meios disponíveis" para derrubar o processo de impeachment. "(Vou usa os) Meios legais, meios de lutas. Vou participar de todos atos e ações que me chamarem", afirmou.

Após o já esperado afastamento, a presidente pretende percorrer o País em uma espécie de "campanha" para tentar se defender e recuperar a presidência.

Dilma disse ainda que se sentia "acolhida" pelas militantes e que o impeachment também está pautado no preconceito contra a mulher. "A História ainda vai dizer o quanto de violência, de preconceito contra a mulher, tem nesse processo de impeachment golpista", afirmou.

Segundo ela, o fato de ser a primeira mulher a assumir o cargo despertou esse preconceito. "Mas uma parte da minha capacidade de resistir decorre de eu ser mulher", garantiu. "A história vai mostrar que o fato de ser mulher me tornou mais resiliente e lutadora."

A presidente afirmou que o momento é decisivo para a democracia brasileira e que "os golpistas" carregam promessas que foram derrotas nas urnas. "Os golpistas carregam o retrocesso", afirmou, citando possíveis medidas de um futuro governo do vice Michel Temer, como mudanças na política do salário mínimo e em programas sociais.

Ao dizer que é preciso "dar nome aos bois", Dilma citou que o responsável pelo processo de impeachment foi o presidente afastado da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) junto com o vice. Ela não citou nominalmente Temer. "Não é um golpe qualquer; temos que entender a natureza dele. Esse pessoal não consegue chegar a Presidência pelo voto popular", afirmou.

Dilma voltou a dizer que eles querem implementar uma "eleição indireta" e que é preciso fortalecer a "jovem democracia brasileira". Ao explicar os decretos de crédito suplementares que constam no pedido de impeachment, Dilma voltou a dizer que não cometeu crime de responsabilidade e que se o mesmo princípio de acusação contra ela fosse aplicado a governadores muitos sofreriam impeachment. "Isso é um absurdo".

Ao repetir que se sente injustiçada, a presidente destacou as políticas sociais do PT e afirmou que muitas delas trouxeram descontentamento "para uma minoria". "Eu me sinto injustiçada sim, sou vítima. Sou uma vítima porém lutadora, com consciência e capacidade de luta", finalizou.

Apoio

A plateia, formada por mulheres ligadas a diversos movimentos sociais, interrompeu o discurso de Dilma por diversas vezes com gritos de apoio que têm sido frequentes das últimas agendas da presidente, como "no meu país eu boto fé porque ele é governado por mulher"; "não vai ter golpe, vai ter luta"; e "Fica, querida", em contraponto às manifestações de oposicionistas que no dia do impeachment fizeram cartazes com a frase "Tchau, querida".

Um grupo de delegadas, que foi detido na chegada a Brasília após uma confusão no aeroporto por elas terem feito uma manifestação pró-Dilma ainda dentro da aeronave, foi bastante aplaudido ao chegar no evento. Segundo a deputada Moema Gramacho (PT-BA), a ordem de detenção teria sido de deputados da oposição que estavam no mesmo voo vindo de Salvador.

Com um formato similar ao de campanha, Dilma citou uma série de Estados e cidades para agradecer a presença das mulheres. Como tem feito nos últimos eventos, de forma "interativa", Dilma repetia as cidades conforme a plateia a ajudava. Quando chegou ao fim dos agradecimentos, ouviu mais uma militante e rebateu: "Minha filha, a fronteira é imensa. Falei todos os Estados".

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), o uruguaio Luis Almagro, que mais cedo teve um encontro com Dilma, esteve no evento e fez uma fala em defesa do direito das mulheres. Mais cedo, Almagro afirmou que a entidade fará consulta à Corte Interamericana de Direitos Humanos para saber a respeito da legalidade do processo de impeachment.

Mesmo com o iminente afastamento, Dilma intensificou a agenda nas últimas duas semanas. O Palácio do Planalto estuda, inclusive, a realização de um evento amanhã no Planalto, mesmo dia em que o Senado deve definir o afastamento de Dilma por até 180 dias.

'Fora do protocolo'

A participação de Dilma estava inicialmente marcada para as 15 horas, depois foi postergada duas vezes - para as 16h e para as 16h30. A presidente chegou às 16h39, bastante ovacionada pela plateia, que chegou a cantar o Hino Nacional a capela.

No entanto, diferentemente de outras ocasiões em que a presidente era esperada, mesmo com atrasos maiores, para o evento começar, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, abriu a conferência alegando que "Dilma estava em outro evento" e chegaria mais tarde.

Menicucci fez um discurso em defesa do mandato de Dilma, exaltando o "coração valente" da presidente.

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