MULHERES

Gloria Pires, que estrela filme sobre Nise, fala sobre vulnerabilidade: 'A experiência da vida me bota de pé'

20/04/2016 15:26 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução/Facebook/Divulgação

gloria pires

"Graças a Deus eu sou uma pessoa feliz. Eu tenho bom humor diante da vida porque eu já vi muita coisa."

Experiência é uma certeza quando se fala de Gloria Pires. A atriz começou a carreira aos cinco anos, quando ainda nem tinha ideia do que seria uma carreira. A arte contaminou a vida dela desde cedo e, por várias vezes, a ajuda a expressar vivências e sentimentos.

Em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil, Gloria contou que a experiência que a vida traz é o que a coloca de pé, especialmente quando está vulnerável. Recentemente, ela foi bastante criticada e se tornou alvo de inúmeras piadas e memes por sua participação na transmissão do Oscar.

“Eu tenho bom humor diante da vida porque eu já vi muita coisa. Eu trabalho desde muito nova. Já vi muita gente que aponta o dedo ser apontada depois, de formas terríveis. É a experiência da vida que me bota de pé.”

Pires chega aos cinemas nesta quinta-feira (21) como a psiquiatria alagoana Nise da Silveira no filme Nise – O Coração da Loucura, dirigido por Roberto Berliner e premiado nos festivais de Tóquio e do Rio.

Nise revolucionou o tratamento psiquiátrico ao dizer não para os métodos convencionais da época – que incluíam choques e clausura – e substituí-los pela arte como expressão dos pacientes com esquizofrenia. Uma mulher inspiradora sendo interpretada por outra mulher inspiradora.

“A mulher Nise, a médica Nise, corrobora com uma maneira de pensar que eu gosto muito. Fazer o bem sem olhar a quem. Ela tinha essa conduta na vida dela”, afirma.

Por meio da ficção, Pires reatualiza, na realidade, a importância de Nise para o Brasil. No filme, Nise comove e materializa a ideia de que atitudes individuais podem contribuir para a melhoria da sociedade. A interpretação de uma mulher que acreditava no melhor para seus pacientes é bastante convincente, sem cair nas armadilhas de uma supermulher. Sim, Nise pisa na bola de vez em quando, como qualquer ser humano.

Leia a entrevista com Gloria Pires na íntegra:

Antes de a Nise da Silveira entrar na sua vida, qual era a sua percepção sobre o tratamento de pessoas com problemas de saúde mental, graves e mais leves? O que mudou no meio do caminho?

Antes de me aprofundar no trabalho da Dra. Nise, eu tinha uma observação de fora. Teve um período em que fui voluntária em um hospital que tinha uma área para doentes mentais e eu fui agredida por um psicótico. Fiquei muito traumatizada. Depois disso, coincidentemente, a minha vida deu uma acelerada e eu não pude mais continuar com esse trabalho que eu fazia, e me afastei.

Quando veio o trabalho sobre a Dra. Nise eu tive outra visão, porque o que eu via eram sempre ambientes degradados, muito descaso, e eu acho que ter conhecido mais o trabalho da Dra., a visão que ela tem sobre a loucura e a maneira de acessar esse lado da mente mudou tudo completamente. Não que fisicamente tenha mudado porque o que a gente ainda vê hoje é uma decadência desse sistema, mas por outro lado, já existe essa ideia de que não é no manicômio que alguém vai ser tratado e vai chegar a ter uma vida feliz. Não é atrás das grades que a vida de alguém vai se tornar melhor. Existe hoje também uma aceitação desse fato de que os doentes mentais, dependendo do que seja a sua doença, seja a esquizofrenia ou outro tipo de doença mental, não precisam mais ficar internados. Eles podem ter uma vida livre, ir para suas casas e também ter um acompanhamento que seja necessário de acordo com cada doença.

É comovente pensar naquela mulher desbravando esse caminho, encontrando essa linguagem e se servindo de tudo que ela leu na vida dela e pesquisou incansavelmente.

Nise foi desbravadora em uma série de sentidos: era mulher no meio de uma imensa maioria de homens; era nordestina e foi fazer a vida profissional no Sudeste; questionou, criticou e convocou para a mudança os seus próprios colegas de profissão, os psiquiatras; teve cargo de chefia em um ambiente de trabalho dominado por homens. Fica até parecendo que esse desbravamento foi fácil e sem sofrimento. O que a Nise, como mulher, brasileira e pioneira, te ensinou?

A mulher Nise, a médica Nise, corrobora com uma maneira de pensar que eu gosto muito. Fazer o bem sem olhar a quem. Ela tinha essa conduta na vida dela. Ela era uma pessoa que tinha compromisso e levava a sério as crenças pessoais dela, o trabalho dela. Ela tinha orgulho de ser uma servidora pública. Ela era uma cumpridora do dever dela da melhor forma que ela poderia desenvolver isso. Nisso ela me inspira, e ela acentua um traço humano que eu admiro muito.

nise da silveira

Nise da Silveira em trecho do posfácio do documentário Imagens do Inconsciente

Qual sua cena favorita no filme? E qual foi mais difícil, emocionalmente falando, de gravar?

O filme tem várias cenas que eu amo. Uma das que eu considero mais bonitas é a cena em que a Adelina vem pela primeira vez para o STO [Setor de Terapia Ocupacional], acompanhada pelo Almir. É uma cena curta, não tem fala, mas é tão simbólica que eu adoro. A cena do passeio na Floresta da Tijuca é de uma poesia incrível. Também a cena da quadrilha é de uma exuberância linda. É um momento muito emocionante do filme para mim.

A cena mais difícil foi uma cena emocionante e surpreendente. Não posso revelar muito, mas é uma cena com animais. Nise está em casa chorando sentada no sofá com o marido. Nós filmamos todas as sequências da casa da Nise em dois dias. Era um casarão muito antigo em Santa Teresa e o assoalho de madeira rangia muito. Existiam obras no entorno, então as janelas tinham que ficar fechadas para a gente poder filmar. Os gatos que foram trazidos para as cenas eram todos adultos e eram de raça. Eram gatos acostumados a um certo ambiente, certas pessoas. O gato não é um animal muito simples de lidar. O resultado foi que os gatos adultos se esconderam e a gente não conseguia filmar com eles. Só os pequeninos ficavam à vontade com a equipe. E aí o Roberto conseguiu filmá-los comendo, em cima do sofá, mas era um ambiente em silêncio, com poucas pessoas.

A última sequência que gravamos foi justamente essa emocionante cena com animais. Eu começava em pé e depois sentava chorando. O Roberto deixou a câmera rodando por 21 minutos. Você não aperta um botão para chorar, você vai a algum lugar triste da sua existência. Em um determinado momento, um dos gatos, percebendo aquela tristeza em que eu estava realmente, resolveu sair do esconderijo e subiu no sofá para me consolar. Foi a cena mais linda que eu já tive a oportunidade de fazer. Não foi ensaiado, não foi orquestrado, foi totalmente sensorial.

Entre as histórias dos pacientes apresentados, teve alguma que te comoveu mais? Deve ser bem significativo lidar com situações tão extremas e tão ricas em aprendizado.

Todas aquelas histórias são muito tocantes porque, na maioria das vezes, a esquizofrenia acontece na transição da infância para a fase adulta. É no início da adolescência, em geral, que acontece a primeira crise. Sempre por uma questão de afeto, não correspondido, uma questão relacionada ao amor. O afeto está diretamente ligado à cisão da psique. Então são casos muito comoventes, todos eles.

E mais comovente ainda foi estudar o histórico dos pacientes pela visão da Dra. Nise, analisando as obras que eles começaram a produzir através da pintura do desenho, os símbolos usados e a observação dela dessas histórias pessoais. É tudo muito emocionante, não tem como escolher um caso. E mais comovente ainda é pensar naquela mulher desbravando esse caminho, encontrando essa linguagem e se servindo de tudo que ela leu na vida dela e pesquisou incansavelmente. Ver que beleza esse gênio se manifestando dessa forma e chegar a um ponto de criar um método de comunicação, de entendimento, de compreensão da mente humana. É muito lindo. Essa experiência toda foi muito especial.

Você escolheu a arte para se expressar e sua vida emocional e profissional foi construída em torno dela, já que você estreou na televisão aos cinco anos. Pode descrever um momento em que a arte tenha sido fundamental para você lidar com as durezas da vida?

Em muitos momentos, o trabalho que eu estava fazendo estava representando alguma coisa que eu estava realmente vivendo. Por algum motivo muito doido, alguma coisa que eu não sei explicar, isso aconteceu algumas vezes na minha vida. Parafraseando a Dra. Nise, quando ela dizia que jamais seria biografada, eu me identifico com o motivo pelo qual ela dizia isso. Ela só contava para as pessoas as coisas que eram superficiais. Os verdadeiros sentimentos dela, as coisas íntimas dela, ela não revelava para ninguém. Ela guardava tudo para ela.

As pessoas começaram a comentar coisas sem lógica, sem nexo nenhum, durante a transmissão do Oscar. Questionei muito de que forma eu estava ali e o que eu tenho a dizer é que fui 100% honesta. (...) Talvez se eu tivesse criado uma personagem e tivesse mentido, provavelmente não teria tido tantas críticas.

Você faz análise, algum tipo de terapia ou teve/tem acompanhamento psiquiátrico? O que faz para manter sua saúde mental?

Eu já tive muita curiosidade para fazer análise e cheguei a fazer quatro sessões. Mas acho que não foi uma boa escolha porque eu estava muito desesperada quando fiz e não busquei alguém que realmente tivesse a ver comigo. Não que tivesse sido ruim. Acho que toda experiência é muito válida. Eu procuro não desperdiçar as experiências que a vida me apresenta, sejam boas, ruins ou até complicadas. Eu acho que as experiências me servem muito. Coisas que eu vivi muito nova, às vezes, me vêm em momentos difíceis. Acho que foi bom para o momento em que eu precisei, mas depois eu não fiz mais da forma tradicional.

Mas eu leio muito e cuido bastante da minha saúde física e mental, no sentido de que eu entendo que é muito importante na vida estressante que eu levo, assim como todos nós, tirar um tempo para mim e nunca perder o que me coloca firme na vida, que é a minha vida pessoal. É o meu momento em casa com o meu marido, com os meus filhos, o que a gente conversa. É manter o pé na realidade. Isso me ajuda a manter a minha saúde mental. Pelo menos assim é que eu tenho vivido. Lendo e conhecendo histórias inspiradoras, procurando meditar.

Recentemente você foi alvo de críticas por conta do Oscar e você abordou a questão com bom-humor e humildade. Inclusive, na sua fanpage tinha um post de “não vamos deixar o baixo-astral tomar conta das nossas vidas”. É uma maneira muito equilibrada e saudável de lidar com os improvisos da vida. Mas e quando te falta força? A Gloria Pires, na intimidade, se permite ficar vulnerável? Como você lida com isso?

Esse caso do Oscar é um negócio que eu não posso nem comentar. Eu já vivi coisas bem piores do que aquilo. Claro que eu fico vulnerável. Em alguns momentos fico triste, em alguns momentos fico descrente, em alguns momentos tenho vontade de fechar a tampa. Mas eu sempre penso que eu não faço o que eu faço, não tenho a vida que eu tenho por acaso. É o meu trabalho, é o que me dá prazer de fazer. Sou feliz fazendo isso. Eu me realizo. Eu consigo crescer como ser humano, espiritualmente, fazendo o meu trabalho. E tenho certeza que, do mesmo jeito que eu me sinto assim fazendo, quem assiste também se sente assim. Então esse pensamento me bota de pé de volta.

Não sou nenhuma supermulher. Penso no sentido disso tudo. As pessoas começaram a comentar coisas sem lógica, sem nexo nenhum, durante a transmissão do Oscar. Questionei muito de que forma eu estava ali e o que eu tenho a dizer é que fui 100% honesta. Fui convidada para participar como atriz e foi isso que eu fiz. Talvez se eu tivesse criado uma personagem e tivesse mentido, provavelmente não teria tido tantas críticas.

Mas eu sei que hoje muita gente não opina diante de uma visão própria. Muita gente opina só porque ela tem que dizer sim ou não. Às vezes, é um assunto que ela não conhece, que só ouviu falar, não procura se inteirar do assunto e responde sim ou não simplesmente. É fácil assim. Então foi isso. Graças a Deus eu sou uma pessoa feliz. Eu tenho bom humor diante da vida porque eu já vi muita coisa. Eu trabalho desde muito nova. Já vi muita gente que aponta o dedo ser apontada depois de formas terríveis. É a experiência da vida que me bota de pé.

Assista a uma cena de Nise - O Coração da Loucura e, na sequência, ao trailer:

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