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20/04/2016 18:48 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Comida de laboratório: A ciência pode nos ajudar a alimentar o mundo

carne

O professor Mark Post mostra o primeiro hambúrguer de carne desenvolvido em laboratório, apresentado em um evento em 5 de agosto de 2013. Post é apenas um entre muitos cientistas que trabalham para inovar os alimentos que comemos.

Em um laboratório em uma universidade na Holanda, o professor Mark Post trabalha sem descanso para aperfeiçoar o primeiro hambúrguer de carne vermelha desenvolvido em laboratório. Se for bem-sucedido, os amantes de carne bovina no mundo todo poderão comer um hambúrguer que, possivelmente, será mais benéfico ao meio ambiente e mais saudável do que o de carne normal.

Se os consumidores — já desconfiados da chamada comida “Frankenstein” — vão aceitar um hambúrguer in vitro é uma grande incógnita. O mesmo vale para os alimentos impressos em 3D. E batatas doces geneticamente modificadas, reforçadas com nutrientes, mesmo considerando que elas podem ajudar a resolver a desnutrição em países em desenvolvimento.

Em todo o mundo, cientistas e outros inovadores em universidades e, sim, até mesmo empresas estão trabalhando para desenvolver tecnologias que poderiam ajudar a resolver alguns dos maiores problemas do nosso sistema alimentar moderno.

Mas nós, como consumidores, temos frequentemente rejeitado essas possíveis soluções, às vezes forçosamente, em nome dos alimentos que julgamos ser mais naturais para nossas dietas.

Deveríamos ser tão apressados em agir desse modo? Apesar de eu não ter perguntado isso especificamente em nossa recente entrevista, acredito que Jayson Lusk, professor de economia agrícola da Universidade Estadual de Oklahoma, diria que não.

Em seu novo livro, Unnaturally Delicious (Artificialmente Delicioso, em tradução livre), Lusk destaca várias inovações nos projetos — incluindo todos os exemplos acima — que poderiam ter um profundo impacto nos desafios que enfrentamos no sistema alimentar. Principalmente, argumenta, para melhor, apesar de que, em muitos exemplos, é muito cedo para saber ao certo.

Abaixo estão os principais trechos de nossa entrevista:

O livro abrange uma série de exemplos onde a ciência e a tecnologia são usadas para encontrar soluções para os problemas em nosso sistema alimentar. Como você os escolheu e qual é o traço em comum entre eles?

Parte disso eram coisas que eu já conhecia. Alguns capítulos abordam o trabalho de pessoas em minha cidade ou universidade. Mas outras coisas eu descobri. Queria apresentar um amplo espectro de inovações. Meu medo é de que a forma como o livro está intitulado [leve] as pessoas a pensar que é um livro sobre biotecnologia.

Dois capítulos abordam isso, mas é apenas parte da história que estou contando. Tentei selecionar um conjunto diversificado de problemas do sistema alimentar sobre os quais as pessoas comentam — desperdício de alimentos, questões de saúde, do meio ambiente, desnutrição, fome — e, para cada um deles, mostrar como a ciência e a tecnologia podem ajudar para abordá-los.

Para mim, o tema principal é que existem muitas pessoas que realmente se preocupam com os alimentos, com o meio ambiente e com a saúde e que estão oferecendo suas habilidades para abordar esses problemas.

Há pessoas atacando esses problemas de formas diferentes, então vamos nos confortar com isso. Sinto que existe muito pessimismo em relação aos alimentos atualmente, então, uma das minhas esperanças era de que o leitor saísse com uma visão um pouco mais otimista sobre o futuro dos alimentos.

Muitas pessoas argumentariam que o pessimismo é justificado. Muitos assuntos levantados neste livro são muito odiados, onde as pessoas estão basicamente de um lado ou de outro — como os GMOs (sigla em inglês para organismos geneticamente modificados). Como ir em direção às soluções enquanto as pessoas estão tão amargamente divididas?

Escrevi um livro antes deste, três ou quatro anos atrás [The Food Police, A Polícia Alimentar], que era muito mais argumentativo e tocava em assuntos divergentes do meu ponto de vista. Ainda mantenho aqueles pontos de vista.

Mas, se você quiser ter uma conversa produtiva com alguém, dizer que essa pessoa está errada não é uma maneira produtiva de lidar com o assunto.

Com este livro, o que tentei fazer primeiro foi concordar com os valores compartilhados. Talvez, neste ponto, independentemente se estamos nos polos extremos se os GMOs são bons ou ruins, podemos concordar que ambos [os lados] concordam que quereremos melhores resultados ambientais no futuro e que nos preocupamos com nossa saúde e de nossos filhos.

Então, se concordamos sobre isso, vamos procurar formas de atingir isso. Acho que é mais produtivo e fornece mais um tipo de plataforma para, então, pelo menos termos uma conversa.

Acho que o debate GMO é um pouco estridente às vezes, e há facções opostas muito barulhentas, mas no meio disso acho que existe um ponto de vista que é mais matizado. Tentei selecionar exemplos para abrir portas para conversas que, talvez, não tenham sido abertas no passado.

Esses são assuntos difíceis e conversas difíceis, e há interesses competindo por todos os lados. Isso nunca desaparecerá. Mas acredito que exista um meio-termo saudável que não recebe muita atenção da mídia.

pulverizador

Um pulverizador em ação em Mead, no estado de Nebraska, EUA. O uso excessivo de fertilizantes e pesticidas por agricultores não atinge apenas seus lucros, mas também o meio ambiente. A agricultura de precisão ajuda a abordar isso.

Você tem uma razão principal para ser otimista em relação às inovações que destaca?

Se eu pudesse agrupá-las, provavelmente seriam as duas que lidam com as práticas agrícolas, o capítulo sobre agricultura de precisão e o que trata sobre geneticistas e cientistas do solo em minha universidade.

O que eu gosto sobre elas [as inovações] é que realmente, acho, vão de encontro a alguns assuntos que preocupam muito as pessoas: o que acontece na fazenda e o que acontece com a saúde do solo.

Acho que a pessoa comum, mesmo a pessoa que lê muito sobre questões alimentares e agrícolas, realmente não tem ideia sobre os tipos de escolhas, tecnologias e desafios que agricultores comerciais estão enfrentando.

Eu tinha conhecimento sobre a pesquisa que essas pessoas estavam fazendo, mas, mesmo eu, que leio muito sobre esses assuntos, acabei me surpreendendo com o trabalho delas.

Desci quatro lances de escada de onde trabalho [para ver os cientistas] e moro a duas quadras do cara que é dono de uma empresa de agricultura de precisão. Basicamente, são meus vizinhos. Fiquei muito impressionado sobre como é complicado abordar esses problemas, sendo mais preciso com a aplicação do fertilizante ou o produtor de trigo que descobre novas variedades de semente.

Não temos dimensão da quantidade de trabalho que essas empresas e ONGs fazem e grande parte acontece nos bastidores. Não pensamos nem um pouco quando pegamos um pedaço de pão e fazemos um sanduíche.

É interessante que você argumente que uma prática como a agricultura de precisão seja classificada como agricultura “sustentável” porque utiliza o fertilizante de forma mais eficiente, reduzindo o risco de escoamento prejudicial. Mas, como não se encaixa na ótica da agricultura sustentável como a conhecemos, não é pensada da mesma maneira.

Há muito romantismo associado a essas pequenas fazendas, mas, mesmo hoje, fazendas economicamente viáveis de qualquer tamanho são um negócio que envolve decisões realmente complicadas. Poderíamos criticar certas práticas agrícolas, claro, e pensar em formas de fazer melhor as coisas.

Mas é realmente útil olhar as coisas que já estamos fazendo e perceber que esses donos de negócios são inteligentes e se preocupam com a terra e com o futuro. Quando surgem tecnologias que fazem sentido econômico em ser adaptadas, eles vão querer aproveitar.

Fiquei muito impressionado com a “solução” que você apresentou no livro: a polêmica em torno da Beef Products Inc. (BPI) e sua chamada “gosma rosa” [ restos de carne limpos com amônia]. O desperdício de alimentos preocupa muita gente agora, mas esta solução provavelmente não agrada muitas dessas mesmas pessoas.

Como podemos avançar, reconhecendo as preocupações dessas pessoas, ao mesmo tempo mantendo a porta aberta à inovação?

Não acho que existam balas mágicas aqui. Se houvesse respostas fáceis a essas questões, alguém teria entendido há muito tempo. Mas realmente acho que tem a ver com mudar a mentalidade cultural. É um trabalho duro, mas quero mudar um pouco a mentalidade das pessoas quando se trata do que a ciência e a tecnologia podem fazer para abordar esses problemas.

A National Geographic este mês [março] mostra legumes “feios” na capa, e eles estão tentando mostrar às pessoas as consequências de suas escolhas, que ir ao mercado e não comprar aquela cenoura de aparência estranha contribuiu para o desperdício de alimentos. É uma forma de educação e a “gosma rosa” também. O que algumas pessoas não percebem é que, talvez, exista algum tipo de agenda nos bastidores.

Sim, esta empresa [BPI] estava tentando vender carne magra texturizada, mas outra pessoa estava tentando ganhar muito dinheiro vendendo documentários. Existe um processo em andamento agora onde a BPI alega que a [rede de TV americana] ABC estava tentando aumentar a audiência e difamar a empresa.

Portanto, há interesses ocultos em todos os lados disso, e quero que as pessoas entendam que nem todo novo alimento e tecnologia agrícola vão beneficiar alguma grande multinacional. Na BPI, tem a ver apenas com ele [Eldon Roth, fundador da empresa] e sua família.

As narrativas que construímos por trás de histórias como esta não coincidem com os fatos e muitos artigos sobre alimentos reforçam a narrativa que é contra qualquer coisa grande e qualquer coisa corporativa. Acho que a tecnologia acaba sendo sugada dentro disso porque alguns a veem como uma forma de promover a ‘Big Food’ [como é chamada a indústria de alimentos nos EUA]. E a tecnologia não vai resolver todos nossos problemas — existem questões mais profundas em jogo —, mas pode ser parte da solução, pelo menos.

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seleciona cortes de carne bovina no processamento de “carne magra texturizada”, em março de 2012, na unidade da Beef Products Inc., em South Sioux City, Nebraska.

Isso me lembra a questão sobre a qual falamos antes — que muitos consumidores querem alimentos mais “naturais”, mas, claro, querem que o alimento seja seguro e também acessível. Mas é preciso assumir compromissos, certo?

Acho que ‘compromisso’ certamente é a palavra correta. Acredito que seja a verdade para uma série de assuntos difíceis da vida. Mas, se você quiser ingredientes mais ‘naturais’, provavelmente terá mais dificuldade em ter um alimento seguro.

Se você quer uma agricultura de menor porte e mais diversificada, provavelmente terá preços de alimentos mais altos. Mas acho que abrir espaço para que vários modelos diferentes prosperem é uma boa coisa.

Uma das coisas positivas que posso dizer sobre o movimento dos alimentos é que ele aumentou a escolha e variedade disponível para consumidores e agricultores. É bom para permitir essa diversidade. Acho que onde temos problemas é no ‘do meu jeito ou não tem jeito’, que você deve cultivar de uma certa maneira.

Temos de permitir algum tipo de diversidade de práticas e para o que funciona em qualquer área. É preciso permitir às pessoas fazer escolhas e respeitar essas escolhas, e tentar entender por que agricultores e outros consumidores podem tomar as decisões que eles tomam.

Você vê com o otimismo que os consumidores possam estar receptivos a algumas dessas tecnologias? Ou isso vai continuar sendo um ponto de atrito?

Sempre haverá alguma tensão porque as pessoas, ao longo da história, têm sido muito céticas em relação à tecnologia em nossos alimentos. Mas, ao mesmo tempo, temos de ser aventureiros o suficiente para tentar coisas novas, para ser saudáveis e criativos. Essa foi uma das maneiras pelas quais nossos antepassados sobreviveram.

Joseph Erbentraut é especialista em inovações promissoras e desafios nas áreas de alimentos e água. Além disso, explora as formas pelas quais os norte-americanos se identificam e se definem. Siga Erbentraut no Twitter em @robojojo. Dicas? Envie um e-mail: joseph.erbentraut@huffingtonpost.com.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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