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O que pode acontecer com Jair Bolsonaro após ele louvar um torturador da ditadura na Câmara

18/04/2016 12:52 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
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Um levantamento do projeto "Brasil: Nunca Mais" diz que 502 pessoas foram torturadas no Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) no período em que o órgão esteve sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Para o Dossiê Ditadura, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Ustra está relacionado com 60 casos de mortes e desaparecimentos em São Paulo naquele período.

A atriz Bete Mendes foi uma das torturadas nos porões da ditadura militar. Em depoimento à Folha de S. Paulo, ela conta:

Fui presa duas vezes. Na primeira, não fui torturada fisicamente. Na segunda, foi total. Fui torturada [em 1970] e denunciei [o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra]. Isso me marcou profundamente. Não desejo isso para ninguém --nem por meus inimigos. A tortura física é a pior perversidade da raça humana; a psicológica, idem.

Não dá para ter raiva [de quem me torturou]. A gente é tão humilhado, seviciado, vilipendiado que o que se quer é sobreviver e bem. Estou muito feliz, sobrevivi e bem. E não quero mais falar desse assunto.

Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), diz o jornal Valor Econômico, a ex-presa política Criméia Alice Schmidt de Almeida, que participou da Guerrilha do Araguaia, conta ter sido torturada enquanto estava grávida de sete meses.

"Pela manhã, o próprio comandante major Carlos Alberto Brilhante Ustra foi retirar-me da cela e ali mesmo começou a torturar-me [...]. Espancamentos, principalmente no rosto e na cabeça, choques elétricos nos pés e nas mãos, murros na cabeça quando eu descia as escadas encapuzada, que provocavam dores horríveis na coluna e nos calcanhares, palmatória de madeira nos pés e nas mãos".

Foi Ustra, o torturador sanguinário, quem o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-SP) homenageou em seu voto pelo impeachment de DIlma Rousseff:

"Perderam em 1964, perderam agora em 2016", disse Bolsonaro, em referência ao golpe militar. "Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, o meu voto é sim", defendeu Bolsonaro.

Apesar de tudo que cometeu, Ustra acabou nunca pagando por seus crimes. Só em agosto de 2015, o Ministério Público Federal (MPF) ofereceu denúncia contra Ustra pela morte do militante comunista Carlos Nicolau Danielli, sequestrado e torturado nas dependências do Doi-Codi, em dezembro de 1972. Dois meses depois, aos 83 anos, Ustra morreria em decorrência de uma severa pneumonia.

Em dezembro de 2014, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) discursou sobre a importância da Comissão Nacional da Verdade, e, em seguida, Bolsonaro subiu ao plenário e retrucou: "Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que não estuprava você porque você não merece. Fique aí para ouvir”.

O que aconteceu com Bolsonaro? Nada. Foi condenado apenas a pagar uma multa. Como Ustra, Bolsonaro aposta na impunidade.

Fernando de Barros e Silva lembra hoje na Piauí que Jair Bolsonaro é, segundo pesquisa mais recente do Datafolha, o candidato preferido à presidência da República da parcela mais rica do país. O topo da pirâmide brasileira - os 5% com renda mensal superior a 10 salários mínimos - quer Bolsonaro presidente.

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