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Conheça o restaurante onde os clientes se sentam no escuro e são servidos por garçons cegos

15/04/2016 17:31 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução/Facebook

"Às vezes um pouco de sofrimento nos guia na direção certa".

Depois de andar às escuras e quase derrubar um copo de vinho, finalmente encontrei o pedaço de pão que estava procurando. Só que eu esperava usá-lo para mergulhar no molho no meu próprio prato e não no do vizinho.

Isso só poderia acontecer no Dans le Noir? - o restaurante onde os clientes se sentam no escuro e são servidos por garçons cegos.

O restaurante, cuja filial em Londres recentemente celebrou seus 10 anos de aniversário, foi aberto pelo empresário Edouard de Broglie com a ajuda da Fundação Paul Guinot para Cegos.

A fundação começou a realizar eventos no escuro nos anos 90 para aumentar a conscientização do público de como é ser cego. De Broglie, que previamente trabalhava no setor tecnológico, abordou a fundação para abrir um restaurante usando como base esse mesmo conceito.

“Eu consegui ter muito lucro e queria investir meu dinheiro em uma ideia que fosse socialmente útil”, ele me disse antes da minha visita.

“A fundação perdia dinheiro cada vez que realizava um evento e eu pensava que isso era loucura. Então ofereci investir e criar uma empresa lucrativa”.

dans le noir

Ao chegar no Dans le Noir? (do francês “às escuras”) nós fomos recebidos por um funcionário em um bar iluminado e nos pediram para escolher entre quatro cores que representam quatro opções diferentes de cardápio: branco (exótico), vermelho (carnes), azul (peixe) ou verde (vegetariano).

Eu escolhi vermelho e o meu namorado branco, antes que fôssemos apresentados ao nosso garçom cego daquela noite, o Roberto Rebbechi.

Rebbechi nos acompanhou pela porta e depois pela cortina até o restaurante principal. Dizer que o lugar é totalmente às escuras não dá a total dimensão da experiência. Se você subir um pouco sua mão, acima de seu rosto, você não verá nada. Se você fechar os olhos e depois abrir novamente, não faz absolutamente nenhuma diferença.

Parece que não é tão incomum para quem janta lá entrar em pânico ao entrar na sala escura pela primeira vez. À medida que andamos lentamente e cada vez mais longe da entrada eu senti meu coração batendo cada vez mais forte, quase que pulando fora do meu peito.

Rebbechi gentilmente movimentou nossos ombros nos ajudando com nossas cadeiras em uma mesa comunitária e nos apresentou nossos vizinhos. Estranhamente, ouvir vozes amigáveis desconhecidos me fez ficar mais à vontade.

“No início, eu tive a sensação que as mesas comunitárias seriam úteis porque no escuro as pessoas precisam reconfigurar o seu ambiente, então eles podem falar com seus vizinhos”, explicou De Broglie.

“Como eu não os vejo, eles não têm ideias preconcebidas das pessoas. É um espaço bem aberto”.

edouard de broglie

Uma das coisas mais legais sobre o Dans le Noir? é que você nunca sabe quem vai sentar ao seu lado e ao menos que você saia de lá ao mesmo tempo, você nunca irá saber.

De Broglie me disse que uma vez um homem sentou sozinho e disse que fazia “filmes estranhos”.

“Eu não tinha entendido – depois descobri que era o Tim Burton!”, riu.

Eu não vou tentar estragar contando a experiência sobre a comida já que a metade da diversão durante a refeição é tentar adivinhar o que você está comendo, mas o que eu posso dizer é que na minha entrada tinha a carne mais deliciosa que eu já comi na vida. Eu estava convencida que o bife tinha sido de alguma forma marinado, mas eu estava completamente enganada.

O “bife” na verdade era uma carne exótica que eu nunca teria pedido, e ainda bem que tive a chance de provar.

De acordo com De Broglie, é bem comum ver as pessoas que lá jantaram surpresas com o que comeram quando veem o que estava no cardápio mais tarde.

“As pessoas provam a comida como se nunca tivessem comido antes. Elas acham que conhecem a comida, mas é muito mais difícil entender o gosto e os cheiros quando você não tem luz”, disse.

“As pessoas questionam a forma como comem e a forma como eles sentem os cheiros - e tudo”.

Quando chegamos no terceiro prato, meu namorado e eu decidimos abandonar todos os talheres e usar as nossas mãos.

Conversamos sobre a necessidade de ficar furando o ar com o garfo já que ninguém poderia nos ver.

Nós também refletimos se deveríamos ser mais aventureiros com a comida que comprarmos daqui para a frente e falamos de como deve ser a vida para alguém que perdeu a visão.

Esse questionamento que você sente depois de ter jantado no Dans le Noir? é o motivo pelo qual o restaurante tem um ponto de interrogação no nome.

Ao terminar a refeição eu estava toda feliz ali sentada com castanha por toda a minha boca, me sentindo toda melecada, mas estranhamente liberada.

Isso ocorre talvez conforme Rebbechi notou: “No escuro, nós todos somos bonitos e jovens”.

diners being led into the restaurant

As pessoas sendo conduzidas para a mesa

Ao mesmo tempo que dão aos clientes, como nós ali, vários pensamentos provocantes essa noite, o restaurante muda a vida de pessoas como a de nosso garçom.

Rebbechi começou a trabalhar na indústria de catering na Itália quando ele tinha apenas 16 anos. Ele se mudou para Londres nos anos 80 e depois de ganhar muitos anos de experiência trabalhando em restaurantes de outras pessoas, conseguiu realizar o seu sonho e abriu seu próprio negócio.

“Logo depois de abrir o meu negócio, comecei a ter problemas nos olhos e gradualmente comecei a ficar cego”, disse ele.

“Porque eu era autônomo consegui lidar com isso por 10 anos, mas uma hora decidi que estava sendo demais para mim. Eu abandonei meu negócio e decidi ver o que o futuro tinha guardado para mim”.

Rebbechi tentou uma série de cursos inclusive para desenvolver habilidades no computador e de fisioterapia para tentar e começar uma nova carreira sozinho. Foi um dos coordenadores do curso que falou para ele sobre o Dans le Noir?, que em breve abriria em Londres.

“Eu me candidatei e disse ‘Eu vou voltar ao meu lar’”, disse.

“Eu nunca pensei que seria capaz de trabalhar em um bar ou em um restaurante novamente sendo cego, mas este projeto me deu uma oportunidade. É maravilhoso”.

Embora De Broglie saiba bem que o restaurante é um negócio lucrativo e não caridade, é óbvio que Dans le Noir? está na verdade fazendo muita coisa boa no mundo.

Além de oferecer emprego a quem é cego, o restaurante fez parcerias com várias outras instituições de caridade em todos esses anos.

Para celebrar os seus 10 anos de aniversário, De Broglie trabalhou junto com o Centrepoint para convidar um grupo de sem tetos de 16-25 anos para aproveitar o restaurante, uma noite.

A empresa também administra o Dans Le Noir? A Light For Africa, um programa que ajuda a levar eletricidade e computadores nas escolas na África.

“A ideia era que crianças nas escolas sem computadores eram quase que parcialmente cegas, então gostamos da ideia de que os cegos pudessem levar luz às pessoas que enxergam”, disse De Broglie.

A medida que éramos guiados em direção à luz no final de nossa refeição, eu me peguei agradecendo por ter a minha visão, pela primeira vez na vida.

Eu saí do restaurante lembrando das palavras sábias de Rebbechi: Às vezes um pouco de sofrimento nos guia na direção certa”.

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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