ENTRETENIMENTO
14/04/2016 19:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Como 'Seinfeld' quase matou um homem com uma bala de hortelã

SEINFELD

“Pensei que as pessoas iriam me crucificar por ter matado este programa que elas amam com estas histórias bizarras que não tinham nenhuma base real”, disse Andrew Robin, que escreveu o roteiro para o agora icônico episódio de Seinfeld, The Junior Mint.

O episódio foi o primeiro de Robin para uma série de comédia em sua carreira, e ele estava convencido de que seria uma sentença de morte para ele e para o programa de Jerry Seinfeld.

A premissa básica deste episódio, na verdade, não é tão inusitada. Basicamente, um ex-namorado da personagem Elaine (Julia Louis-Dreyfus) está hospitalizado para a remoção do baço, e ela o visita com seus amigos.

Robin introduz o primeiro absurdo quando Jerry (Jerry Seinfeld) e seu amigo Kramer (Michael Richards) decidem participar da cirurgia e deixam cair uma bala da marca “Junior Mints” dentro corpo do paciente. De alguma forma, ninguém mais nota, nem mesmo os médicos. Jerry e Kramer pensam que mataram o “ex” de Elaine com uma Junior Mint. Então, em uma reviravolta do destino, o episódio termina com o médico do rapaz admitindo que o paciente parecia que poderia morrer, mas “algo além da ciência, algo talvez... vindo de cima”, salvou sua vida.

Apesar de cada programa da série durar apenas meia hora, de alguma forma aquele não foi o final do agora notório ridículo deste episódio. Outros enredos secundários incluem o amigo George (Jason Alexander) gastando milhares de dólares na estranha obra de arte de triângulos do ex-namorado de Elaine, imaginando que o preço subiria após sua morte. Outra história envolve Jerry, que se esquece do nome de sua nova namorada. Depois de descobrir que o nome rima com uma parte da anatomia feminina, ele e George passam o episódio tentando adivinhá-lo. (No fim, a namorada se chama Dolores). Em meio a tudo isso, Kramer tenta transformar seu apartamento em um chalé de esqui.

Ainda assim, o episódio é definitivamente um clássico, e Robin, até o momento, se mantém ileso. No início de abril, o podcast New Yorker Radio Hour transmitiu uma entrevista com o cocriador de Seinfeld, Larry David, durante a qual foi veiculado um clipe de The Junior Mint, como um destaque do programa.

O The Huffington Post conversou tanto com o roteirista original, Robin, bem como com Patti Ganguzza, presidente da AIM Productions, Inc., que foi contratada para todas as nove temporadas da série para gerenciar e fornecer autorizações de uso da marca de produtos incluídos nos roteiros. Um superfã da série Seinfeld, o usuário do Twitter @Seinfeld2000 (que escreveu um brilhante conto imaginando a série acontecendo nos tempos atuais), proporcionou mais contexto para o incidente da bala de menta achocolatada.

Abaixo estão fatos sobre o indiscutivelmente mais estranho, porém mais amado episódio de TV da cultura pop.

A bala que Jerry e Kramer deixaram cair no corpo do ex-namorado não era para ser da marca Junior Mints.

vai ser mint junior

No roteiro, Robin queria que Kramer encarasse a cirurgia como se estivesse indo ver um filme no cinema. Além de Kramer insistir em uma política contra “spoilers” antes da operação, o personagem decide que deve levar algo clássico que se come no cinema para a cirurgia. Acabaram utilizando as balas Junior Mints, mas a cena original escrita por Robin não era assim.

“Pensei que ele poderia levar pipoca para a sala de operação para desfrutar da experiência ainda mais”, disse Robin. O plano acabou não passando do esboço inicial. O escritor aproveitou a ideia do irmão, que sugeriu Junior Mints. Por quê? “Simplesmente porque Junior Mints são mais engraçadas.”

Robin explicou também que as “Junior Mints são aquele tipo de coisa que você só vê em salas de cinema”, acrescentando que o “nome estranho” ajudava na piada.

Seinfeld consultou outras empresas de doces além da Junior Mints para receber autorização, só para garantir.

mems

Outras fontes de curiosidades sobre o mundo da televisão alegam que Seinfeld apenas usou a Junior Mints para este episódio porque as marcas M&Ms e Life Savers não deram autorização. Apesar da popularidade da hipótese, não é exatamente verdade.

“Sempre foi Junior Mints”, disse Ganguzza, da AIM Productions, Inc. No entanto, naquele momento, ela precisava buscar aprovação para o uso da marca, o feriado de Ação de Graças estava chegando e não estava claro se a marca Junior Mints iria aprovar o pedido dentro do prazo do programa. “Eu tinha pouco tempo para autorizar o roteiro de Andrew [Robin] sobre as Junior Mints através dos canais corporativos”, disse Ganguzza.

Como precaução, Ganguzza contatou as marcas M&Ms e Life Savers como segunda opção. Como sempre ocorreu no programa, “nenhuma marca pagou pela exposição, porque cada ‘colocação’ de marca tinha um propósito na história”, explicou.

A Life Savers não quis participar porque considerou como um “uso impróprio do produto:)”, disse Ganguzza por e-mail. “A M&Ms estava pronta e disposta, por isso assinou a autorização e o produto foi enviado à produção.” Mas Ganguzza acabou se encontrando com representantes da empresa dona da Junior Mints na época, a farmacêutica Warner-Lambert – que por sua vez foi comprada pela Pfizer —, justo uma semana antes do pedido. Então, apesar do prazo apertado, no final, Ganguzza conseguiu garantir o plano original de utilizar as balas Junior Mints.

“Devido à cooperação, a M&Ms foi incluída no ‘stand-up’ de Jerry no fim do episódio”, Ganguzza acrescentou. Na apresentação, Jerry discorre sobre como apenas as crianças de 7 anos podem diferenciar os sabores entre as várias cores dos M&Ms.

Apenas para ilustrar, em 2002, o jornal The New York Times citou Ganguzza em um artigo, que teria dito: “Apresentei [uma oportunidade para colocação de produto] para três empresas de doces diferentes e basicamente disse: ‘A primeira que entrar nisso participa de Seinfeld’”.

Logo depois, o jornal publicou uma resposta de Robin, que dizia: “Como escritor do episódio ‘Junior Mint’ de ‘Seinfeld’, posso dizer com autoridade que Patti Ganguzza não ‘colocou’ as Junior Mints no roteiro”, antes de explicar a história sobre a sugestão do irmão.

Robin disse ao HuffPost que “Patti Ganguzza trabalhou realmente duro para o programa ‘Seinfeld’ e foi uma parte importante do sucesso”, acrescentando que ela “fez um bom trabalho acalmando as águas e assegurando as empresas que por algum motivo pudessem estar relutantes de que seria uma boa ideia usar [as marcas]”.

Os representantes da Junior Mints inicialmente tinham reservas sobre o doce da marca cair dentro de um corpo aberto durante uma cirurgia.

cirurgia

Além do desafio do tempo, Ganguzza também tinha a tarefa de tentar convencer a empresa fabricante das Junior Mints que a marca não seria prejudicada pelo fato de uma bala cair dentro de um corpo aberto em uma mesa de operação.

“Por mais que as empresas adorem a ‘colocação’, os diretores de marca são muito protetores e precisam considerar o impacto que isso pode ter no consumidor”, explicou Ganguzza. “Com Seinfeld, ficava sempre relembrando os tomadores de decisões: ‘É uma comédia’!”.

No caso particular da Junior Mints, a Warner-Lambert estava no processo de vender a marca e, como Ganguzza explica, a empresa estava preocupada que a cena do doce caindo dentro do corpo do paciente pudesse ter repercussões negativas.

Ressalvas da Junior Mints levaram a uma importante mudança em uma fala.

junior mints

Depois que Robin entregou o roteiro final, os escritores do programa acrescentaram alguns ajustes. Entre as mudanças estava um diálogo entre Kramer e Jerry, no qual Kramer diz: “Quem vai recusar uma Junior Mint? É chocolate, é hortelã-pimenta, é deliciosa”. Jerry responde: “É verdade” e Kramer acrescenta: “É refrescante”.

Robin não conhecia a origem do diálogo e afirmou: “Adoro essas falas, realmente me fazem rir, mas não são minhas”.

Em um momento posterior do episódio, um médico reitera a afirmação de Kramer e diz em referência ao doce: “Podem ser muito refrescantes”.

Segundo Ganguzza, aquela fala final está de acordo com a colocação do produto aprovada pela Junior Mints. A empresa havia aprovado o roteiro de Robin “na íntegra”, mas tinha um ajuste a acrescentar, Ganguzza explicou.

Ganguzza também disse que não teve nenhuma influência sobre a cena inicial, na qual Kramer elogia o doce — provavelmente veio de outro escritor do episódio ou até mesmo de Robin. Mas o roteiro original não incluía a cena na qual o médico afirmava que as Junior Mints são refrescantes. Quando Kramer oferece uma bala da marca no final do episódio, ele teria dito: “Não obrigado. Essa coisa vai te matar”.

“Informei a produção que a marca não aprovaria, a menos que eles mudassem aquela fala”, disse Ganguzza. Então o médico recomendou o doce.

O roteirista pensava que as imprecisões médicas eram tão ridículas que seu episódio iria arruinar a série.

roteiro bizarro

“O roteiro é um pouco bizarro”, diz Robin sobre seu trabalho. “Você tem uma sala de cirurgia não esterilizada. Uma Junior Mint voando em direção ao abdômen de alguém”, continuou, rindo. “Você tem essa arte estranha de triângulo.”

A premissa de Kramer e Jerry assistindo à operação preocupava Robin em particular.

“De repente me dei conta de que não estávamos na década de 1890”, disse. “Vai haver algum tipo de esterilização. Vai ser um ambiente muito controlado. E como alguém vai conseguir entrar com Junior Mints?”. Robin concluiu que a premissa era “totalmente impossível”, mas o resto da equipe de “Seinfeld” parecia não concordar.

“É um tipo estranho de habilidade que Larry [David] e Jerry [Seinfeld] possuem, determinando quanto de implausibilidade pode entrar em uma comédia”, explica Robin.

“Eles são tão engraçados que você consegue encaixar qualquer tipo de implausibilidade.”

De qualquer forma, Robin ainda “pensava que aquilo seria um grande fracasso” e não tinha “nenhuma confiança no episódio” até ir ao ar.

O episódio é tão venerado que em 2014 os fãs de Seinfeld lançaram um videogame que permite jogar Junior Mints dentro do paciente.

Robin não é o único que acredita que a cena da Junior Mint é insana, mesmo para Seinfeld. O popular usuário do Twitter @Seinfeld2000 — conta de um fã que é vagamente centrada na imaginação de como seria a vida se “Seinfeld” ainda estivesse no ar, mas que postula situações ainda mais ridículas do que a cena de Robin — criou um videogame dedicado somente à icônica bizarrice do momento.

“É o absurdo da situação combinado com a obscuridade do tipo de doce, e então o foco e a repetição da Junior Mint como um lembrete durante o episódio”, disse @Seinfeld2000 sobre o que o inspirou no episódio de Robin. “Muito Seinfeld.”

Depois de fazer uma parceria com o designer de videogames Pippin Barr, a dupla decidiu tornar “uma história já ridícula ainda mais insana”, disse @Seinfeld2000. A premissa desse videogame online é propositadamente jogar Junior Mints no corpo do paciente ao mesmo tempo evitando vários obstáculos que tentam atrapalhar, como a cantora Miley Cyrus montada em uma bola de ferro ou “wrecking ball”, uma alusão à canção da cantora (isso foi em 2014).

O usuário do Twitter também convenceu outro fã de Seinfeld, ávido usuário da rede social, Ezra Koenig — que lidera a banda Vampire Weekend —, a cantarolar o tema da série durante o videogame. O jogo foi discutido no perfil do New York Times, mas @Seinfeld2000 ainda não está satisfeito.

“Se alguém da [rede de TV] NBC e/ou da equipe de Jerry Seinfeld estiver lendo isso, seria ótimo se vocês pudessem voltar a transmitir ‘Seinfeld’ com novos episódios”, @Seinfeld2000 disse ao HuffPost por e-mail.

“Adoraria ver como Jerry lida com Kramer emprestando seu iPad ou como George se sairia no mundo da paquera on-line. Por favor, isso é algo que realmente preciso e não tenho certeza de que ficarei realmente satisfeito na vida até conseguir isso.”

Robin pode ter pensado que o episódio The Junior Mint mataria Seinfeld e sua própria carreira, mas em vez disso os fãs continuam obcecados tanto pela série quanto por este episódio.

Com esta premissa bizarra, o capítulo nos ensinou que um doce pode salvar uma vida. Talvez o jogo de @Seinfeld2000 já prove que a série continua viva, pelo menos em seu formato “júnior”.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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