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'É difícil sorrir para o desconhecido quando somos invisíveis', diz vendedora ajudada em show do Coldplay

13/04/2016 14:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Reprodução/Facebook

“Quando meus olhos iriam se encher de água, várias eram as pessoas que estendiam as mãos com doações solidárias para me ajudar.” Esse é o instante em que Bianca Leticia Vale, que trabalha temporariamente como vendedora ambulante, passou do desespero à emoção.

Por causa de uma cordinha frágil, ela perdeu toda a mercadoria que iria vender no último domingo (10) em um show do Coldplay, em um Maracanã com 60 mil pessoas, no Rio de Janeiro (RJ).

Os produtos eram batatas-fritas, compradas por R$ 12,75 e que seriam revendidas por R$ 15 – lucro de R$ 2,25 por unidade.

O prejuízo rapidamente foi corrigido porque algumas pessoas que estavam ao redor de Vale se comoveram e rapidamente arrecadaram dinheiro para ela. A quantia coletada chegou a passar de R$ 225, segundo Luis Fernando Eiras, que testemunhou o ato de solidariedade e o registrou em fotos.

Na última terça-feira (12), Vale postou um texto emocionado no Facebook, descrevendo o que aquele momento significou para ela.

“Estou muito surpresa, imensamente agradecida e feliz devido às pessoas terem me ajudado. Estive no lugar certo na hora certa, sorte talvez cativada por meu carisma, mas não são todos os trabalhadores que conseguem ter sorriso aberto. É difícil sorrir para o desconhecido quando somos invisíveis e exercermos trabalhos informais que não reconhecem nossa força de trabalho e nos pagam por batatas, e não por quem devidamente somos e poderíamos ser.”

A invisibilidade a que Bianca se refere é uma realidade de milhões de brasileiros, escondidos nas estatísticas que só revelam os empregos formais, ou seja, com carteira assinada.

De dados oficiais, sabemos que 9,1 milhões de pessoas aptas para trabalhar estão desempregadas, segundo dados do IBGE. Estes números não dizem respeito à massa que trabalha sem registro e garantias trabalhistas. Não incluem pessoas como Bianca, ou os pipoqueiros, ou os vendedores de cerveja que cercam o entretenimento e tantas outras áreas nas quais pode-se extrair algum tipo de renda.

Do total de 20 cones de batata-frita que Vale iria vender, ela só poderia devolver para a empresa cinco unidades. Se não vendesse as demais, ficaria no prejuízo.

“Estádio cheio e preciso correr para vender antes que as batatas esfriem, pois o mínimo que poderiam trocar seriam cinco. Na atividade, devida minha malemolência infiltro-me na pista entre o público abarrotado contra as grades. Chego brincando dizendo que sou ninja, que ninguém mais conseguiria chegar ao mesmo local que eu, que a batata era light, e cara por ser de ouro... Usei do meu jeito extrovertido para interagir com as pessoas, tirando sorrisos e meu ganha-pão. (sic)”

Infelizmente, um colega de Bianca não teve a mesma sorte. “No mesmo dia outro amigo de trabalho, Matielo, também perdeu batatas porque pessoas colocaram os pés na frente por ele ter passado na frente por alguns instantes do tão esperado show. É, infelizmente ele deu azar... (sic)”

“Mas trabalhar freelance é assim, é um lance que pode render um espetáculo de humanidade ou a espetacularização da miséria, onde quem exerce o trabalho informal precisa ficar dependente da compaixão e empatia alheia. Não temos segurança a partir dos nossos esforços, que olha, não são poucos não! Rs”

Bianca, aproveitou o agradecimento para publicar um texto sobre a necessidade de se enxergar os trabalhadores informais, de se retirá-los dessa informalização e de falar de outras invisibilidades que ela vive, por ser mulher, trabalhadora explorada e negra.

Ela conta que cursa graduação à noite, de produção e gestão de eventos, além de um curso técnico em iluminação, “que só consigo cursar graças a programas de inserção social como Prouni e o Passe Livre Universitário”.

“No Maracanã, freelance. Trabalho informal, exercendo por necessidade, sem direitos trabalhistas, sem segurança do que receberia o referente é por vendas, além da insegurança caso eu sofresse algum acidente corporal.”

“Espero que essa oportunidade de falar, que foi uma sorte, seja útil e possamos reconhecer que são os terceirizados, os trabalhadores informais que realizam grandes doações, mas por obrigação. Trabalham diariamente de graça por não ganharem devidamente correspondente à produção e suas vendas, por receberem por ‘’batatas’’ e não por quem poderiam ser se pudessem ter mais oportunidades e porque não, não recebem a partir de seus esforços, porque eles, que também são eu, não são devidamente reconhecidos.”

“Espero ser reconhecida com minhas composições autorais, como cantora, pintora, podendo atuar como atriz, que pretende ser produtora e gestora cultural, além de ministrar aulas nas áreas artísticas que promovam a inserção e protagonismo social aos desfavorecidos socioeconomicamente como eu, para que possam ser RECONHECIDOS e sair do invisível, sair da terceirização, da informalidade, da ausência de direitos, que não estão no palco e nem na plateia, mas nos bastidores só com a vassoura limpando o antes, o durante e o pós espetáculo.”

Veja abaixo a íntegra do post de Bianca.

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