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12/04/2016 17:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Por que o bem-estar humano é crucial para combater a mudança climática

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Nas discussões sobre como enfrentar a mudança climática e criar um futuro sustentável, tendemos a deixar de lado uma peça muito importante do quebra-cabeça: a criação de sociedades sadias e justas.

Para alguns psicólogos, a chave para a construção desse futuro pode depender de sermos capazes de entender como o nosso bem-estar está vinculado ao do mundo natural.

Em um artigo publicado recentemente na Science, cientistas sociais dos EUA e do Reino Unido convidaram a ciência ambiental e as ciências sociais a se unirem para combater a destruição ecológica.

“A sustentabilidade, em última análise, requer equilíbrio. Requer um equilíbrio entre os desejos e as necessidades diferentes das pessoas e as necessidades do meio ambiente, para que tanto humanos quanto natureza possam permanecer”, disse ao The Huffington Post em e-mail a professora Christina Hicks, do Lancaster Environment Center, na Inglaterra. Hicks é a autora principal do artigo.

“As pessoas vão necessariamente lutar por bem-estar maior, mas no que consiste esse bem-estar, isso é algo que varia e vai variar.”

O artigo identifica sete indicadores sociais cruciais que devem ser levados em conta na definição das políticas e práticas de sustentabilidade:

  1. Bem-estar;
  2. Cultura;
  3. Valores;
  4. Igualdade;
  5. Justiça;
  6. Poder;
  7. Autodeterminação.

Esses conceitos estão em grande medida ausentes das metas de sustentabilidade de toda a sociedade, dizem que os autores do estudo.

A sustentabilidade, em última análise, requer o equilíbrio entre os desejos e as necessidades diferentes das pessoas e as necessidades do meio ambiente, para que tanto humanos quanto natureza possam permanecer.”

Dra. Christina Hicks, cientista social ambiental

Se não voltarmos nossa atenção a esses conceitos, correremos o risco de adotar ações que podem proteger o planeta, mas ser incompatíveis com o bem-estar humano – e vice-versa.

Quaisquer medidas em grande escala adotadas para proteger o ambiente e que não promovam a igualdade, por exemplo, dificilmente terão êxito no longo prazo, explicam os autores do estudo.

“A sustentabilidade duradoura vai depender de soluções justas”, disse Hicks em comunicado.

Na criação dessas soluções, os autores do artigo argumentam que é preciso reunir os conhecimentos de muitas disciplinas, incluindo a psicologia, sociologia, economia e outras ciências sociais.

“Estamos realmente começando a reconhecer o papel importante que a ciência social tem a desempenhar em relação à mudança climática e destruição ecológica”, falou Hicks.

“Existe um consenso científico sólido em relação ao que precisa ser feito, mas estamos tendo dificuldade em definir como devemos chegar a isso. A ciência social pode nos ajudar a entender como e por que chegamos à situação em que nos encontramos, como as pessoas provavelmente vão reagir às mudanças no futuro próximo e de longo prazo, e por que ainda há inação diante de tantas evidências.”

Eis um exemplo de como a ciência social pode subsidiar soluções sustentáveis: um projeto de antropologia, de dois anos de duração, estudou e rastreou o avanço de práticas de coleta de alimentos na natureza, como parte do Plano de Proteção Florestal Urbana de Seattle.

“A Comissão Florestal consultou a pesquisa e determinou que áreas florestadas urbanas possuem valores diversos para as pessoas”, disse ao HuffPost a co-autora do artigo, Melissa Poe, que atua como ponto de contato de cientistas sociais com o Centro de Ciências Pesqueiras do Noroeste e com a entidade Washington Grant.

Ela ressaltou que o estudo resultou em modificações que aumentaram a eficácia do programa.

Em matéria de desigualdade, indicadores sociais foram empregados para identificar “zonas de crise de igualdade climática”, onde fatores de risco como pobreza, baixo nível de ensino e pouco acesso foram utilizados para isolar comunidades que são desproporcionalmente vulneráveis a riscos climáticos.

O novo artigo faz parte de um movimento crescente que procura incluir a contribuição da ciência social na luta contra a mudança climática. Criar um futuro sustentável é um desafio com dimensões emocionais, morais e psicológicas, e hoje cientistas comportamentais estão tomando iniciativas para melhorar a compreensão do relacionamento complexo entre humanos e natureza.

“Estamos atuando num terreno muito novo”, falou ao HuffPost, anteriormente, a pesquisadora psicossocial Renee Lertzman, de São Francisco, que promove ações contra a mudança climática em ambientes organizacionais. “Essa é a parte instigante. É uma área muito inovadora e emergente. Mas precisamos chegar ao ponto de realmente conseguirmos nos abrir para perspectivas novas e diferentes.”

Hicks concordou que o momento atual é de assumir riscos, construir respeito e unir disciplinas para buscar novas soluções para a crise ecológica global.

“Precisamos ser ousados, precisamos sair de nossas zonas de conforto para desenvolver métodos de avaliação de conceitos complexos que possam ser transmitidos e ouvidos em várias disciplinas e diversos escalões”, ela disse.

“Precisamos levar em conta formas diferentes de conhecimento, tentar entender coisas familiares de maneiras distintas e permitir que isso forme a base de um diálogo extenso sobre como se entende a sustentabilidade.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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