LGBT

Liniker fala sobre racismo e empoderamento: 'Quero que o palco seja voz das questões pretas'

12/04/2016 18:19 -03 | Atualizado 06/04/2017 16:13 -03

liniker

Em outubro do ano passado, eu estava rolando a timeline do Facebook durante o expediente em busca de pautas, quando vi amigos de bom faro musical compartilhando um vídeo de um rapaz negro, timbre levemente rouco, confortável em uma saia longa, turbante bem amarrado, colares e brincos, o rosto sob maquiagem bem delineada.

Acompanhado de sua banda, ele cantava um soul romântico que de alguma forma me remetia ao mestre Tim Maia. Nada ali era caricato, muito pelo contrário: exalava delicadeza.

Ao término do vídeo, a sensação que tive era de que aquela figura ainda ia ser muito comentada nas redes sociais. O que se confirmou nas dias seguintes. O cantor em questão era Liniker que, com seu projeto Liniker e os Caramelos lançava naquela semana o primeiro EP, Cru.

O vídeo compartilhado pelos meus amigos no Facebook era de Zero, uma das três canções autorais do trabalho. Gravado no apartamento do guitarrista da banda, o registro chegou a atingir 1 milhão de visualizações em apenas cinco dias.

De lá para cá se passaram apenas seis meses. Mas nesse tempo, o cantor nascido em Araraquara, no interior de São Paulo, já circulou por diferentes pontos do país com sua música, abriu show de Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci, no Circo Voador, e já se apresentou para 30 mil pessoas no festival Rec Beat, em Recife, ao lado de Johnny Hooker.

Nesses poucos meses, Liniker também concedeu entrevistas aos principais veículos de comunicação do país, colocando em pauta discussões importantes, se não urgentes, como empoderamento negro e LGBT, além da desconstrução de gênero sexual.

Seu talento, aliado ao discurso que incentiva as pessoas a ser o que elas quiserem ser, causa empatia e tem feito sua base de fãs crescer rapidamente - assim como as visualizações de seus vídeos.

liniker e os caramelos

Minutos antes de um de seus recentes shows na capital paulista, o HuffPost Brasil conversou com Liniker sobre essas bandeiras que leva consigo - dentro e fora do palco. Aos 21 anos, o filho de dona Ângela - mãe solteira e ex-professora de samba rock - diz que a questão do orgulho negro sempre esteve presente em sua vida.

"Desde pequeno, eu já sabia que era uma criança preta. E isso foi uma coisa ótima que me aconteceu. Minha mãe falava: 'Você é negro, tem cabelo duro, sim. E ele é bonito, não é feio.'"

A voz de empoderamento da mãe serviu de incentivo e inspiração para a construção de sua própria identidade. Há dois anos, quando se mudou para a capital paulista para estudar teatro e se dedicar à música, essa identidade passou a ter contornos mais femininos. "Bicha, preta e pobre" são os três termos com que Liniker costuma se definir - todos eles estigmatizados no Brasil. Questionado sobre como enfrenta o preconceito no dia a dia, ele combina bom humor e reflexão na resposta:

"Passo três batons a mais, coloco brincos que chegam ao ombro, visto uma saia (risos). Se empoderar é um exercício diário. É todo dia resistindo. É todo dia fazendo as pessoas entenderem que aquele é você. Que aquilo é o que você realmente é."

Liniker faz questão de usar essa sua vivência de empoderamento diário para inspirar outras pessoas a enfrentar o racismo, a homofobia e transfobia. E pretende usar cada vez mais o palco para isso.

"[Quero] falar das questões pretas, empoderar as mulheres negras, as bichas pretas e as bichas trans que são negras. Porque pra gente é sempre duas vezes maior a luta."

Seis meses de carreira pode ser considerado pouco tempo para se medir o alcance e possibilidade de permanência de um artista na cena nacional. No entanto, nesse período Liniker já colhe frutos de sua arte engajada. É com orgulho que ele descreve a mensagem de um fã - uma das entre várias do gênero que recebe em seu Instagram:

"Eu estava em depressão e você me tirou de um poço de desentendimento. Estou falando de quem eu sou. Comecei a usar saia. Me aceito enquanto bicha preta, sim. Muito obrigado por você estar representando todas nós."

Assista à entrevista completa:

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