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Lula critica criminalização do PT, compara Lava Jato com o BBB e lança um desafio: 'Duvido que tenha algum empresário que um dia discutiu 5 centavos comigo'

11/04/2016 12:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar a criminalização em marcha do Partido dos Trabalhadores (PT), comparou a Operação Lava Jato com o Big Brother Brasil (BBB) em razão da sua suposta ‘espetacularização’, e se disse vítima de um movimento de forças que não aceitam os benefícios dados por governos petistas ao Brasil.

As declarações de Lula foram dadas ao jornalista americano Glenn Greenwald, este responsável pela publicação, em 2013, do conteúdo dos vazamentos feitos pelo ex-consultor da Agência Americana de Segurança (NSA, em inglês), Edward Snowden, que mostraram um amplo esquema de espionagem de autoridades mundiais, incluindo a própria presidente Dilma Rousseff (PT).

Na entrevista, publicada nesta segunda-feira (11) no site The Intercept, o líder petista exaltou que a Lava Jato só é possível “graças aos investimentos feito pelo PT na Polícia Federal” e o fortalecimento das instituições durante as gestões do partido no Planalto. Todavia, Lula vê fatores negativos, aos quais se refere como “espetáculo de pirotecnia” na mídia.

“É uma pergunta que eu faço todo santo dia a mim mesmo: será que para você fazer o processo de investigação que você está fazendo é preciso fazer disso um Big Brother, é preciso fazer disso um espetáculo de pirotecnia todo santo dia? Sem levar em conta que você pode estar condenando por uma manchete de jornal ou por uma reportagem na televisão alguém que depois venha a ser inocente? É possível fazer essa mesma investigação, prender as mesmas pessoas sem fazer a pirotecnia? Eu acho que é”, disse.

Lula ainda disse acreditar que a Lava Jato está influenciando “no custo do PIB, no custo do desemprego, na quantidade de dinheiro que deixou de ser investido neste País”, assim como no “ódio ao PT”, um partido que “comete erros” e que “tem que pagar como qualquer outro partido político (...) afinal de contas, a lei é para todos, é assim que a gente consolida a democracia no Brasil e em qualquer parte do mundo”.

“O que eu acho esquisito é o processo de vazamento seletivo das notícias normalmente contra o PT. Quando sai uma denúncia de um outro partido político, não passa de uma letra pequena nos jornais, cinco segundos na televisão. Quando é uma coisa contra o PT, é 20 minutos na televisão e é primeira página de todos os jornais, numa demonstração clara e visível de que há a tentativa, há dois anos, da criminalização contra o PT”.

Em outro ponto da entrevista, Lula exaltou os 12 anos de governo petista que “mudaram o País”, o que causou “o ódio estimulado de pessoas que não sabem repartir os espaços públicos com aqueles do andar de baixo”, de acordo com o ex-presidente. Ele ainda lançou um desafio, relembrando a polêmica em torno do tríplex em um edifício no Guarujá (SP), que teria sido reformado pela empreiteira OAS como ‘troca de favores’ com o petista.

“Duvido que tenha um empresário, amigo ou inimigo, que diga que um dia discutiu 10 centavos comigo. Veja, eu estou vendo as coisas acontecerem, estou vendo as mentiras que são contadas, eu estou vendo as invenções que estão fazendo contra o Lula, sabe, inventaram um apartamento para mim, alguém vai ter que me dar aquele apartamento (...). Duvido que neste País tenha algum empresário que diga que um dia discutiu 5 centavos comigo”, mencionou.

Impeachment

Greenwald questionou Lula sobre a tese da base governista de que está em curso no Brasil um ‘golpe’ contra Dilma, em razão da ausência de elementos que justifiquem, de acordo com o ex-presidente, o impedimento da presidente da República em seguir no cargo. Para o petista, existe uma tentativa de setores chegarem ao poder no País, desrespeitando as eleições de 2014.

“Eu perdi três eleições, três. Não encurtei o caminho, esperei 12 anos para chegar à presidência da República… portanto, qualquer pessoa que quiser chegar à presidência da República, ao invés de querer derrubar o presidente, é melhor concorrer a uma eleição como eu concorri três. Perdi e não fiquei zangado. Então, eu acho que por isso que o impeachment é ilegal, porque não tem crime de responsabilidade”, destacou Lula.

O ex-presidente também minimizou os pedidos de impeachment feitos pelo PT quando era oposição. “Do Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a Câmara nem aceitou, a Câmara nem aceitou o pedido do impeachment. Portanto, morreu ali mesmo, né? Talvez porque não tivesse crime de responsabilidade”, pontuou, antes de partido para o ataques contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

“Esse pedido de impeachment também poderia ter sido recusado. Por que foi aberto o processo e foi para a comissão? Porque o presidente da Câmara ficou zangado, porque o PT não votou com ele na Comissão de Ética e ele resolveu se vingar do PT, tentando criar o impeachment da presidenta Dilma, o que eu acho um abuso muito grande neste momento político (...). O Eduardo Cunha não tem respeitabilidade, nem congressual, nem na sociedade, para fazer isso, mas acontece, às vezes até com uma certa proteção de determinados setores da mídia nacional, o que eu acho muito grave”.

Futuro e democracia

Para Lula, o eventual impeachment de Dilma pode causar sérios problemas ao regime democrático brasileiro, que já dura 31 anos desde o fim da ditadura militar (1985). “O que nós estamos fazendo neste momento é tentar brincar com a democracia. E com a democracia a gente não brinca, porque toda vez que a gente brinca com a democracia, toda vez que a gente nega a política, o que vem é pior”.

O petista reforçou que o tratamento dado à corrupção na política brasileira é “hilariante”, uma vez que estaria expondo o fato de que, supostamente, as empresas envolvidas na Lava Jato teriam dois cofres para doações de dinheiro aos políticos: um de dinheiro honesto, e outro de dinheiro corrupto. “O cofre de dinheiro honesto é para o PSDB, para o PMDB e para outros partidos. O cofre de dinheiro podre é para o PT. É no mínimo insanidade mental acreditar nisso”.

Entretanto, ele acredita que o PT, ao errar, deve “pagar como qualquer outro partido”. “O PT não é imune (...). Eu não acredito que o ódio estimulado contra o PT vai prevalecer a vida inteira. Hoje, nós estamos vivendo um momento em que o ódio é estimulado 24 horas por dia contra o PT. O partido que mais fez política social neste País”, emendou.

O ex-presidente apontou ainda que o futuro demanda “uma política econômica que gere expectativa e esperança para a sociedade brasileira”, após anos em que os governos do PT concederam exonerações da ordem de R$ 500 bilhões ao empresariado, a fim de continuar fomentando a economia, nas palavras de Lula. Romper com isso, com uma crise internacional, foi o que colocou o Brasil na atual condição, segundo o petista.

Sobrou tempo ainda para Lula afirmar que é a favor da descriminalização das drogas (“uma coisa é prender um traficante, outra coisa é você prender um usuário”) e a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo (“acho que as pessoas têm que viver como quiserem”), mas se disse ainda contrário ao aborto “como cidadão”. “Como presidente da República, trato o aborto como uma questão de saúde pública”, completou.

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