ENTRETENIMENTO

Charlie Kaufman sobre falta de diversidade no cinema: 'É um problema sério de nossa sociedade'

09/04/2016 16:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

O cinema tal como você o conhecia já morreu. Nada continua exatamente igual ao longo do tempo. Mas, quando falamos em estúdios de cinema dando todos os passos necessários para fazer filmes, podemos nos perguntar, com razão, se a rotina levou à decadência da arte.

Os estúdios de cinema são empresas que precisam encontrar uma fórmula que funciona e depois repetir essa fórmula sempre. Os roteiristas responsáveis pelos filmes também podem optar por esse caminho. O que acontece quando eles não o fazem?

Os textos do amado roteirista experimental Charlie Kaufman são criados intencionalmente para ser totalmente inacessíveis a qualquer pessoa que não seja ele próprio. Ou, pelo menos, sua letra manuscrita o é.

Quando Kaufman começou a ir a cafés e escrever em cadernos, ele rabiscava suas anotações em letra ilegível, propositalmente.

charlie kaufman

Não queria que ninguém conseguisse ler por cima de seu ombro. Não necessariamente porque quisesse guardar segredo de seu trabalho, mas porque se sentia constrangido. Hoje, apesar de ele não mais sentir tanta timidez em relação ao seu trabalho, ele ainda garatuja. Isso virou parte de sua rotina, apesar de a intenção original ter se perdido.

Foi sua própria e inofensiva decadência de uma arte. “É simplesmente assim que eu escrevo hoje”, ele disse ao HuffPost, conversando num quarto do hotel Crosby Street, em Nova York. “Sou desleixado.”

Aquelas anotações rabiscadas se converteram em muitos roteiros premiados, incluindo os de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, pelo qual ele venceu o Oscar de melhor roteiro original em 2005. Seus roteiros de Quero Ser John Malkovich e Adaptação. foram indicados para o mesmo prêmio, em 2000 e 2003, respectivamente.

Mas Kaufman estava no Crosby Street Hotel para falar de seu projeto mais recente a ser indicado a um prêmio da Academia, Anomalisa, de 2015, que ele escreveu e co-dirigiu. Era o último dia do ciclo de divulgação para a imprensa em que ele tinha embarcado com o co-diretor Duke Johnson.

Para explicar com a maior simplicidade possível, Anomalisa é sobre um homem casado, de meia-idade, que passa uma noite em um hotel de Cincinnati, onde tenta encontrar o amor. Mas, como é o caso de muitos dos filmes de Kaufman, há muito mais que isso.

No caso de Anomalisa, todos os personagens da história, excetuando o protagonista e uma outra, têm exatamente a voz e mais ou menos a mesma aparência. Outra coisa: o filme é uma animação em “stop motion” e recebeu a classificação R (proibido para menores de 17 anos, exceto se acompanhados de pais ou responsáveis) por conter cenas muito detalhadas de sexo entre bonecos.

As entrevistas dadas sobre Anomalisa nos últimos seis meses trataram em grande medida de como foi difícil fazer o filme. “Anomalisa literalmente quase destruiu o estúdio várias vezes”, disse Duke Johnson em podcast com a New Yorker. Ele disse que o processo de criação do filme envolveu “uma luta diária, às vezes chorando no estacionamento”, e brincou: “Era impossível tirar Kaufman do estacionamento”.

Com orçamento de US$ 8 milhões, o filme ainda está longe de ter recuperado seu custo, tendo arrecadado apenas US$ 3 milhões nas bilheterias até agora (Anomalisa acaba de estrear no Digital HD). Uma indicação ao Oscar e um índice de aprovação de 92% no site Rotten Tomatoes nem sempre se traduzem em dinheiro.

Johnson lamenta o fato de que a Internet parece ter acabado com as chances de seu filme ser rentável. Ele se recorda de ter descoberto em primeira mão que o BitTorrent e outras formas de descarregar filmes ilegalmentefazer o download ilegal de filme “prejudicam especialmente as os filmes que são pequenas produções”.

A realidade econômica atual do cinema não parece apropriada para um filme que insiste em romper com as fórmulas.

“Mas agora estou escrevendo um romance”, Kaufman disse ao HuffPost. “É um jeito de escapar desta situação. Ou, pelo menos teoricamente, uma saída deste negócio [o cinema].”

Kaufman ainda está escrevendo um roteiro separado de “uma grande sátira dos Estados Unidos”, mas não sabe se vai receber o dinheiro para produzir o filme. De qualquer maneira, por um custo de provavelmente algo em torno de US$ 10 e em um formato que não será já tão fácil de roubar, você finalmente vai poder ler alguma coisa que Kaufman escreveu.

anomalisa

Quando puderam dar suas declarações finais para encerrar a turnê de divulgação de Anomalisa, Kaufman e Johnson decidiram pôr as boca no trombone e articular suas queixas. Johnson expressou sua frustração com pessoas “que gostam de se dizer que são cinéfilas”, mas não vão ao cinema para apoiar o cinema independente.

“Se não o fizerem, o cinema independente vai, se não morrer...”

Johnson não concluiu o raciocínio. Então recuou um pouco e admitiu que, mesmo que esteja ficando mais difícil fazer filmes à maneira tradicional, de cima para baixo, o gênero provavelmente não vai morrer, graças à facilidade tecnológica crescente de se filmar.

O diretor se disse preocupado com a ideia de que o destino do cinema independente será ditado pelo que sites – possivelmente Funny or Die e BuzzFeed – tenham condições financeiras de criar.

“E então as pessoas só vão poder assistir a Star Wars e filmes da Marvel nos cinemas – algo que é ótimo e que eu curto fazer, mas eu gostaria de pode fazer tudo [ver todos os filmes no cinema]”, disse Johnson.

Kaufman concordou com ele. “Não existem mais filmes de US$ 20 milhões. Virtualmente nenhum. Os estúdios não os fazem, e o pessoal independente não tem tanto dinheiro. Então eles não existem mais, mas antigamente existiam nos estúdios.”

Kaufman fez seu nome com “filmes de 20 milhões de dólares”. Brilho Eterno foi feito com a quantia, Adaptação., com US$ 19 mi. Comparados com os anos passados, os sucessos feitos com orçamento reduzido parecem estar em alta. (Mas vale observar que o mais recente Oscar de melhor filme foi dado a Spotlight: Segredos Revelados, de 2015, que também custou a mesma quantia.)

Destacando o que Johnson tinha falado sobre super-heróis, Kaufman disse: “Eu queria que o conteúdo dos filmes festejasse a diversidade. Acho que a ausência disso é um problema sério de nossa sociedade. Acho que nós, como povo, fomos treinados a correr atrás do dinheiro grande e ir onde as grandes empresas querem que vamos. E isso é desanimador.”

Talvez Kaufman e Johnson estejam vindo de alguns anos especialmente desanimadores no cinema. Mas será que realmente queremos um cinema que não tenha espaço para um roteirista que, segundo o Sindicato de Roteiristas da América, escreveu três dos 101 maiores roteiros de todos os tempos?

Um roteirista cujo trabalho é indicado ao Oscar quase toda vez? Apesar de Sinédoque, Nova York (2008) não ter tido a mesma acolhida, Roger Ebert, possivelmente o mais famoso crítico de cinema de todos os tempos, ainda o considerou o melhor filme da década.

Quando perguntado se alguma vez já pensou em como poderia ser um filme de US$ 100 mi de Charlie Kaufman, o roteirista respondeu inicialmente: “Bem, o romance...”

Em suas próprias palavras, o romance de Kaufman que vai sair “é intencionalmente algo que acho que será impossível converter em filme. É mais ou menos o oposto do que geralmente se procura fazer com um romance hoje em dia.

É tipo impossível de transpor ao cinema. E foi isso o que eu me propus a fazer.”

E qual é o tema do romance?

“É sobre um filme”, disse Kaufman “Um filme impossível.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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