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Conselho de Ética: Delator da Lava Jato diz ter comprovantes de pagamentos de US$ 5,1 milhões em propinas a Cunha

07/04/2016 13:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
Montagem/Agência Brasil

O empresário Leonardo Meirelles afirmou na manhã desta quinta-feira (7), em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, que possui documentos bancários que comprovariam o repasse de US$ 5,1 milhões (cerca de R$ 20 milhões) para o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Delator da Operação Lava Jato e ex-sócio do doleiro Alberto Youssef, Meirelles contou que, em 2012, o doleiro lhe pediu para usar uma empresa sua, chamada RFY, com sede na China, para receber três transferências de uma firma do empresário Júlio Camargo – este também delator na operação, cujo montante totalizava US$ 5,1 milhões.

Em um almoço informal, uma semana após a operação bancária, Meirelles soube qual seria o destino daqueles recursos, provenientes de um contrato fictício com Camargo, e que o ex-sócio de Youssef transformou em reais.

“Uma semana após a operação, almoçando com o Alberto, nesse mesmo dia eu vi o Júlio [Camargo] saindo do escritório do Alberto, fomos almoçar e ele me disse: 'Você nem imagina a pressão que eu estava sofrendo'. E disse que era do investigado [no Conselho de Ética], que era de Eduardo Cunha”, afirmou Meirelles aos parlamentares.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR), o dinheiro correspondia à propina que Cunha recebeu de Camargo após a Petrobras contratar dois navios-sondas da empresa coreana Samsung e da japonesa Mitsui, em 2006 e 2007. É nessa ação que o presidente da Câmara se tornou réu no Supremo Tribunal Federal (STF).

Toda a documentação que comprova as suas alegações já está nas mãos do juiz federal Sérgio Moro e da força-tarefa da Lava Jato, segundo Meirelles, que chegou a pedir autorização para buscar os extratos bancários em Hong Kong.

Em sua defesa, Cunha sempre negou ter ligação com os delatores ou ter recebido propina por contratos da Petrobras. Ele afirma que existe um interesse dos colaboradores da Lava Jato em se beneficiar com suas delações premiadas. O presidente da Câmara chegou a tentar vetar esse e os demais depoimentos, mas o pedido foi negado pela ministra Carmen Lúcia.

Meirelles é uma das testemunhas de acusação arroladas pelo relator Marcos Rogério (DEM-RO), no processo que pede a cassação de Cunha por quebra de decoro parlamentar, após o presidente da Câmara não ter revelado que possuía contas no exterior, em depoimento prestado em março do ano passado à CPI da Petrobras. Outros nomes ligados à Lava Jato serão ouvidos pela comissão, que tem pouco menos de 40 dias para formular um relatório final.

Confusões

Deputados da 'tropa de choque' de Cunha bateram boca com os demais parlamentares por conta de um pedido ‘curioso’: que Meirelles assinasse um termo de compromisso de dizer apenas a verdade no Conselho de Ética. Como convidado e não convocado, o empresário não era obrigado a atender ao pedido, mas acabou cedendo.

O ex-sócio de Youssef ainda confirmou uma informação que havia sido prestada pelo presidente do conselho, deputado José Carlos Araújo (PR-BA), de que ele custeou, com recursos próprios, sua ida a Brasília para prestar esclarecimentos aos parlamentares. De acordo com Araújo, um pedido feito pelo conselho à Mesa Diretora da Câmara – presidida por Cunha –, a fim de cobrir os custos da viagem, nunca foi respondido.

“Sou presidente pela terceira vez e nunca pedi à logística para trazer uma testemunha e não fui atendido”, disse o presidente do conselho, que descreveu o fato como “inédito”.

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