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Esta ativista da educação quer acabar com a segregação racial em escolas dos EUA

06/04/2016 16:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

dorothy

Counts-Scoggins foi a primeira aluna negra da Harding High School, uma escola até então só para brancos, em 1957

Quando Dorothy Counts-Scoggins chegou para seu primeiro dia de aula do ensino médio, quase 60 anos atrás, ela nem sequer havia entrado na escola quando foi atacada com cusparadas e lixo. “Volte para África”, gritavam.

Ela tinha 15 anos naquele dia de 1957 e era a primeira negra a estudar na Harding High, uma escola até então só para brancos em Charlotte, no Estado da Carolina do Sul.

Sua única amiga parou de olhar para ela antes do fim da primeira semana. Um grupo de meninos a cercou na cafeteria e cuspiu em sua comida. Outros a atacaram com um objeto cortante quando ela estava guardando livros no seu armário. A polícia disse aos pais de Counts-Scoggins que não poderia garantir a segurança da aluna.

“Não me sentia protegida na escola. Havia adultos lá, mas eles não faziam nada”, disse ela. “Os professores me ignoravam mesmo que eu levantasse a mão, como se eu nem estivesse na sala.”

Ela saiu da Harding High quatro dias depois, mas nunca parou de lutar contra a segregação racial.

Hoje, aos 73 anos, ela lidera um debate em relação à integração socioeconômica das escolas de Charlotte-Mecklenburg.

Aposentada depois de uma longa carreira como professora da pré-escola, ela continua defendendo a diversidade nas escolas. O trabalho dela ganha importância especial agora pois o departamento de educação do condado está considerando um novo sistema de distribuição dos alunos nas escolas.

Em fevereiro, o departamento tentou reduzir o número de distritos escolares com alta concentração de estudantes pobres. Quando o plano final for votado, nos próximos meses, Counts-Scoggins espera convencer os membros da comunidade a apoiar uma proposta que promova a diversidade socioeconômica.

“[A Harding High] mudou minha vida, mas mudou minha vida no sentido de dizer: ‘Isso foi o que aconteceu comigo’, e quero garantir que isso não aconteça com outras crianças”, disse ela.

preconceito

Counts-Scoggins é retirada da escola Harding High School, em 1957, acompanhada por uma multidão de estudantes

“Pouca coisa mudou”

De várias maneiras, o condado de Mecklenburg e seu distrito escolar são um espelho da atitude do país em relação à segregação nas escolas. Quase 15 anos depois da semana terrível vivida por Counts-Scoggins na Harding High, o departamento de educação de Charlotte-Mecklenburg viu-se no centro de um julgamento da Suprema Corte americana que levou ao fim da segregação nas escolas do país.

Mas, como em tantos outros lugares dos Estados Unidos, o distrito voltou a segregar nos anos 1990 e 2000.

De acordo com as regras em vigor hoje, as crianças estudam nas escolas mais próximas de suas casas. Isso significa que os bairros mais ricos têm escolas com alta concentração de estudantes ricos, e os bairros mais pobres, de alunos de baixa renda.

O debate sobre um novo sistema de divisão dos alunos para promover a integração socioeconômica acontece em paralelo a um debate nacional sobre o tema.

O mais recente orçamento proposto pelo presidente Barack Obama prevê recursos destinados especificamente para apoiar escolas que estejam tentando aumentar essa integração.

Uma pesquisa da Century Foundation indica que o número de escolas com políticas de combate à segregação econômica dobrou nos últimos dez anos.

O plano é controverso em Charlotte. Quando Counts-Scoggins começou a participar das reuniões do departamento de educação, ela voltou a viver seus dias de pioneira dos direitos civis. Ela descreve reuniões tensas, nas quais os pais de classe alta expressavam preocupação em relação à integração socioeconômica, usando linguagem velada.

Eles temem que seus filhos sejam levados de ônibus escolar para escolas do outro lado da cidade, mesmo que o departamento não tenha mencionado o uso dos ônibus.

Em uma reunião em fevereiro, alguns pais sugeriram que as pessoas dos bairros menos privilegiados talvez “não deem tanto valor à educação como eu” ou “não tenham a mesma paixão pelo aprendizado”. Alguns sugeriram que as escolas de áreas de baixa renda nunca terão bom desempenho porque os pais se envolvem menos com a educação dos filhos.

“Alguns do comentários que ouvi nas reuniões eram racistas. Alguns sutis, outros não”, disse Counts-Scoggins. “Essas crianças estão crescendo neste país, e isso é o que elas ouvem. Isso me entristece.”

dorothy com alunos

Counts-Scoggins com alunos de Charlotte, em foto de vários anos atrás

“Tenho de ser otimista sempre”

As pesquisas mostram que escolas socioeconômica e racialmente equilibradas – nas quais os alunos ricos ainda constituem a maioria – ajudam a reduzir a distância no desempenho escolar de alunos ricos e pobres, sem prejuízo na performance dos alunos mais privilegiados.

Escolas socioeconômica e racialmente diversas também oferecem benefícios intangíveis, incluindo um maior senso de tolerância em relação a pessoas que têm históricos diferentes, mostram as pesquisas.

“Vivemos num mundo diverso. Trabalhamos num mundo diverso”, disse Counts-Scoggins. “Este país é extremamente global. Para que as crianças sejam parte disso quando crescerem, precisam estar expostas a uma sociedade diversa, para que possam ser funcionais no mundo.”

Pais como Jeremy Stephenson e Sean Strain acham que qualquer novo plano de redistribuição dos alunos deve enfatizar a localização geográfica, não a diversidade socioeconômica. Eles não acreditam que suas opiniões tenham natureza racista ou classista.

Eles citam os resultados de uma nova pesquisa que indica que os pais valorizam boas escolas no bairro muito mais que escolas diversas, embora a pesquisa não tenha validade estatística. Em vez de destinar recursos a misturar alunos pobres e ricos, eles acreditam que o distrito deva investir mais nas escolas das áreas de baixa renda, mesmo que elas continuem segregadas.

“Não nego que os estudos encontrem [relação] entre maior diversidade e performance dos alunos, mas não acho que a falta de diversidade seja a razão número 1, 2, 3, 4 ou 5 pelas quais as crianças mais pobres não tenham bom desempenho”, afirmou Stephenson, uma advogada que disputou uma vaga no conselho do departamento de educação.

“Acredito que, no fim das contas, todos querem uma escola excelente perto de casa e, se isso não estiver acontecendo, temos de descobrir por quê.”

Tentar mudar essa situação é um novo foco na minha vida

Strain disse ter conversado com vários especialistas que afirmam que é melhor para a criança “ter uma escola no bairro que atenda suas necessidades educacionais”. “Não há nada errado com a integração, mas será que ela vai trazer os melhores resultados para todos os alunos de todas as escolas?”, acrescentou ele.

Counts-Scoggins se preocupa com o impacto da segregação econômica e racial na atual geração de crianças. Mesmo na época em que ela estudava em uma escola segregada racialmente, havia diversidade econômica. Hoje, em muitas escolas de Charlotte, os estudantes são segregados tanto por raça quanto por classe social.

Um estudo de 2015 da Universidade Harvard indica que estudantes pobres do condado de Mecklenburg tem chances ínfimas de ter sucesso econômico.

“Tentar mudar essa situação é um novo foco na minha vida”, diz Counts-Scoggins em relação à dupla segregação.

Ela encontrou aliados em organizações comunitárias como OneMeck, uma aliança de grupos e indivíduos da região que lutam pela integração. Counts-Scoggins diz estar “otimista” em relação a uma mudança. Ela se lembra do que seu pai lhe disse quando ela foi para a escola naquele primeiro dia de aula na Harding High.

“Meu pai me estava me avisando: ‘Lembre de tudo o que te ensinaram. Mantenha a cabeça erguida. Você não é menos que ninguém’”, disse ela. “Senti aquilo tudo quando fui [para a escola], sabia que, sim, aquilo estava certo. Estava fazendo a coisa certa.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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