MULHERES

Lembrete: violência sexual contra mulheres é mais importante do que esporte

05/04/2016 16:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

O desempenho de uma equipe não deve ser mais importante do que o trauma de uma sobrevivente.

No mês passado, o capitão do time masculino de basquetebol de Yale, Jack Montague, foi expulso da universidade depois de acusações de abuso sexual supostamente ocorrido em 2014.

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A julgar pela cobertura da mídia sobre o incidente, a tragédia real não é que um rapaz teria estuprado uma jovem ou mesmo que a Universidade Yale possa ter conduzido mal o caso — é que a ausência de Montague poderia atrapalhar o torneio realizado com os times universitários nos Estados Unidos, conhecido como “March Madness” (Loucura de Março), onde o país inteiro faz apostas sobre quem vencerá os jogos.

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Embora os fatos sobre o caso de Montague ainda não estejam claros, muitos veículos da mídia aproveitaram a notícia de sua expulsão como uma oportunidade para focar, primeiramente, em como as acusações afetam o time de basquetebol de Yale negativamente.

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Os colegas da equipe de Montague tiveram de se desculpar depois de causarem indignação no campus de Yale, por apoiarem seu ex-capitão usando camisetas com seu apelido e número quando jogaram contra o time de Harvard, em 26 de fevereiro.

“As ações do time pareciam ser uma negação da real ameaça da violência sexual”, escreveu o Centro de Mulheres de Yale em um comunicado divulgado depois do jogo. “Condenamos a insensibilidade do protesto, mesmo evitando julgar os membros da equipe.”

Deveria ser senso comum que, num caso de suposto abuso sexual, a possibilidade de violência sexual em um campus universitário deveria ser mais importante do que o bom desempenho em um determinado esporte. Infelizmente, o diálogo em torno do caso de Montague parece quase seguir uma regra de etiqueta. A reação mais comum quando um membro de uma instituição bem conhecida é acusado de violência sexual é questionar como isso pode afetar a organização ou o time, e não perguntar se existe um problema maior ou se pode haver mais vítimas com medo de fazer uma denúncia.

Em janeiro, um longo artigo intitulado “Who Is Daniel Holtzclaw?” (Quem é Daniel Holtzclaw?) foi publicado no site de esportes SB Nation.

O perfil , um desastre de 12 mil palavras, foi escrito por um repórter esportivo que havia acompanhado a carreira do jogador de futebol americano, o linebacker (do time de defesa) que havia se tornado policial e depois estuprador em série.

Depois de enfrentar uma reação negativa instantânea, a peça foi removida no mesmo dia, e substituída por uma nota do editor reconhecendo que o artigo foi “um completo fracasso”.

Semanas depois, a revista Vanit Fair publicou um artigo igualmente longo sobre Owen Labrie, atleta da escola preparatória St. Paul’s, no estado de New Hampshire (EUA), e condenado por estupro, focado no que a sentença significava para o futuro de Labrie e para a reputação da escola de elite. Foi um ex-aluno da escola onde o abuso sexual ocorreu que escreveu o sensível artigo, onde o subtítulo dizia “duas vidas foram irreparavelmente prejudicadas”, com o autor destacando, nostálgico, a escola preparatória de “aroma lilás [como um perfume Elizabeth] Arden” que “transformou a vida de um garoto de uma pequena cidade do Centro-Oeste”. Segundo o autor:

“O que talvez seja mais deprimente sobre o depoimento no julgamento... é que o rito no qual Labrie participou não era a província de estudantes descontentes ou marginalizados, conhecidos por serem infratores. Em vez disso, envolvia alguns líderes conhecidos da escola: o capitão do time de futebol; editores do jornal; um representante de classe da série anterior à de Labrie.

Na verdade, o mais deprimente sobre o julgamento é que um suposto abuso sexual ocorreu no campus de um colégio.

Estes três exemplos não são únicos. Localidades como Steubenville, Ohio e Missoula, no estado de Montana, tornaram-se famosas pelos mesmos motivos, entre inúmeros outros.

Em 2015, especialistas se sentiam mais confortáveis ao se referir ao suposto abuso sexual cometido pelo então jogador de futebol do estado da Flórida, o quaterback (da equipe ofensiva) Jameis Winston, como “assuntos fora do campo” e imaginavam como estes afetariam as perspectivas para a NFL, a liga de futebol americano.

O jogador de basquete universitário, Brandon Austin, foi acusado de abuso sexual em duas diferentes escolas, mas o canal de TV CBS Sports simplesmente se referiu a eles como “equívocos passados” que o tornaram “humilde” ao se mudar para uma terceira escola. Em esportes profissionais e universitários, a (suposta ou verdadeira) violência sexual contra mulheres tem sido minimizada, se não completamente ignorada, para manter a imagem e reputação de atletas e times.

Ao exaltar o histórico atlético daqueles acusados de praticar violência sexual, e ao mostrá-los como atletas torturados que se tornaram amargos, menosprezamos a questão básica da violência sexual, e, consequentemente, minimizamos as experiências das sobreviventes. Quando o foco é sobre carreiras esportivas arruinadas, em vez do horror da violência sexual, as questões desconfortáveis que precisamos nos perguntar para evitar casos semelhantes são ignoradas: por que os atletas parecem sentir que têm mais direito aos corpos das mulheres? E por que deixamos que eles escapem com esse tipo de comportamento?

Quando Daniel Holtzclaw violentou sexualmente 13 mulheres na região de Oklahoma City, a tragédia não tinha a ver com sua fracassada carreira como policial ou como estrela do futebol americano. A tragédia era a violenta manipulação e abuso sexual de 13 mulheres. Ponto final.

Ao divulgar ou debater a violência sexual, a ênfase não deve ser no futuro que o suposto agressor terá ou não. A ênfase deve ser nas sobreviventes e nos sistemas que estão em vigor para proteger e buscar justiça para todas as partes. Ao focar em qualquer outra coisa, as sobreviventes são obrigadas a se sentar no banco de trás ao contar suas próprias histórias e experiências.

O torneio “March Madness” normalmente é um dos assuntos mais comentados do ano nos EUA. Em fevereiro, 115,5 milhões de pessoas estavam conectadas para ver a 50a final do Super Bowl.

Cerca de US$ 11 bilhões serão gastos nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em meados do ano. Não há escassez de atenção positiva dada aos atletas masculinos.

Por isso, quando discutimos violência sexual, vamos focar nos crimes, em vez de como esses crimes podem impactar o desempenho de uma equipe.

Porque, quando colocamos a dor das sobreviventes em segundo plano para valorizar nossas apostas do March Madness, ninguém sai ganhando.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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