MULHERES
03/04/2016 11:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Professora da UFRGS assedia aluna que levou filha para a sala de aula

Reprodução

Nina Bitencourt mora em Porto Alegre e é estudante de Letras, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Também é mãe da pequena Anya, de cinco anos. Com todas as dificuldades de criar uma filha e conciliar os estudos, Nina persiste na caminhada e continua na universidade. Mas, infelizmente, há sempre algumas pedras pelo caminho. De onde menos se espera: de uma professora.

Na última quinta-feira, Nina precisou levar a filha para a sala de aula, mas a professora não reagiu bem à presença de Anya. A mãe compartilhou um relato sobre o episódio no Facebook. O texto já tem mais de 11 mil compartilhamentos.

"Entrei na sala, dei oi e fui seguindo pra me sentar. A professora me olhou com um ar de incredulidade e, sem sequer me responder o cumprimento, iniciou um sistemático questionário sobre a minha filha: " ELA VAI ENTRAR NA AULA?"; "ELA PODE ASSISTIR AULA?"; "ELA NÃO VAI SE CHATEAR E INCOMODAR A AULA?"; "TU NÃO TEM CRECHE PRA DEIXAR ELA?"; "NENHUM PARENTE PODE FICAR COM ELA PRA TI?"; "TEM CERTEZA". Respondi pacientemente às perguntas e expliquei que ela estar ali comigo era o modo de garantir minha permanência na universidade.

Mesmo explicando a necessidade da filha estar presente na sala de aula, a professora reagiu de forma negativa, com olhares raivosos para a criança. Depois de 15 minutos de aula, a professora indagou o motivo de Nina não deixar a filha com outra pessoa:

"Até que, num certo momento, após uns 15 minutos de aula e sem nada ter sido feito da parte da minha filha pra provocar tal reação, a professora explode repetindo a pergunta: "MAS TU NÃO TEM MESMO COM QUEM DEIXAR ELA?".

A mãe não aceitou o assédio da professora e se retirou da sala. Muitos colegas tentaram intervir na discussão, tentando apoiar Nina. Em seu relato, ela conta que foi até a Comissão de Graduação para apresentar queixa.

"Fui até à Comissão de Graduação e, enquanto eu era orientada quanto às medidas cabíveis, a professora apareceu e continuou falando, justificando, se exaltando e repetindo NA FRENTE DA MINHA FILHA o quanto ela estava atrapalhando porque estava BRINCANDO. Não respondi, me dirigi à funcionária da Comissão agradecendo e dizendo que ia abrir o processo por assédio moral e que não tinha mais nada pra falar com a professora.

Nina conta que a criança ficou sem entender nada e se sentiu culpada por ver a mãe saindo da aula. "O que eu fiz pra deixar minha mãe triste assim? Por que minha mãe foi expulsa da aula por minha culpa? Essas duas perguntas encheram a cabeça da Anya", conta.

O que diz a lei

Pela lei nº 6.202 (criada em 1975) universitárias têm direito ao chamado regime domiciliar: a partir do oitavo mês de gestação, durante três meses, podem compensar a ausência nas aulas com trabalhos feitos em casa. O que determina o início e o fim desse regime é o atestado médico apresentado pela aluna.

Na visão de especialistas, documentos como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição resguardam os direitos de mães e filhos, se sobrepondo a regras ocasionais criadas pelas instituições de ensino.

Nina é uma entre milhares de mães que lutam pelo direito de continuar estudando e lutando pelo futuro de seus filhos. No seu relato no Facebook, ela criticou o fato de a mulher mãe ser excluída de qualquer oportunidade na sociedade:

"A maternidade e o quanto ela causa a exclusão da mulher no mercado de trabalho, na escola e na universidade é uma pauta que grita por visibilidade dentro dos movimentos sociais. Eu vou perder a cadeira, não tem condições de seguir assistindo aula com uma pessoa dessas. O que alguém assim pode me ensinar? Entrei grávida na universidade e estou 4 semestres atrasada do meu tempo de ter me formado, porque sou mãe e preciso trabalhar nos horários que a UFRGS disponibiliza as aulas. O questionamento que quero deixar com esse breve relato é: Quantas mães não assistiram aula por causa dos seus filhos hoje? Quantas mães não conseguiram emprego por causa dos seus filhos hoje? E quantas mais serão excluídas por serem mães amanhã?"

A reportagem do HuffPost Brasil tentou contato com a UFRGS, mas até a publicação desta matéria não recebeu nenhum posicionamento sobre o caso.

Leia o relato completo da mãe:

"O que eu fiz pra deixar minha mãe triste assim? Por que minha mãe foi expulsa da aula por minha culpa?"Essas duas...

Publicado por Nina Biten Court em Quinta, 31 de março de 2016

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