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Peemedebista ironiza Renan e Requião, defende Temer e crava impeachment: 'Deputado tem medo da rua'

01/04/2016 21:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
Montagem/Reprodução Facebook

Em tempos nos quais a política e, por consequência, o Congresso Nacional vivem sob forte ataque da opinião pública, com índices tão ruins quanto os da aprovação da presidente Dilma Rousseff (PT), são poucos os parlamentares dados à máxima do ‘sem papas na língua’. Um desses raros exemplos é o deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS).

Em uma sexta-feira (1º) de quase nenhum parlamentar na Câmara, o peemedebista se fez presente e procurou ressaltar algo que faz há meses dentro do próprio partido pelo qual milita: defendeu o impeachment de Dilma e defendeu o projeto ‘Ponte para o Futuro’, desenvolvido pelo grupo que, por aclamação, anunciou a saída do PMDB do governo.

Durante quase 30 minutos, Perondi falou com o HuffPost Brasil e não fugiu de nenhum tema, dando alfinetadas nos colegas de Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) e Roberto Requião (PMDB-PR), abordando a situação de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e fazendo uma defesa enfática do vice-presidente da República, Michel Temer.

Quanto ao impeachment e ao futuro do governo petista, o peemedebista deu uma razão que, para ele, garante que o Parlamento votará a favor da saída de Dilma. “É a rua, deputado tem medo da rua. Deputado se caga [de medo] da rua. Esse é o grande instrumento (...). Quem não votar pelo impeachment será banido pelas urnas”, sentenciou.

Acompanhe os melhores trechos da entrevista.

HuffPost Brasil: Deputado, afinal, o PMDB saiu ou não do governo? Os ministros continuam lá, alguns companheiros de partido do senhor, como o senador Roberto Requião, criticaram a reunião que marcou o desembarque do partido do governo, levantou suspeitas quanto à legitimidade...

Darcísio Perondi: Saiu sim, oficialmente. O Requião é o santo, ok? É um santo, onipotente. Ele faz parte da Santíssima Trindade, ponto. Ele é uma pessoa inteligente, mas ele tem uma dificuldade: ele acha que faz parte da Santíssima Trindade. Aí não tem papas na língua e diz muita besteira. Ponto. Não falo mais no terreno pessoal.

Mas o fato de os ministros do partido seguirem no governo não acentua os rachas que existem no PMDB?

O PT tem divisões. Qualquer partido tem divisão e viva o partido que tenha contradições internas ou incerteza, senão vira uma coisa vertical. Ainda mais com essa multiplicação de partidos que tem aqui, nós temos 30 partidos (representados) aqui. Que o Supremo é culpado, que impediu a cláusula de barreira há uns seis anos. Nós trabalhamos dois anos para sair do governo e não é fácil. Nas contradições internas conseguimos reeleger o presidente Michel (Temer) por unanimidade. Um partido com esse tamanho, com essas contradições, com ministérios, em uma convenção anti-governo, e nós conseguimos isso.

Os ministros ajudaram, participaram, foram lá e não falaram. E depois nós estabelecemos até 30 dias para o diretório ser chamado. Em função da piora da crise econômica e política, foi marcado para o dia 29. Dos 27 diretórios, 22 diretórios apoiando. Aí os ministros e alguns senadores que não concordam pediram para ser por aclamação. Então nos afastamos do governo por aclamação. Isso foi trabalhado pelo Michel Temer, que ouviu o Renan (Calheiros), ouviu o Requião, ouviu os ministros, e eles pediram: ‘olha, discordamos, façam por aclamação’.

Um partido que faz isso tem uma liderança que está unindo, e respeita alguns senadores que não vão ter coragem de votar contra o povo quando for para lá. E aí nós não estabelecemos prazos porque a moção é muito clara: tem que sair. Mas não vamos cortar o pescoço, vamos esperar essa semana, a semana que vem. Se eles não sair terá punição. Não existe licença no estatuto, tem suspensão. Então estamos aguardando, isso não é uma guerra. Sou amigo dos ministros, trabalham comigo há 20 anos, são pessoas sérias que eu respeito. Vamos aguardar uma semana, 10 dias. Acho que na semana que vem, se eles não saírem, é possível que exista um movimento para a comissão de ética analisar.

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"Quem não votar pelo impeachment será banido pelas urnas" (Reprodução/Facebook)

E as declarações do presidente do Senado, Renan Calheiros?

O presidente do Senado é uma figura muito inteligente. Ele é a maior antena de celular que tem no Brasil, ele tem convênio com as nuvens da internet, então ele percebe os ventos. Ele já abandonou (Fernando) Collor 90 dias antes (do impeachment), ele se criou com o Collor. Pode colocar tudo isso. Ele foi ministro do FHC e abandonou o FHC. Como ele é uma antena, eu acredito que ele vai conduzir com isenção o impeachment no Senado e se for para desempatar ele vai votar pró-impeachment. É do perfil dele.

Mas, ao fato, ele participou das decisões da eleição do Michel Temer, e participou quando nós recuamos para haver a aclamação. Então ele foi protagonista de todas as decisões e agora se diz surpreso e que foi precipitado. Este é o fato real. Ele participou, agora quer desconstruir uma decisão que ele ajudou a trabalhar a convergência. Acho que é uma recaída, ele conversa muito com a Dilma e pegou uma estratégia do PT e de desconstruir uma decisão. Ele participou dessa decisão, foi na convenção nacional e foi decisivo.

Como ele pode dizer isso? Porque ele tem essa antena, que fica girando, ele está esperando. Ele é um quadro brilhante, mas não está assim contribuindo com o Brasil. Eu queria que o Renan fosse o Renan da juventude, estudioso, foi do PCdoB, etc. Estamos unidos, é obvio. Isso resultou que já temos 60 votos do PMDB, dos 69.

O governo tem certeza que terá votos do PMDB contra o impeachment...

Talvez eles possam ter até nove votos. Olha Minas Gerais... Ele (Leonardo Picciani, líder do PMDB na Câmara) perdeu em casa. (Quando ele foi eleito com 37 votos para liderança) era outro fato e outra circunstância.

Temos visto muitas listas com vários cálculos e projeções aqui no Congresso nesta semana. O senhor possui um palpite também?

Estamos com 346 votos. Eu sou um dos coordenadores do comitê pró-impeachment. Nós escolhemos na semana passada 45 deputados dos Estados, reunimos esses deputados na terça-feira e eles tiveram um dia e meio para fazer consultas, a gente tem mais ou menos um mapa, para checar e passar para nós até quarta à noite, na quinta a gente tabulou. Se o deputado tem alguma dúvida, um irmão dele é do PT, mas diz que vai votar (a favor do impeachment), ele fica fora. Chegamos em 346.

O que o faz ter certeza que ninguém voltará atrás para votar com o governo?

A chance de não voltar atrás... nós temos a vantagem do voto aberto, o Collor tinha 300 votos 15 dias antes, e mais cargos, e no dia desmoronou. É a rua, deputado tem medo da rua. Deputado se caga da rua. Esse é o grande instrumento. Por isso que nós nos surpreendemos com os 346. Nós achávamos que chegávamos a 310, surpreendeu (...). Quem não votar pelo impeachment será banido pelas urnas.

Não preocupa o senhor as negociações para uma nova composição ministerial que o governo está preparando, dando mais espaço ao PP, ao PR, ao PSD e até ao PTN? Pelo seu otimismo, não fará diferença.

Não vai fazer diferença porque a rua vai pressionar o deputado. Mas o governo também está com dificuldade. O PP não rompeu ontem (quinta-feira) por um detalhe lá no Senado, tem 20 que são ligados à Dilma que seguraram. E o PR é daquele jeito. Tem partidos que querem esperar até segunda-feira a votação na comissão, o que é legítimo. Isso não é um mais um, igual a dois.

Nos seus cálculos, o PSD não vai votar com o governo então...

O PSD está quase todo fora. Temos quase todo o PSDB, a maioria do PP, a gente quer mais, e o PR temos mais, mas ele está meio assim... tem líderes próximos a nós, tem líderes próximos ao governo, eles estão sentindo isso.

Seguindo essa lógica, só não votarão com vocês o PT, o PCdoB, o PSol e a Rede.

Da nossa lista de 346 votos, só não temos ninguém desses quatro partidos. Todos os demais temos alguém conosco. O PDT, outro mais próximo, de 18 nós temos 10. Claro que isso pode aumentar ou diminuir, e é um governo fraco para prometer para ti um emprego, uma emenda porque ele já prometeu e não cumpriu.

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"Sou amigo dele (Temer), trabalho com ele há 22 anos, nunca ouvi ele dizer uma palavra pró-impeachment" (Reprodução/Facebook)

E o vice-presidente Michel Temer, como está participando desse processo todo?

Ele (Temer) está quieto em São Paulo, discreto, não fala em impeachment, conversa com as pessoas que o procuram. É óbvio que ele tem que pensar que daqui a um mês ele pode assumir. Dia 17 (de abril) acaba tudo, vamos para o Senado, lá se trabalha um mês, dá admissibilidade e ele vai assumir. O Senado vai dar porque não vai resistir (à pressão) das ruas. E aí ele tem que assumir, então é óbvio que ele está conversando. Sou amigo dele, trabalho com ele há 22 anos, nunca ouvi ele dizer uma palavra pró-impeachment. Ele sabe da crise, que a economia está derretendo, que precisa dar um passo, mas ele respeita muito a questão institucional.

Os planos já são conhecidos pelo partido então? O senhor prefere a perspectiva de promover cortes ou aumentar impostos?

Olha... Sim, nós temos o programa ‘Ponte para o Futuro’, aquele programa é a base para 2018 pós-impeachment e eu concordo com aquele programa e o defendo.

Mas o senhor não acha que a outra ala do PMDB pode dificultar as coisas? Digo porque venho acompanhando as declarações do senador Requião e...

Eu conheço o Requião e nos debates eu faço contraponto a ele. Só que não vou debater com ele agora. O Requião pensa o Brasil de 30 anos atrás, infelizmente. Mas é normal. Veja o PT, tem 20 facções. E queriam derrubar a Dilma, nem votaram nos projetos da Dilma, saiu meio dividido, mandou para cá (o projeto do pré-sal) e foi bombardeado. O partido dela bombardeou as coisas dela aqui (na Câmara).

Então que bom que tenhamos um Requião no partido. Eu gosto que o Requião esteja no partido. Só que ele é uma cabeça que não evoluiu, ele não defende a concessão, ele quer a partilha. A Petrobras não tinha dinheiro, nós já dizíamos que não tinha dinheiro. E pior: não tinha dinheiro e abriu as portas para a corrupção. Não foi a causa principal, percebe? E ele defende isso, uma coisa de 100 anos atrás. P*, eu defendi a Petrobras quando tinha 15 anos, nem sabia o que era isso, e até queria ser geólogo quando despontava no ginásio, por causa da campanha ‘O Petróleo é Nosso’. Ele é assim.

E o Eduardo Cunha? Não macula o processo ter uma figura como a dele, que é réu no Supremo Tribunal Federal, a frente desse processo de impeachment?

O Cunha vamos aguardar. Que saia a Dilma também então, que saia o Renan, mas tem que ser pelos caminhos legais. Nós estamos trabalhando para tirar a Dilma pelos caminhos legais, que roubou e deixou roubar. Bem, roubou até eu não sei, mas que deixou roubar isso deixou, e quando deixa roubar quando é agente público é crime. Não é só colocar o dinheiro do povo aqui dentro (aponta para o bolso).

Mas a peça em análise no comitê do impeachment não fala sobre isso, fala sobre os créditos suplementares e sobre as ‘pedaladas fiscais’.

Agora é político. Com todo esse quadro, o PT desandou desde o segundo mandato do Lula. O primeiro foi razoável, e desandou. E virou algo político.

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