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01/04/2016 19:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Deputado da oposição diz que 'fantasma de Celso Daniel dá tremedeira no PT' e que 27ª fase da Lava Jato chegará a Lula

Montagem/YouTube e Facebook

Um dos poucos presentes à sessão da Câmara desta sexta-feira (1º), o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS) disse acreditar que a 27ª fase da Operação Lava Jato – intitulada Carbono 14 –, deflagrada horas antes em quatro cidades de São Paulo, deverá estabelecer algo que todos já desconfiam: há ligação entre o mensalão e o petrolão, e há mais por trás da morte do ex-prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel, em 2002.

“Deve estar dando tremedeira no pessoal do PT essa ligação da Lava Jato com a morte do Celso Daniel”, disse Onyx, em discurso inflamado na Câmara. Logo depois, ao HuffPost Brasil, o parlamentar explicou que todos os indícios apontados por essa nova fase da Lava Jato, com as prisões de Silvio Pereira (secretário-geral do PT na época do mensalão) e a condução coercitiva do ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, trarão não só essa conexão, mas também levarão o caso para cima do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Eu fiz aqui a CPI do Mensalão, estudei muito e desde aquela época a gente dizia que não se chegou ao ‘capo’ (chefe, em italiano). Se chegou ao gerente do ‘capo', que era o José Dirceu. E a continuidade da investigação do petrolão, que é apenas uma consequência, quando o (ex-deputado) Roberto Jefferson (PTB) subiu aqui, abriu a mão e apontou as cinco fontes de financiamento do mensalão: uma era a Petrobras”, relembrou.

O deputado do DEM citou ainda o ex-presidente da Petrobras José Eduardo Dutra (morto no ano passado), que deixou a estatal justamente no meio da crise causada pelo escândalo do mensalão.

Para Onyx, a resistência do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em permitir que os diretores da petrolífera fossem ao Congresso para depor na CPI – que acabou sem ter o relatório votado, em um movimento político costurado pela queda do então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, e a entrada de Aldo Rebelo no comando da Casa – hoje faz todo o sentido.

“Quando a CPI se instala, o José Eduardo Dutra deixa de ser o presidente da sétima maior petrolífera do mundo para ser secretário municipal de Aracaju. Com todo o respeito que Aracaju merece, são dimensões muito diferentes. Ele sumiu. Então o que ocorre? Não tenho nenhuma dúvida que as investigações da Lava Jato vão poder apurar o que que verdadeiramente aconteceu na época do mensalão. Ou seja, vão poder chegar ao topo da cadeia de comando, que é o Lula e eu não tenho dúvida disso. Eu o chamo de ‘capo’ porque ele é mesmo.”

O escândalo do mensalão custou o cargo ministerial e o mandato de Dirceu, a presidência do PT ao deputado José Genoino (SP), e a expulsão de Delúbio após um funcionário dos Correios, Maurício Marinho - este apadrinhado de Jefferson - ter sido flagrado recebendo propina de empresários. Em seguida, o parlamentar do PTB denunciou o esquema, que resultou em uma série de condenações em 2005, em ação penal cujo relator era o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa.

Caso Celso Daniel é citado por Moro

No despacho que autorizou a mais recente fase da Lava Jato, o juiz federal Sérgio Moro escreveu que “é ainda possível que este esquema criminoso tenha alguma relação com o homicídio, em janeiro de 2002, do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, o que é ainda mais grave”.

A Carbono 14 investiga um empréstimo fraudulento de R$ 12 milhões feito pelo Banco Schahin ao pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula, e o repasse de R$ 6 milhões para o dono do Diário do Grande ABC, Ronan Maria Pinto. A suspeita é que o destino do dinheiro seria pagar dívidas de campanha do PT.

Moro cita no documento um depoimento colhido pelos procuradores da Lava Jato em janeiro este ano, quando estes ouviram Bruno José Daniel, irmão de Celso Daniel:

“Relatou em síntese que, após o homicídio, lhe foi relatada a existência desse esquema criminoso e que envolvia repasses de parte dos valores da extorsão ao Partido dos Trabalhadores. O fato lhe teria sido relatado por Gilberto Carvalho e por Miriam Belchior (ex-mulher de Celso Daniel). O destinatário dos valores devidos ao Partido dos Trabalhadores seria José Dirceu de Oliveira e Silva”, escreve o magistrado.

“Levantou (o irmão de Celso Daniel) suspeitas ainda sobre o possível envolvimento de Sergio Gomes da Silva no homicídio do irmão. Declarou não ter conhecimento do envolvimento de Ronan Maria Pinto no episódio ou de extorsão por ele praticada contra o Partido dos Trabalhadores”, completou Moro.

À Rádio Estadão nesta sexta-feira, Bruno Daniel disse que acredita que a nova fase da Lava Jato pode ajudar a finalmente esclarecer os reais motivos que levaram à morte do seu irmão, que possuía um dossiê com denúncias contra políticos ligados a atos corruptos na prefeitura de Santo André. Ele nunca acreditou na versão oficial para o assassinato, que foi tratado como um sequestro que deu errado, sem conotação política.

“Há novidades que são importantes. Por que a direção do PT enviou por meio de chantagem essa quantia de R$ 6 milhões ao senhor Ronan Maria Pinto? Que chantagem seria essa? (...) O meu irmão, antes de ser assassinado, ele foi torturado. Isso não ocorre em crimes comuns. O legista insistiu nisso e apareceu morto pouco depois, e a polícia fala em suicídio. Há um conjunto imenso de coisas a serem investigadas”, afirmou Bruno Daniel.

Na Câmara, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) classificou como um ato para “gerar esse ambiente de espetáculo” a ligação feita por Moro entre a morte de Celso Daniel e as apurações da Lava Jato.

Para o parlamentar, o caso já foi esclarecido e tudo se trata de uma atuação irregular do juiz federal e dos investigadores da Polícia Federal para “interferir no processo político brasileiro”:

“Não há absolutamente nenhuma questão que envolva o Partido dos Trabalhadores nesses episódios, ou o presidente Lula, e nós estamos absolutamente tranquilos e com a certeza que é mais uma tentativa de interferir no processo político brasileiro, e oferecer aos golpistas elementos que possam justificar a quebra do Estado democrático, que possam justificar rasgar a Constituição, rasgar a democracia, para tentar levar ao governo pessoas que não conseguiram fazer isso através do voto.”

Anteriormente, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, peça-chave do petrolão, já havia mencionado que teria informações sobre o envolvimento do PT com a morte de Celso Daniel.

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