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Cálculo por cargos x cálculo por votos: As estratégias na reta final que levará à votação do impeachment

31/03/2016 11:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
Wilson Dias/Agência Brasil / 02/02/2016

“Temos 330 votos”. “Quem te der número de votos está mentindo”. Uma opinião é de um articulador pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). A outra é de uma liderança petista na Câmara dos Deputados. A disputa política, comum em ambos os discursos, só não é maior do que os cálculos envolvendo emendas e cargos, tudo envolto em muita estratégia.

A reportagem do HuffPost Brasil ouviu parlamentares dos dois lados da disputa. Em comum, a expectativa de que o processo do impeachment comece a ser votado no dia 15 de abril, durante até o dia 17, um domingo, como deseja o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), como você já leu aqui. Simbólica, a votação teria como desfecho uma catarse verde e amarela nas ruas.

Cunha tem ainda outras estratégias, como chamar nominalmente cada um dos 513 deputados federais, a começar pelos da região Sul e Sudeste – mais favoráveis ao impeachment –, deixando os da região Nordeste – onde Dilma ainda possui uma margem de apoio – por último. A ideia é expor ao máximo os indecisos à opinião pública. Se a votação pró-impeachment estiver na frente, a meta é forçar tais parlamentares a acompanharem a maioria.

Mas as táticas vão além. “A ideia não é ir a gabinete, mas sim pressionar esses deputados indecisos de todo o jeito, seja com carro de som, nas redes sociais, como for. Quem vai querer aparecer como alguém que votou contra o impeachment?”, afirmou o deputado Paulinho da Força (SD-SP), um dos mais fiéis aliados de Cunha na Câmara. Ele aproveitou para pregar o respeito ao governo, que está se movimentando para conseguir os 171 votos que poderão impedir que o impeachment avance.

“É preciso lembrar que não há gente boba ou iniciante do outro lado. Eles estão trabalhando, distribuindo cargo para todo o lado”, comentou. O próprio Cunha se manifestou de maneira parecida, em tom crítico ao Planalto. Apesar dos seus atos legislativos quase sempre serem interpretados como ‘manobras’, quem agora estaria adotando a prática seria o governo, na tentativa de se salvar.

“O governo deveria constituir a sua maioria dentro de uma base sólida, de comprometimento com os seus programas e de participação. São manobras de uma tentativa de cooptação através de cargos, recursos, emendas, qualquer coisa do gênero, isso não é bom para a política e também não vai solucionar o problema. Quando acabar o processo, o governo não terá maioria na casa, em nenhuma circunstância”.

Ao invés de manobra, o deputado federal Henrique Fontana (PT-RS) prefere chamar de trabalho a ação do governo para garantir apoio. Até sexta-feira (1º) a base aliada promete ter em mãos um raio-x de quem está comprometido com Dilma e quem não está, e tudo faz parte de “articulações multifatoriais”, como pregou o deputado petista.

“Quem falar em números, sejam a favor ou contra o impeachment, está mentindo para você. Ninguém tem esse dado, o que existe é muita especulação. Temos articulações multifatoriais (Lula, governo Dilma, ministros) que estão trabalhando pelos votos necessários para impedirmos que o golpe avance aqui na Câmara”, completou Fontana.

Números e mais números

Analistas arriscam dizer que a oposição teria hoje 152 votos garantidos a favor do impeachment na Câmara. Para se alcançar os 342 necessários, é preciso convencer não só os indecisos, mas também contar com três quartos de votos do PMDB e a íntegra de importantes partidos da base aliada, como PP, PR e PSD, além de uma taxa de adesão maciça e uniforme dos partidos ‘nanicos’, mas que em bloco possuem poder de fogo na votação.

Já o Palácio do Planalto acredita ter entre 130 e 140 votos a seu favor garantidos. Todavia, tanto de um lado quanto de outro, são poucas as garantias de que não existirão traições. Nunca é demais relembrar que, às vésperas da votação do impeachment do então presidente Fernando Collor, em 1992, o governo tinha a promessa de que tinha os votos necessários. Acabou derrotado por larga margem e o resto da história todo mundo já sabe.

“Vi pessoas ganhando garrafa de vinho e trocando juras de amor naquele jantar, na véspera da votação”, relembrou o senador Paulo Paim (PT-RS). Não por acaso, são vistas listas e mais listas rabiscadas nas mãos de parlamentares e assessores. Os cálculos não envolvem só votos, mas também cargos e emendas que o governo está oferecendo aos seus aliados, notadamente após a saída do PMDB da base aliada.

Os riscos são enormes para Dilma, sobretudo pelo adiamento dos posicionamentos de PP (que possui 51 deputados) e do PR (40 deputados). Ambos os partidos, que integram a base e foram cortejados com mais espaço no ministério da presidente, além de mais postos de segundo escalão, só decidirão se seguem com o governo na véspera da votação do impeachment. A interpretação não é difícil: a ideia é sentir para onde rumam os ventos e embarcar na corrente ‘correta’.

“Não acho que seja o momento adequado para tratar de cargo, principalmente pelo momento que a gente passa. Nem agora nem em relação a um futuro governo que se acredita que pode acontecer. O momento agora é para analisar o processo”, disse o líder do PR na Câmara, Maurício Quintella Lessa (AL). O colega de Parlamento, Esperidião Amin (PP-SC), vai pela mesmo caminho.

“Eu não diria que a negociação faz parte da política, faz parte do espírito de sobrevivência, e o governo está tentando sobreviver. O governo está procurando frações de partido, ele sabe que não terá partido único, e o PP eu acho que majoritariamente quer distância do governo, mas eu não posso dizer que todos querem”, avaliou Amin.

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