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31/03/2016 10:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Após sinalizar saída 'unânime', PMDB expõe rachaduras e contradições às vésperas da votação do impeachment

Igo Estrela/ PMDB Nacional

Depois da festa, a ressaca. É essa a sensação para setores do PMDB depois de lideranças do partido terem anunciado, por aclamação, a saída da legenda da base aliada da presidente Dilma Rousseff (PT). Embora o discurso falasse em “união”, a ausência de nomes importantes no encontro já indicava o contrário. E o governo já farejou que, sim, é possível arrancar do PMDB alguns votos contra o impeachment.

“Acredito que o governo ganhou algumas posições nas últimas horas. Apesar da decisão do PMDB em sair do governo, seguimos acreditando que parte do partido não votará pelo impeachment. Muitos deles sabem que a decisão pela saída foi um erro e só estão se dando conta agora”, disse ao HuffPost Brasil o deputado federal Henrique Fontana (PT-RS). O colega de bancada, Paulo Pimenta (PT-RS), seguiu pela mesma linha.

“Quantos votos você acha que nós tínhamos antes do PMDB sair? Veja, o (Leonardo) Picciani (líder do PMDB na Câmara) ganhou com pouco mais de 30 votos (foram 37), então já não podíamos contar com muito mais do que isso. Talvez tenhamos lá uns 10, 15 votos”, opinou.

Desde que o PMDB anunciou a sua saída do governo, o Palácio do Planalto passou para a ofensiva. Conseguiu dos seis ministros peemedebistas – nenhum deles esteve no encontro pelo rompimento do partido – no governo federal a lealdade e a liberdade para definir quem fica e quem sai. Para o governo, é certo que o PMDB perderá alguns ministérios – talvez 50% dos seis que ainda possui – para dar lugar a outros aliados.

A ministra da Agricultura, Kátia Abreu (PMDB-TO), tratou de ser a ‘porta-voz’ desta ala do partido que garante: não sai do governo, embora Dilma tenha liberdade para fazer as mudanças que julgar necessárias.

É a mesma ministra que disse isso horas após a reunião pelo rompimento.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, Kátia e os ministros Hélder Barbalho (Portos) e Celso Pansera (Ciência e Tecnologia) seriam mantidos, principalmente por terem mais poder de garantir votos a favor do Planalto no Congresso, o que significaria que Mauro Lopes (Aviação Civil), Eduardo Braga (Minas e Energia) e Marcelo Castro (Saúde) perderiam as suas pastas, abrindo espaço para PR, PP, PSD e até mesmo partidos menores, como o PTN.

As rachaduras no PMDB não estão expostas apenas no âmbito dos ministérios. Dentro do Legislativo, as conversações andam aquecidas. A reportagem do HuffPost Brasil flagrou nesta quarta-feira (30) uma conversa entre três parlamentares do partido no salão verde da Câmara. A discussão girou em torno da atuação do senador Roberto Requião (PMDB-PR), um dos peemedebistas mais respeitados na Casa e que é amplamente contrário ao rompimento.

“E o Requião, o que ele está fazendo?”, perguntou um dos parlamentares aos outros dois. Em resposta, um deles tentou explicar que o senador paranaense possui uma forma de “atuar” na Casa. Possivelmente, o grupo estivesse se referindo às recentes manifestações de Requião, criticando abertamente colegas de partido nas redes sociais, mostrando um discurso mais alinhado ao governo – como vem sendo a sua postura ao longo do mandato.

No plenário, durante o evento que celebrou os 50 anos de fundação do PMDB, o próprio Leonardo Picciani (PMDB-RJ) fez questão de enfatizar que “as discordâncias fazem o partido mais forte”, o que pôde ser entendido como uma ‘não-capitulação’ aos anseios de alguns líderes peemedebistas.

Como se vê, o PMDB pode ter “saído” do governo, mas o governo não saiu do PMDB. E às vésperas da votação do processo de impeachment na Câmara, prevista pela oposição para começar no dia 15 de abril, cada voto que o governo consiga – o que um peemedebista crítico ao governo chamou de “migalhas” – deve ser tido como uma vitória.

Desafio e expulsões

Ex-ministro de Dilma e figura próxima do vice-presidente Michel Temer, Eliseu Padilha disse na última terça-feira (29) que acreditava na saída de todos os ministros do governo, sem exceção. De acordo com ele, não há no estatuto do PMDB a previsão de que um parlamentar possa se licenciar da legenda para contrariar uma decisão majoritária – plano ventilado por Kátia Abreu e os demais ministros que querem seguir no Planalto.

“Eu acredito que todo peemedebista vai sair. Nem se analisa essa hipótese (de expulsão)”, afirmou Padilha. Contudo, a postura dos colegas em não quererem deixar o governo já faz com que aqueles que romperam se vejam em uma encruzilhada: tolerar os ‘rebeldes’ ou partir para medidas mais extremas. Para o deputado federal Hugo Motta(PMDB-PB), aliado do presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o partido terá de buscar uma postura coerente.

“Eu acho que os ministros vão sair sim. Eles têm que sair, é uma posição do partido que deve ser cumprida. Se não saírem eu acredito que podem ser expulsos. Não haverá tolerância com quem não cumprir isso”, analisou.

Essa não é a única dor de cabeça do partido. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo aponta que já existem divisões no PMDB quando o assunto é a agenda econômica em um eventual governo Temer. Há aqueles que defendem que o vice, se assumir a Presidência da República, realize cortes e não suba os impostos, enquanto outros veem como impossível a chance de não lançar mão de medidas impopulares.

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