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Uma questão de saúde pública: O drama das travestis e transexuais do Brasil

28/03/2016 16:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02
Arte/Tainá Ceccato

Vinte anos.

Esse é o tempo necessário no estado de São Paulo para que uma transexual possa completar sua transformação.

Tamanha espera ocorre porque apenas dois hospitais de SP realizam a cirurgia de redesignação de sexo atualmente: o Hospital das Clínicas e o Hospital Estadual Mário Covas.

Além deles, só outras quatro instituições atendem a essa demanda no País: o Hospital das Clínicas de Porto Alegre, de Recife e de Goiânia, e o Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro.

A diretora do ambulatório de travestis e transexuais do Centro de Referência e Treinamento em DST/aids (CRT) de São Paulo, Judit Lia Busanello, explica que as pacientes passam por um acompanhamento de dois anos que antecede o início das operações.

Elas devem ser atendidas por uma equipe multidisciplinar, com psicólogo, psiquiatra, endocrinologista, clínico geral e assistente social.

“Temos dois públicos: os transexuais e as travestis. Primeiro atendíamos as demandas gerais de saúde dessas pessoas. Hoje também investimos nossos esforços em ajudá-las no processo transexualizador”, explica Busanello.

Coordenadora do programa Transcidadania, da prefeitura de São Paulo, Juny Kraiczyk explica a diferença entre esses públicos:

“A distinção entre mulheres trans e travestis é muito sutil. As categorias são fluidas, e muitas não sabem como se intitular. Algumas se chamam de travestis por uma questão política. Outras, quando começam a trabalhar e a estudar começam a se identificar como mulheres trans, na medida em que absorvem os valores da classe média.”

Desde 2008, o SUS realiza o processo de transformação, que engloba as cirurgias de redesignação sexual, mastectomia (retirada de mama), plástica mamária reconstrutiva (incluindo próteses de silicone) e tireoplastia (troca da voz).

Em 2013, foi incluído o espaço para o uso do nome social de travestis e transexuais no Cartão SUS. Já em 2015, o Ministério da Saúde acrescentou dois novos itens na ficha de notificação de casos de violência, preenchidas em unidades de saúde: orientação sexual e identidade de gênero.

Os problemas de saúde da comunidade trans

No CRT de São Paulo, médicos atendem dezenas de complicações decorrentes do uso de silicone industrial.

“Mais de 400 travestis já passaram por aqui com a saúde comprometida por causa do silicone. Em alguns casos não há o que fazer além de intervir com medicamentos antibióticos. Em outros, a pessoa passa por cirurgia para removê-lo”, afirma Judit Lia Busanello.

Dentro da comunidade de travestis e transexuais, a aids ainda é tabu. Segundo Juny Kraiczyk, o silêncio se deve à profissão da maioria das travestis:

Não é simples impedir que a população contraia HIV. Existem diversos relatos dessas mulheres dizendo que ganham muito mais por um programa sem camisinha. Se uma não fizer, a outra faz. E isso faz parte do trabalho delas, que na maioria das vezes não conseguiram ficar na escola.

Entre as beneficiados do programa Transcidadania, que oferece bolsas para os estudos da população trans, 80% estão no ensino fundamental com mais de 30 anos.

“A bolsa [de R$ 840] possibilita que as travestis não precisem fazer programa sem camisinha, que possam descansar quando estiverem doentes. Isso é importante porque a maioria não tem apoio da família”, argumenta Kraiczyk.

A contaminação por aids e a não adesão ao tratamento encurtam a expectativa de vida das travestis.

"Não se pode pensar em aids sem tratar das coinfecções, como a sífilis, que ainda hoje atinge a população de travestis. O tratamento, feito com penicilina, é prejudicado pela dificuldade de oferta no mercado. Desse modo é possível que a pessoa desenvolva tuberculose e acabe morrendo antes dos 40 anos”, afirma Kraiczyk.

Para Busanello, a demora no atendimento médico no sistema público de saúde acaba prejudicando a saúde das pacientes trans. O problema é maior quando não há endocrinologistas disponíveis para avaliá-las. “Uma vez que se começa a tomar hormônios, continua-se até o resto da vida. Antes da cirurgia de troca de sexo, o objetivo é bloquear os hormônios biológicos. Depois, dedica-se à reposição”, esclarece.

Desconhece-se a idade média de morte das travestis brasileiras porque o governo não coleta essas informações. Kraiczyk lamenta a ausência de sistematização:

Ter esses dados significa que o Estado precisaria investir altos recursos financeiros. Fechar os olhos para essa realidade é transfobia institucionalizada, ignora-se a realidade social dessa comunidade.

A diretora do CRT explica que o centro está atualmente procurando parceiros para conseguir acelerar o serviço de que essas pessoas precisam, mas a transfobia também está enraizada no SUS. “Alguns lugares se recusam a ajudar essa comunidade por terem preconceito. Nós não temos profissionais de saúde suficientes para atendê-lo”, admite Busanello.

Hoje o HC de São Paulo e o Hospital Mário Covas realizam 12 cirurgias por ano cada. Para entrar na fila de atendimento, é preciso ser maior de idade. Já a cirurgia requer que a pessoa tenha completado 21 anos.

O centro tem três mil pacientes cadastrados no sistema, sendo que, desses, dois mil aguardam a cirurgia.

“A espera causa sofrimento. Durante esses anos na fila, diversas pessoas tentam tirar a vida”, conta Busanello.

De 2008 a 2014 a quantidade de cirurgias realizadas pelo SUS aumentou de 101 para 3.157.

Além dos hospitais, outros serviços ambulatoriais implantados por iniciativa local existem em João Pessoa (PB), Uberlândia (MG) e Curitiba (PR).

A espera de Nathália

O HuffPost Brasil entrevistou a jovem Nathália dos Santos Teixeira, que aguarda a sua vez na fila do SUS para redesignação sexual.

Assista:

O outro lado

Em resposta às críticas, a assessoria do Ministério da Saúde afirma que o SUS está na vanguarda da garantia de direitos aos transexuais.

Segundo o ministério, desde 2008 os brasileiros têm cobertura integral e gratuita para realizar a redesignação sexual.

Também, desde 2004, o SUS encampa a iniciativa "Brasil sem Homofobia", um programa de combate à violência e discriminação LGBT e de promoção da cidadania homossexual, que tem como objetivo gerar equidade de acesso aos serviços públicos.

O Ministério da Saúde também orienta como os profissionais da saúde devem preencher a ficha de notificação do Sistema de Informação e Agravos de Notificação (Sinan), incluindo os campos de orientação sexual, identidade de gênero e motivação da violência para criar um banco de dados sobre violência contra essa população.

Como a LGBTfobia se esconde no Brasil

Texto: Dayane Saleh

Reportagem: Dayane Saleh, Lucas Baptista, Lynn Court e Maurício Fidalgo

Identidade visual, ilustrações e infografia: Tainá Ceccato

Edição: Diego Iraheta

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