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8 conversas interceptadas pela Lava Jato que deixam Frank Underwood no chinelo

17/03/2016 01:55 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

O juiz Sérgio Moro levantou o sigilo do inquérito da 24ª fase da Operação Lava Jato e atingiu em cheio o novo ministro-chefe da Casa Civil, Luiz Inácio Lula da Silva.

Os grampos efetuados pela Polícia Federal e autorizados pelo magistrado mostram, na avaliação dele, uma tentativa de Lula e aliados de "influenciar ou obter auxílio de autoridades do Ministério Público ou da magistratura em favor" dele, justamente no que tange às investigações dos desvios bilionários da Petrobras.

O HuffPost Brasil reuniu áudios de algumas das conversas que comprometem Lula, o PT ou o governo e que são levados em consideração por Moro para defender que há "um cenário de aparentes tentativas de obstrução à Justiça". A seguir, há também declarações constrangedoras de Lula ou de seus interlocutores — que deixam no chinelo a personagem Frank Underwood, de House of Cards.

1. 'Se homem não tem saco, quem sabe uma mulher corajosa tem?'

Neste trecho, Lula conversa com o então ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, sobre a ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) Rosa Weber

A ministra negou pedido da defesa de Lula para suspender duas investigações que o envolviam: a propriedade e obras no triplex do Guarujá (SP) e a compra do sítio em Atibaia.

LULA: Ô, Wagner, eu queria que você visse agora de falar com ela [Dilma], já que ela ta aí, falar o negócio da Rosa Weber.

WAGNER: Porque tá na mão dela para decidir.

LULA: Se o homem não tem saco, quem sabe uma mulher corajosa [Weber] não tem saco para fazer?

WAGNER: Combinado.

2. 'Eu acho que tem que ficar cercado em torno do prédio do Lula e sair na porrada'

O diálogo a seguir ocorre entre o ministro Jaques Wagner e o presidente nacional do PT, Rui Falcão, que pede que o governo "desloque alguém" para São Paulo no aparente intuito de proteger Lula.

Pimenta mostra apreensão de a juíza Maria Priscilla Ernandes acolher o pedido de prisão preventiva de Lula, feito pelo Ministério Público de São Paulo na semana passada.

O ministro sugere: "eu acho que tem que ficar cercado no prédio dele e sair na porrada [em caso de prisão de Lula]".

Nessa conversa, os investigadores da PF depreendem que o PT e Lula já estariam estudando a nomeação do ministério como uma forma de Lula escapar da prisão.

[Ouve-se Wagner gritando 'vai tomar nor rabo']

FALCÃO: Oi Jaques. O louco do [promotor Cássio] Conserino pediu pra gente...

WAGNER: É, eu sei.

FALCÃO: Vocês vão deslocar alguém pra cá?

WAGNER: Deslocar em que sentido?

FALCÃO: Tem que vir alguém pra cá, porra! Pra se mexer aqui também.

WAGNER: Alguém quem? Não tô raciocinando.

FALCÃO: Não tem ministro da Justiça.

WAGNER: Tem ministro da Justiça, tá no Ministério, tá no posto.

FALCÃO: Alguma iniciativa vcs precisam tomar porque tá na mão da juíza da 4ª Vara [Criminal da Justiça, Maria Priscilla Ernandes] que não sabe quando toma decisão, mas pode tomar hoje.

WAGNER: Ele [o promotor Conserino] pediu a preventiva do cara? Em cima do quê?

FALCÃO: Ele é louco, os 3 promotores aqui...

WAGNER: A juíza pode despachar agora, tamo chamando deputado.

FALCÃO: Se nomear ele [como ministro] hoje, o que que acontece?

WAGNER: Aí não sei. Ele aceitou?

FALCÃO: Tá todo mundo pressionando aqui, o Fernando Haddad, os sindicatos, todo mundo aqui.

WAGNER: Eu acho que tem ficar cercado no prédio dele e sair na porrada.

FALCÃO: Mas, enquanto isso, toma decisão de Estado maior e mantém a gente informado.

3. 'Ela pensou que era um presente de Deus. E era a Polícia Federal'

Em uma intercepção de conversa entre Dilma e Lula, o petista arrancou gargalhadas da presidente ao comentar sobre a chegada dos policiais federais à casa de Clara Ant, atual diretora do Instituto Lula, por ocasião da 24ª fase da Lava Jato.

DILMA: Alô.

LULA: Alô minha filha, tudo bem?

DILMA: Não tô achando tudo bem, não.

LULA: Faz parte, Dilma

DILMA: Ah, faz parte. E como é que você tá?

LULA: Falei com a Marisa [Letícia, esposa de Lula]. Agora foram embora da casa de todos, Fábio, Sandro. As perguntas, se os canalhas tivessem mandado oficio, eu teria mandado. Eu acho que o Moro quis fazer um espetáculo antes daquilo que tá no Supremo. Precisava fazer espetáculo e pirotecnia. Levaram os mesmos documentos.

DILMA: Os mesmos?

LULA: Foram na casa do Paulo Okamotto [presidente do Instituto Lula], da casa da Clara Ant. A Clara tava dormindo sozinha, quando entrou (sic) cinco homens lá dentro. Ela pensou que era um presente de Deus. E era Polícia Federal.

DILMA: Ela pensou que fosse um presente de Deus? (risos)

4. 'Temos um STF acovardado e parlamentares fodidos'

No áudio acima, a partir do minuto 4:40, é possível ouvir Lula disparando contra diversas instituições do País.

Ele sugere à Dilma que é preciso "mudar alguma coisa neste País", em referência à autonomia de órgãos investigadores, como a Polícia Federal e o Ministério Público.

LULA: Nós temos uma Suprema Corte totalmente acordavarda. Nós temos um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado. Somente nos últimos tempos é que o PT e o PCdoB começaram a acordar e brigar. Um presidente da Câmara fodido, presidente do Senado fodido, não sei quantos parlamentares ameaçados [pela Lava Jato], e fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e vai todo mundo se salvar. Eu sinceramente tô assustado com a República de Curitiba. Porque, a partir de um juiz de primeira instância, tudo pode acontecer neste País, tudo pode acontecer.

[...]

LULA: Eu tô pensando em pegar todo o acervo [que era da Presidência] e jogar na frente do Ministério Público. 11 contêneires de tranqueiras que ganhei quando tava na Presidência.

DILMA: Dá para eles. Eu vou fazer a mesma coisa com os meus.

LULA: Temos de conversar pessoalmente. Nós precisamos mudar alguma coisa neste País. Ontem eu disse: como é que pode um delegado da Polícia Federal dar declaração contra mudança de ministro? Eu disse a eles que a pessoa que tá precisando de autonomia é a Dilma, a única eleita. Ela não consegue governar por causa do Congresso, do Ministério Público, do Tribunal de Contas, ela não consegue.

5. 'Amanhã vão fazer putaria com Lula e terça-feira o filha da puta da OAB vai falar'

Ainda no áudio acima, no minuto 7:15, Wagner e Lula conversam sobre a condução coercitiva do ex-presidente.

O então ministro xinga um representante da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e também o senador-bomba, Delcídio do Amaral, que está delatando diversos políticos aos investigadores da Lava Jato.

WAGNER: Acho que tão querendo criar clima pro dia 13 [dia dos protestos], so falam de renúncia agora. Quando saiu a matéria da Istoé, eu falei: amanhã vão fazer alguma putaria com o Lula. Na terça-feira, o filha da puta da OAB vai botar aqui dizendo o que o conselho da OAB acha nesse caso. É uma palhaçada! O Delcídio, porra, que eu nao imaginei que era tão canalha... Ele fala de Pasadena [refinaria que adquiriu contrato superfaturado com a Petrobras], por exemplo. Essa porra já foi arquivada pela PGR. Fala que você mandou isso, mandar aquilo. Tem prova? Quer dizer... Vá tomar no... Eu não sabia q ele fosse tão escroto.

6. 'Minha vida começou com Lula e Cabral, terminou com Dilma e Pezão. Puta que me pariu'

Um dos diálogos mais tragicômicos é travado entre Lula e o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB).

O peemedebista critica o humor da presidente e bajula o ex-presidente.

Ambos falam também em impor limites à atuação da Polícia Federal e do Ministério Público.

LULA: É um bando de filha da puta, vou contar uma coisa. Deixa eu lhe falar: esses meninos da Polícia Federal e esse menino do Ministério Público se sentem enviados de Deus.

PAES: Mas sabe que todos do Ministério Público são crentes, né.

LULA: Eu acho que sou a chance que esse País tem de brigar com eles para tentar colocar no seu devido lugar.

PAES: É, dar um limite.

LULA: É, nós queremos instituições sérias, mas tem que ter limites, tem que ter regras.

PAES: Passou de todos os limites, a gente fica com medo de conversar com as pessoas.

LULA: Lógico, porra.

[...]

PAES: Tenho que falar uma coisa pro senhor. Minha vida [na prefeitura do Rio] começou com Lula e Cabral. Terminou com Dilma e Pezão. Puta que me pariu. (risos de Lula) Tu não faz ideia como eu tô sofrendo. É uma foda.

LULA: Mas você, querido, com todo problema, é abençoado por Deus por causa desta Olimpíada. Os outros prefeitos que eu converso tão fodidos.

PAES: Mas, presidente, segurar a Olimpíada com Vossa Excelência e Sérgio Cabral é uma coisa; segurar com aquela... Com o bom humor da Dilma e do Pezão...

7. 'Lula, o senhor não perdeu sua alma de pobre'

Ainda no áudio acima, a partir de 4:25, Paes faz uma série de declarações classistas, depreciando as propriedades que são investigadas pela Lava Jato como bens de Lula.

O prefeito do Rio desqualifica municípios como São Pedro da Aldeia e Araruama.

Lula não se defende da associação de que efetivamente as propriedades são dele; apenas ri.

PAES: Mas tamo junto, o senhor tem minha solidariedade. Da próxima vez, vê se me para com essa vida de pobre, com essa alma de pobre, comprando esses barcos de merda, sitiozinho vagabundo. Essa tua alma de pobre... Se fosse aqui no Rio, esse sitio não era Petrópolis, não era Itaipava, era como se fosse Maricá, uma merda de lugar. Esse barquinho dele é em São Pedro da Aldeia e Araruama, não em Búzios e Angra. É um cafona mesmo; o senhor não perdeu sua alma de pobre.

8. 'Essa é a gratidão do Janot por mim'

Em conversa com seu advogado Sigmaringa Seixas, o ex-presidente criticou o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como se devesse um favor ao governo, já que foi nomeado pela presidente Dilma.

LULA: Eu tô cansado das coisas formais. Esse cara [Rodrigo Janot], se fosse formal, ele nao seria procurador-geral da República. Ele tinha tomado no cu, tinha ficado em terceiro lugar. Esse é um dado. Quando os caras precisam, não têm formalidade. E, quando a gente precisa, tá cheio de formalidade. Vai se foder, porra. [...] É uma coisa simples que te pedi de manhã, era uma coisa simples, não precisava de formalidade.

SIGMARINGA: Mas simples ele vai dizer 'não', ele não vai nos receber.

LULA: Ele recusou quatro pedidos de investigação do Aécio e aceitou o primeiro do bandido do Acre contra mim. Essa é a gratidão dele por ele ser procurador.

SIGMARINGA: Mas, se a gente formalizar, inclusive jogando para a imprensa, ele vai ficar constrangido. Se for lá conversar, ele diz 'não' e pronto.

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