MULHERES
08/03/2016 15:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Mulheres, muito é dito sobre vocês. Mas está na hora de escutar seu próprio desejo

Jonathan Knowles via Getty Images
Multiple exposure,dark skinned female smiling

“Mulheres são loucas.”

“Mulheres são grudentas.”

“Mulheres não sabem liderar.”

“Mulheres são descontroladas.”

“Uma mulher só fica completa quando casa e tem filhos.”

Frases comuns, declaradamente rotineiras, certo? E tais afirmações não são recentes: chegam a ser proclamadas durante toda a existência de uma mulher. O que se diz dela cai como um lugar a ser ocupado, atribuído pela sociedade e pela cultura de forte influência patriarcal.

O que se diz sobre alguém pode indicar o lugar que essa pessoa ocupa ou vai ocupar, psiquicamente falando. É como um papel a ser desempenhado, mas não de maneira consciente. O psicanalista Christian Dunker fala da importância de considerar o que é dito sobre o paciente e como isso se traduz em sua vida. No caso de alguém que chega ao consultório dizendo “a minha tia me chamava de torto”, por exemplo, esse “torto” é um diagnóstico, e influencia a imagem que esse paciente tem de si. O mesmo vale para “me chamam de chata”, “sou o filho bagunceiro e sem juízo” ou “sou a irmã que não deu certo na vida”.

Se as meninas crescem ouvindo que precisam brincar de bonecas e que ciências são algo masculino, elas são marcadas pela afirmação de que mulheres não podem se tornar cientistas e aquelas que trilharem esse caminho terão escolhido romper com uma “certeza” dada pelo senso comum. Ou seja, o que se configura como “rompimento” nada mais é que um direito de todos os gêneros, mas sonegado das mulheres.

Felizmente, há quem pense diferente e se mobilize quanto a essa restrição específica usando a publicidade, como esse comercial para pequenas engenheiras:


Mundialmente, a sociedade deu às mulheres um lugar de coadjuvante, de suporte, de submissão. Houve quem ocupasse esse lugar, e houve quem ousasse questioná-lo e desafiá-lo.

Essa história vem sendo reescrita desde então, com mais e mais registros de protagonismo de mulheres, mas não sem confronto (verbal ou físico) e sufocamento de ideias.

Posições foram intensamente chacoalhadas e hoje há mulheres chefes de família, de Estado e na atividade profissional. Lugares até então estáticos, dados a elas, têm sido desocupados, movimentados e reposicionados.

“A mulher contemporânea é bastante diferente daquela de algumas décadas atrás. Ela se modificou e conquistou seu espaço na sociedade, marcando, assim, um lugar diferenciado. Porém, chegar a este lugar tornou-se um grande desafio. Demandas sociais e, também, o interesse em responder às pressões a que está submetida, marcaram sua ascensão a este novo status, possibilitando que elas obtivessem merecido reconhecimento”, afirma a psicóloga e psicanalista Elisangela Viana.

Pensando em um cenário atual, brasileiro, temos a seguinte situação: mulheres podem votar, criar empresas, ter ou não filhos (a exceção é a criminalização do aborto, que tira delas a decisão de interromper uma gravidez), ocupar cargos de chefia (ganhando menos, é preciso salientar), chefiar famílias.

Nesse mesmo cenário, é esperado que as mulheres ouçam um comentário masculino emitido por estranhos e o interpretem como elogio; é dito que suas roupas facilitam ou convocam um abuso sexual; é afirmado que sua presença no Carnaval indica que ela não é “direita” e é estranhado o fato de elas não quererem ou não gostarem de ser mães.

Muito se espera das mulheres, hoje maioria na população, mas minoria no que tange a direitos e a respeito. Muito se espera, muito se diz, muito se condena. E o que elas esperam de si mesmas? E o que, individualmente, cada mulher espera de si?

“Penso que a mulher encontrou novas maneiras de se apresentar para assumir inúmeras atividades de ritmos demasiadamente acelerados. Ao tentar dar conta de tudo, ser tudo para os outros, tentar responder às exigências a ela impostas, viu-se envolta por uma agenda sempre cheia, com afazeres que não tem fim. Será que ela se pergunta o que realmente deseja? A cada dia ela fica com a sensação do dever não cumprido, que falhou em algo que não sabe o que é. É preciso estar linda, ter conhecimento de muitas coisas, dominar técnicas modernas para lidar com os filhos e com a vida, como manter seu corpo em forma e manter sua juventude e beleza. Será que ela reconhece quais são seus desejos?”, problematiza Viana.

Reconhecer os próprios desejos é angustiante e particular, pois não é algo automático ou consciente. E se hoje falamos em inconsciente, se é possível se aproximar dos desejos, isso ocorre graças às mulheres. Elas foram fundamentais para a investigação que Sigmund Freud fez do inconsciente, lembra a psicanalista Marisa Belém, autora do livro Mulher no Brasil – Nossas Marcas e Mitos (Editora Escuta).

“Os bizarros e enigmáticos sintomas dos corpos das mulheres histéricas, no final do século 19, apontavam para uma impossibilidade do saber médico racional de responder à questão do feminino. Foi principalmente escutando essas mulheres que Freud descobriu as manifestações do inconsciente, as quais se contrapunham à lógica da consciência, e que revelavam as verdades sobre os desejos humanos.”

As mulheres histéricas, frequentemente internadas ou isoladas do convívio social, traziam no corpo a dificuldade de se resolver uma questão psíquica particular. Se paravam de andar e os exames não mostravam qualquer alteração orgânica, tinham seu sofrimento desqualificado. Muitas, inclusive, eram tratadas como bruxas. Ao ouvi-las, Freud descobriu que os sintomas eram colocados no lugar de conflitos emocionais. Estes precisavam ser dissolvidos a partir da escuta do relato das próprias histéricas. A fala dava sentido às suas vivências e dores.

“Também na contemporaneidade, embora com sintomas distintos das histéricas da época de Freud, as mulheres continuam desafiando não só os conhecimentos médicos e científicos, mas também todos os discursos que aspiram a formatar uma identidade única para elas”, destaca Belém.

Diante de múltiplas identidades que cada mulher pode possuir, Belém lembra a importância de se ouvir a singularidade mais íntima de cada uma. "Isso permite que se desconstrua imagens e estereótipos que cada uma construiu para si, a partir dos modelos sociais apreendidos."

Segundo Belém, as queixas mais comuns no consultório são de uma constante insatisfação e de uma impotência para desocupar o lugar em que se satisfaz e agrada alguém. “São sintomas muito comuns na clínica psicanalítica brasileira, dada a nossa herança patriarcal organizada em torno do modelo Casa Grande/Senzala”, completa a profissional.

O reconhecimento do próprio desejo não é algo automático ou preto-no-branco. É uma conquista nublada e difícil diante de tantas características e papéis atribuídos a cada mulher, como se ainda por cima todas fossem iguais. O conflito entre o que se deseja e o que é esperado pela sociedade - interpretado como "é isso aí, mulher!" - se atualiza em muitas atividades do dia a dia. “Tudo bem eu querer ser dona de casa?” “Tudo bem eu não querer ser dona de casa?”.

No filme Um Senhor Estagiário (The Intern), a personagem de Anne Hathaway, Jules Ostin, é uma jovem fundadora de um e-commerce de roupas que vai muito bem nos negócios, mas enfrenta cobranças simultâneas: existe a exigência, por parte dos investidores, de que ela tenha um CEO acima dela, com mais experiência e credenciais acadêmicas; ela lidera uma equipe que cresceu em números no último ano; ela é esposa dedicada e mãe amorosa de uma garotinha. Ostin está sempre impecável, mas cochila no carro para compensar o sono negligenciado à noite e fica horas sem comer para atender a extensa agenda de cada dia.

Em uma cena específica, quando está vulnerável, Ostin revela um medo (não vamos falar qual é para não perder a graça) que tem a ver com a pressão que ela sente e com as expectativas a seu respeito. O medo descrito pertence àquela personagem, mas pode ter identificação com algumas espectadoras. Ou não. E tudo bem quanto a isso.

“Espera-se cada vez mais que a mulher contemporânea atenda às demandas que surgem. E ela, por sua vez, deixa de escutar seu próprio desejo e de fazer mais por si. Anula-se para atender ao outro numa tentativa de manter seu lugar de importância e aprovação”, pondera Viana.

O que dá pra fazer mediante a pressão? “É importante que a mulher tenha tempo e espaço para se ouvir e, assim, se descobrir. Dessa forma perceberá que, além de ser capaz de fazer muitas coisas, seus desejos serão mais claros e ela saberá que eles são possíveis, ainda que no turbilhão de sua nova posição no mundo. Nesse caminho verá também suas impossibilidades e limites na vida, porém, assim poderá viver de forma mais leve e saudável. E mesmo tendo a contribuição de outras pessoas em sua vida, continuará a ser admirada e reconhecida em nossa sociedade", destaca Viana.

Que cada mulher, então, não abra mão de seu tempo e espaço para se ouvir, e que cada uma descubra como se permitir essa escuta. O que é bom para uma não necessariamente funciona para todas. Somos bilhões, e mesmo com características, desafios e angústias comuns, somos únicas, com referências muito particulares. Ainda que todas pertençamos a um vocábulo da língua portuguesa – mulheres –, nos desdobramos em infinitas e intransferíveis vivências, graças, medos, erros e acertos. Trata-se de perder garantias e correr riscos, como lembra a psicanalista Marisa Belém. E a História (e também a ficção) tem mostrado que de riscos e desafios elas entendem muito bem.

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