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04/03/2016 15:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Alvo da operação Lava Jato, Lula ataca Ministério Público e imprensa: 'Por que a Rede Globo não me empresta um sítio?'

REUTERS/Paulo Whitaker

Horas após ter prestado depoimento à Polícia Federal, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira (4), na sede do diretório nacional do PT. Enfatizando por várias vezes estar “ofendido”, Lula partiu para o ataque e criticou o Ministério Público e a imprensa, que representaria a “elite conservadora desse País”.

“Não é possível mais ver o País sendo vítima desse espetáculo midiático, em que coloca corrupção em um barco de R$ 4 mil da Marisa (Letícia, mulher de Lula). Ora, eu daria um iate pra ela se pudesse. Ficam se preocupando com pedalinho de R$ 2 mil que ela comprou para os netos, falando sobre chácara do amigo que eu uso... olha, eu uso porque os inimigos não me oferecem. Por que a Rede Globo não me empresta um sítio?”, questionou.

Lula criticou ainda o juiz federal Sérgio Moro por ter ordenado a sua condução coercitiva para depor, afirmando que “jamais se recusaria” a prestar qualquer esclarecimento. "Era só convidar", afirmou.

O ex-presidente ainda pediu desculpas aos seus familiares e amigos que foram alvos da 24ª fase da Operação Lava Jato, deflagrada nesta sexta-feira e intitulada Aletheia (“busca pela verdade”, em grego), e destacou que tudo o que lhe perguntaram agora já havia sido esclarecido.

Confira os principais trechos da coletiva de Lula:

Depoimento

“Em um depoimento eu estava em Brasília para eles me fazerem as mesmas perguntas de antes, as mesmas do MP, as mesmas de hoje. Não me recusei a ir a Brasília e jamais me recusaria a prestar depoimento aqui. A minha briga aqui foi porque o procurador [Cássio Conserino] fez um pré-julgamento e não haveria por que eu ir, por isso brigamos e conseguimos a liminar para não ir. Mas o juiz (Sérgio) Moro não precisava pedir a condução coercitiva, com a PF indo na minha casa, da dos meus filhos sabe... do companheiro Paulo Okamoto (presidente do Instituto Lula), da Clara Ant (diretora do Instituto Lula). Era só ser convidado”.

"Perseguição"

“Antes dele (Moro) nós já éramos democratas, já fazíamos coisas corretas nesse País. Antes deles já lutávamos por esse País, pela imprensa livre, pelo direito à candidatura, pelo direito à greve. Era só ter comunicado que iriamos lá. Lamentavelmente, preferiram a prepotência, um espetáculo de pirotecnia, e alguns meios de comunicação já sabiam disso antes. Lamentavelmente, parte do Judiciário brasileiro está trabalhando em associação com a imprensa. Antigamente, você ia investigar o crime e deter o criminoso. Agora, você nomeia o criminoso, coloca a cara dele na imprensa e aponta os crimes dele depois. Queria pedir desculpa a Marisa e aos meus filhos por tudo isso. Acho que ela merecia mais respeito. Não há nenhuma explicação para irem atrás dos meus filhos, nenhuma além de serem meus filhos. Quero pedir desculpas a Clara Ant, ao Okamoto, porque ser amigo do Lula hoje parece ter virado uma coisa perigosa. É preciso criminalizar o PT, criminalizar o Lula, porque esses caras querem continuar no governo. Só consigo entender que não há uma coisa que incomode mais do que ter ajudado pessoas do andar de baixo subirem um degrau para chegar ao andar de cima”.

Imprensa

“O velho Frias, da Folha [Folha de S.Paulo], dizia “Lula, você precisa parar de querer subir. Eu não vou deixar vocês subirem!”. A elite brasileira é muito conservadora, tem complexo de ‘vira-lata’, não querem que ninguém suba. Chegamos à Presidência e diziam que não dava para fazer nada, que os pobres eram problema, mas eles viraram a solução (...). Desde 2014 não estão deixando a Dilma (Rousseff, atual presidente) governar. Outro dia vi um delegado da PF pedindo autonomia. Quem precisa de autonomia é a presidente da República, porque não querem que ela governe o País”.

“Chegaram à minha casa 6h. Os delegados foram muito gentis, pediram desculpas e disseram que precisavam cumprir a decisão judicial do juiz Moro. Ele poderia ter me convidado, eu gosto de Curitiba, iria até lá. Facilitava porque o PT pagaria a minha passagem para ir até lá. Hoje me senti prisioneiro. Sinceramente, já passei por outras coisas na minha vida, não sou de guardar mágoa, mas acho que o nosso País não pode continuar assim, amedrontado, com ‘prêmio Globo’, ‘prêmio Veja’, e a partir disso tem de prestar contas. Antes dos advogados saberem que os seus clientes serão chamados a imprensa recebe a informação”.

“Não é possível mais ver o País sendo vítima desse espetáculo midiático, em que coloca corrupção em um barco de R$ 4 mil da Marisa (Letícia, mulher de Lula). Ora, eu daria um iate pra ela se pudesse. Ficam se preocupando com pedalinho de R$ 2 mil que ela comprou para os netos, falando sobre chácara do amigo que eu uso... olha, eu uso porque os inimigos não me oferecem. Por que a Rede Globo não me empresta um sítio?”.

Ministério Público

“Vou dizer uma coisa: eu sou um homem que acredita em instituições de Estado fortes. Não sei porque, acho que instituições fortes são a garantia de um Estado democrático contra a prepotência dos governantes. Desde a Constituinte eu briguei por um Ministério Público forte. Fui o primeiro presidente a indicar o primeiro nome da lista tríplice eleita pela corporação, tem que ser sempre assim. Adotei isso no Brasil e não me arrependo. Mas é importantes que os procuradores saibam que uma instituição forte precisa ter pessoas responsáveis”.

Palestras

“As pessoas queriam que o Lula falasse as coisas que aconteceram, dos milagres das cotas, do Fies, do ProUni, de levar energia a 15 milhões de pobres desse País, do salário mínimo que aumentasse a cada ano. Qual milagre vocês fizeram? Por isso me transformei no conferencista mais caro do mundo, ao lado do Bill Clinton. Pra me contratar paga quem quiser, coloquei um preço bem alto mesmo. Tem que pagar!”.

“Essas empresas (que doaram recursos ao Instituto Lula e pagaram por palestras) vieram antes dos negócios com a Petrobras. Elas não estão comprometidas apenas com a Lava Jato. Algumas chegam a empregar 90 mil trabalhadores, qualquer centavo agora é pré-sal. Embora intimamente magoado, eu acho que merecia um pouco mais de respeito nesse País (...). O que aconteceu hoje era o que precisava para o PT levantar a cabeça. Há muito tempo o PT anda de cabeça baixa, todo santo dia alguém faz o PT sangrar. A partir da semana que vem, quem quiser um discursinho do Lula, é só acertar a passagem de avião, de ônibus demora muito, mas eu vou”.

Compra de MPs

“O presidente é o último a saber. Essas coisas vão para o Congresso antes de ir para o presidente. Sempre foi o chefe da Casa Civil que cuidou disso. Aí tenho que responder essas coisas, responder sobre o acervo do Lula... poderia perguntar antes sobre essas ‘tranqueiras’ todas. O que é sair do governo com 11 contêineres, sem ter onde pôr? Sair com cadeira, com tudo o que você possa imaginar, porque se somar todos os presidente desde Floriano Peixoto, eu fui o que mais ganhou presentes. Tenho até torno da África, e o que eu faço com isso? É uma coisa do presidente, mas de domínio público. Essas coisas, o MP se preocupando com isso, poderia oferecer o acervo para eles guardarem naquele prédio redondo, com vidro fumê. Não fazem ideia de quanto relógio de ouro eu tenho, mas prefiro o meu Citizen aqui. Não quero valorizar o meu pulso, quero valorizar a hora”.

Recado a Rui Falcão

“Sinceramente fiquei indignado com isso. Quero dizer ao meu companheiro Rui Falcão (presidente nacional do PT) que, seja quem for, se encontrar um real na minha conta que fuja da minha conduta, eu não mereço ser desse partido. Eles precisam aprender que aprendi a andar de cabeça erguida não por favor, mas fazendo comício, vendo companheiro levar borrachada todo o dia durante a ditadura. O que fizeram com o ato de hoje... queria dizer à CUT, ao PT, ao MST, ao PCdoB, que me convidem que eu estarei disposto a andar por esse País”.

Preconceito

“É preconceito. Todo mundo pode, menos essa merda desse metalúrgico. Pobre nasceu para comer ‘encoxo’, e eu quero comer comida boa. Eles têm essa preocupação com vinho que eu não sei bem diferenciar, porque não faz parte do meu gosto. Eles ficam indignados com os meus vinhos e ficam boquiabertos com os vinhos dos outros”.

Sítio e triplex

“Não estou indignado com os jornalistas, mas sim com o comportamento de alguns meios de comunicação. Quem condena as pessoas são as manchetes, que amedrontam o Judiciário, o Ministério Público, a Polícia Federal e os políticos. Tenho dito aos companheiros do PT que o jeito é não ter medo, levantar a cabeça e exigir que eles sejam tratados como todos nós. Falei hoje por 18 minutos sobre a chácara do companheiro Bittar, que conheço desde antes da fundação do PT, o Fernando eu conheço desde os 7 anos de idade. Esse companheiro comprou (o sítio) com a perspectiva que eu usasse, mas eu não posso usar porque é crime".

"Um apartamento que não é meu eles dizem que é meu. Quero saber quem vai me dar o apartamento quando terminar essa operação, se vai ser a Rede Globo quem vai me dar. Se não comprei e não paguei, não é meu. Alguém vai ter que me dar,. Quem vai me dar a chácara? Aí quando eu pagar, tiver a escritura no meu nome eu direi que é meu. É essa indignação que eu queria falar”.

Recado

“Me senti ultrajado, apesar do tratamento cortês dos delegados da PF. Queria dizer que, se queriam matar a jararaca, eles não bateram na cabeça, bateram no rabo. A jararaca está viva!”.

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