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02/03/2016 12:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

O amor em um lugar sem esperança: conheça casais que superaram situações desesperadoras

Num mundo onde a violência, o medo e a insegurança dominam o noticiário, uma constante permanece: Nas situações mais difíceis possíveis, as pessoas ainda conseguem se apaixonar.

“Acho que podemos ficar muito cínicos”, comentou Arabella Russell, psicóloga que presta assessoria à entidade Relate.

“Quando ouvimos alguém falar que o amor conquista todos os obstáculos, às vezes olhamos todos os exemplos que sugerem o contrário. Na verdade, porém, é impossível subestimar a força que nossos relacionamentos podem nos dar.”

Segundo ela, um relacionamento pode ser “detonado” quando uma das pessoas de um casal passa por uma experiência traumática, “mas também pode acontecer de o relacionamento e o vínculo com a outra pessoa virarem parte do processo de superação”.

Dentro da série Fazendo o Amor Moderno, do The Huffington Post UK, vamos contar a história de oito casais que dão um exemplo de como o sentimento pode triunfar sobre as adversidades. Fosse o obstáculo a guerra, pobreza, tortura ou a crise da migração, nada conseguiu separar esses casais.

amor

Os casais que encontraram o amor em um lugar sem esperança

É muito compreensível que o amor possa surgir em tempos de adversidade espantosa, explica Russell. “Pense em quando as pessoas voltaram da Segunda Guerra Mundial, uma época em que nasceram muitíssimos bebês. Em situações de abandono, de perdas e morte, o amor surge como o reverso da moeda.”

“O relacionamento amoroso é o elemento que permite que você supere tudo isso. Em momentos de emoção intensificada, sentimos uma necessidade enorme de que aconteça algo de positivo. É por isso que muitas relações amorosas surgem em circunstâncias muito inesperadas.”

esperança

1. O refugiado e a bela humanitarista

Jibran disse a Dinah que ela era linda assim que a conheceu, no acampamento de migrantes em Calais conhecido como A Selva. Dinah trabalhava para uma organização humanitária francesa e estava servindo xícaras de chá. Jibran foi um dos migrantes que recebeu uma xícara.

O paquistanês de 29 anos tinha saído de seu país e estava tentando chegar à Inglaterra. Por isso, noticiou a News.com.au, imaginou que não poderia ficar perto da mulher “linda” que conhecera por muito tempo.

Dinah não pensou muito nele, ciente de que muitos dos migrantes na Selva estavam tentando chegar ao Reino Unido. Mas os dois se encontraram de novo por acaso e trocaram telefones. Depois disso, encontraram-se pela terceira vez e acharam que seria a última.

dinah e jibran

Mas, quando a tentativa de Jibran de atravessar o Canal da Mancha fracassou, Dinah lhe mandou uma mensagem dizendo que achava que isso podia ser um sinal e pedindo que ele permanecesse na França. Ele respondeu:

“Se você ficar comigo, eu fico”.

Na semana seguinte eles saíram em um encontro. Casaram-se quatro meses depois, em maio de 2015. Estão vivendo juntos e felizes e conhecem pelo menos três outros casais que se conheceram na crise dos migrantes.

Mas os preconceitos e barreiras culturais complicaram o início do relacionamento deles.

“Pretendemos passar a vida juntos.”

A mãe de Dinah perguntou por que sua filha queria casar-se com alguém do Paquistão, não da França. “Ela falou: ‘Eu o amo’”, contou Jibran. “Estamos juntos e pretendemos passar a vida juntos.”

“Minha melhor amiga se assustou porque Jibran é do Paquistão e é muçulmano”, falou Dinah. “Aqui na França temos uma imagem negativa dos muçulmanos, e ela ficou assustada.” Mas a atitude da amiga mudou quando ela conheceu Jibran pessoalmente. “Depois que ela conversou com Jibran ficou tudo bem. Ela não sente mais medo.”

2. O marido que acompanhou seu amor num asilo para idosos doentes

casal de idosos

Quando não conseguiu mais viver independentemente em sua própria casa, Molly Richardson, 91, se mudou para um asilo para idosos doentes – e seu marido, Ted, foi junto.

Ted, 94 anos, não queria que Molly ficasse sozinha depois de perder a memória. Ele disse ao Bristol Post:

“Se ela for internada, eu vou junto, porque teria sido a morte para você vir para cá sozinha, não é meu velho amor?”

Ted e Molly se conheceram em 1943, quando ele a acompanhou a uma peça de teatro. Casaram-se dois anos depois. “Falei para ela ‘vamos nos casar?’ e ela não hesitou, falou ‘vamos, por favor!’”, disse Ted.

Depois de 70 anos de casados, os dois, que comandavam um pub na cidade de Bath, ainda podem dividir um quarto no asilo Beech House, em Thornbury.

Em maio eles festejaram suas bodas de platina ao lado de seus três filhos e três netos.

Estão vivendo há mais de um ano no asilo, que Ted descreve com “um dos lugares mais simpáticos que já conheci”. Ele é o campeão de quiz do asilo (jogo de perguntas e respostas).

Quando o jornal Gazette perguntou qual é o segredo de um casamento feliz, eles disseram que é “saber dar e receber”.

“Somos muitos felizes juntos, nos damos bem demais”, disse Ted. “Mas não faço ideia de qual é o segredo disso."

3. O amor que sobreviveu à tortura

tortura

Razan Alakraa e Ahmad Alhameed eram amigos de infância que se reviam todo ano quando a família de Razan visitava a de Ahmad, na Síria. Razan nasceu no Reino Unido, filha de pais sírios, e conheceu Ahmad nessas visitas regulares.

Quando Ahmad a pediu em casamento, em 2009, ela inicialmente disse “não”, porque queria se concentrar nos estudos. Mas quando ele pediu novamente, em 2012, a resposta foi positiva. “Tínhamos passado anos sem conversar”, Razan contou ao The Huffington Post US. “Mas ele estava ali de novo, querendo se casar comigo.”

Ahmad era médico e na época trabalhava num hospital de campo na Síria que foi cercado na devastadora guerra civil no país. Devido ao conflito, ele e Razan só se viram algumas poucas vezes de novo até que, em 2013, ele foi preso e torturado pelo regime do presidente Bashar Assad, informou a BBC.

Ficaram separados três anos, durante os quais Ahmad passou por maus-tratos terríveis, diz Razan. Ela acha que Ahmad foi vitimado devido à “vida dupla” que levava, trabalhando tanto em hospitais do governo quanto em hospitais de campo, onde dava atendimento a vítimas do regime.

“Olho para Ahmad hoje, aqui comigo, e ele ainda sofre. Sente dor o tempo todo.”

Houve um momento em que eles passaram cinco meses sem contato. Razan escreveu: “Não consigo explicar minhas emoções, não sei descrever como eu me sentia. Só posso pedir a todos que lerem estas palavras que rezem por todas as pessoas ainda desaparecidas nas prisões de Assad.”

Eles se reencontraram finalmente quanto Ahmad conseguiu escapar. Ele fugiu pelo Líbano e chegou ao aeroporto de Heathrow, em Londres, no dia 1º de janeiro deste ano.

Razan compartilhou online uma foto comovente dela e seu noivo, dizendo: “Ele me pediu em casamento em dezembro de 2012. Desde então: viveu cercado, foi detido, torturado, passou um ano e meio como refugiado. Hoje: estamos juntos de novo no Reino Unido.”

“Ele saiu de lá ferido em todos os lugares”, disse Razan. “Olho para Ahmad hoje e ele ainda sofre. Sente dor o tempo inteiro.”

Ela acha que vai precisar de tempo para se acostumar à volta dele. “Ainda me parece irreal. A sensação que tenho é que vão levá-lo embora de novo. Estou tão acostumada com barreiras e separação que será preciso tempo para entender que isso ficou para trás.”

4. O casal de doentes terminais que foram para casa juntos

casal

Debbie Rivera e John Whaley se conheceram no ano passado na sala de televisão do asilo para doentes terminais onde estavam internados, na Flórida.

Debbie, mãe e dona-de-casa, e John, ex-operador de equipamentos pesados, tinham doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) em fase terminal. John também sofria de câncer pulmonar e teve as duas pernas amputadas devido a coágulos sanguíneos, além de uma mão, amputada apenas 15 dias antes de eles se casarem no asilo perto de Jacksonville.

Os dois estão na casa dos 50 anos e se aproximaram porque tinham interesses em comum, além das dificuldades da doença. “Ficávamos sentados conversando. Começamos a nos conhecer melhor e a ter sentimentos um pelo outro”, John disse à rede ABC. “Nós dois gostamos das mesmas coisas e estamos mal, então nos entendemos bem.”

Semanas depois de se conhecerem, eles resolveram se casar. “Quero ser feliz e estou cansado de estar sozinho”, John contou ao Florida Times-Union .

A capelã Patricia Meeks, que conduziu a cerimônia, disse aos convidados no casamento que, quando John pediu Debbie em casamento, disse a ela: “Se vou ter que ir embora, quero ir junto com você”.

Os dois se casaram sentados em suas cadeiras de roda e então cortaram o bolo juntos. Foi o terceiro casamento de Debbie e o segundo de John.

“Ela estava linda”, falou John. “Meu rosto ficou até cansado de tanto sorrir.”

Latoria Haile, gerente do asilo para doentes terminais Governors Creek, comentou: “A noiva estava como toda noiva, nervosa e agitada. Eles formam um casal lindo.”

Depois do casamento –no qual John esqueceu de levar as alianças--, os dois deixaram o asilo e foram morar no trailer de John numa área reservada para trailers, perto do asilo. Debbie disse a jornalistas que eles queriam ir para casa para passar o tempo de vida que lhes resta.

5. O homem que percorreria 6.500 km de bicicleta

pk_ charlotte

Uma história de amor de 40 anos atrás ganhou vida viral recentemente quando um amigo compartilhou a história de um homem que atravessou oito países de bicicleta para reencontrar sua mulher.

Tudo começou em 1975, quando Padryumma, apelidado de PK, conheceu Charlotte. Ele nasceu numa família pobre de tecelões na Índia, parte de grupo social rejeitado como “intocável”, mas ganhou fama como talentoso estudante de arte depois de pintar um retrato de Indira Gandhi. Ficou tão conhecido que Charlotte, que era sueca e professora de música, viajou até Nova Delhi para posar para ele.

Eles se apaixonaram e mais tarde se casaram. Charlotte ficou na Índia e, depois do casamento indiano tradicional, adotou o nome indiano de Charulata.

Mas em 1978 ela retornou à Suécia. PK prometeu que iria ao encontro dela depois de concluir seus estudos na Índia.

Charlotte era de família rica, descendente da realeza sueca. Ela ofereceu pagar pela passagem aérea para ele fazer a viagem de 6.500 quilômetros. Mas PK recusou a oferta. Estava decidido a fazer a viagem com seus próprios recursos.

Ele vendeu tudo o que tinha para comprar uma bicicleta feminina Raleigh’s de segunda mão e partiu para pedalar de Delhi até a Suécia. No percurso exaustivo, ele atravessou o Afeganistão, Irã, Turquia, Bulgária, Iugoslávia, Alemanha, Áustria e Dinamarca.

a antiga bike

PK ainda tem aquela bicicleta

A bicicleta quebrou várias vezes ao longo do percurso, que levou quatro meses, e em algumas ocasiões PK passou quatro dias sem comer. Mas ele finalmente chegou a Gothemburgo, na Suécia, e reencontrou Charlotte.

Os pais dela o aceitaram na família, rompendo com uma tradição real que proibia a convivência de pessoas não brancas com a aristocracia sueca.

Depois de 40 anos de casados, os dois hoje vivem na Suécia com seus dois filhos. Pradyuma é embaixador cultural da Índia na Suécia.

Depois que um amigo compartilhou a história deles no Facebook, o cineasta de Bollywood Sanjay Leela Bhansali estaria fazendo um filme sobre a vida dos dois.

6. O casal sem-teto nas ruas de Nova York

Takira e Will passam suas noites nas ruas de Manhattan. Os dois têm 20 e poucos anos e são sem-teto.

Desde que fiquei sem-teto, nunca conheci ninguém que faz essa vida parecer tão fácil de viver, tão sob controle, quanto Will”, Takira disse à revista GOOD no ano passado. “Ele é minha espinha dorsal, é minha voz da razão.”

“De modo geral, não é tão ruim assim”, disse Will, falando de dormir na rua. “Dependemos um do outro.” Os dois explicam que há muitos lugares e serviços em Nova York que dão apoio aos sem-teto.

Eles se conheceram num abrigo para sem-teto e, quando deram a entrevista à GOOD, estavam namorando havia um ano.

Takira contou que passou por uma “depressãozinha” logo antes de seu aniversário de 21 anos e que Will a animou. “Will resolveu que não queria me ver daquele jeito. Ele me encontrou bem cedo no dia do meu aniversário e fez aquele dia ser incrível. Saímos um pouco e ficamos bêbados de verdade. Eu estava fazendo 21 anos, precisava fazer aquilo.”

“Eu só queria garantir que ela tivesse um aniversário legal. E acabou virando tudo isto”, comentou Will.

Segundo Takira, “Nova York é uma cidade que nunca dorme. Você pode estar na pior ou estar com tudo –muitas coisas podem acontecer de qualquer jeito.”

Depois que eles ficaram juntos, Takira foi presa. Will também já tinha passado pela prisão. “Não é legal ser jovem em Nova York e não ter orientação nenhuma”, ele disse. “Você acaba indo aos lugares errados para procurar uma família.”

Will se sente protetor de Takira na rua e fez o possível para lhe dar apoio também quando ela estava na prisão.

Ele acha que o fato de tê-la conhecido o fez assumir responsabilidade por ele mesmo.

“Antes eu pensava ‘quero ser um cara durão, quero ser um cara de tal e tal tipo’. Mas depois de conhecer Takira, ela me fez ficar à vontade sendo eu mesmo.”

“Chega um momento na vida em que você não pode continuar a culpar todo o mundo pelo que aconteceu com você. Não dá mais para ficar procurando em todo lugar. Tem que entender que cada passo na sua vida é você mesmo quem está dando.”

7. A vítima de ataque terrorista que se casou com sua enfermeira

james e krista

James Costello diz que fica feliz por ter sido atingido por uma bomba no ataque terrorista de 2013 contra a maratona de Boston.

Ele estava na linha de chegada com um grupo de colegas quando a primeira bomba explodiu. Ele e seus amigos ficaram juntinhos depois, sem perceber que estavam ao lado de uma segunda bomba, segundo o Daily Mail.

James foi mostrado na televisão tropeçando pela rua com suas roupas rasgadas pela explosão, numa imagem dos ataques terroristas que virou icônica.

Ele sofreu ferimentos dolorosos em todo o corpo. Foi quando estava se recuperando que conheceu a enfermeira Krista D'Agostino, que o atendia no Hospital Spaulding de Reabilitação. Krista cuidou de James depois de cada cirurgia que ele fez, com procedimentos que incluíram enxertos de pele e fisioterapia.

casamento

Os dois, ambos na casa dos 30 anos, se casaram menos de um ano e meio depois, no verão de 2014. A cerimônia de casamento e a recepção foram doadas por empresas locais. Depois de ouviram a história deles, as empresas pagaram pelo salão, o planejamento do casamento, o vídeo e os coquetéis.

“Krista odeia quando digo isso, mas a verdade é que fico feliz por ter sido detonado”, disse James no programa US Today, em dezembro. “Foi assim que eu a conheci.”

8. O casal que não precisa de palavras

mary e stephen

Stephen e Mary são surdos-mudos. Eles se comunicam principalmente pelo toque.

Stephen também tem visão limitada, desde que teve turberculose na infância. Ele só consegue enxergar objetos que estão bem à sua frente. Para assistir à TV, tem que encostar o rosto no aparelho, informou o Toronto Star.

Já Mary começou a perder a visão mais tarde na vida. Ela nasceu surda, mas, graças à sua vista um pouco melhor, às vezes guia seu marido, andando na frente dele, enquanto ele a segue com as mãos sobre os ombros dela.

Eles são canadenses e se conheceram quando tinham respectivamente 8 e 9 anos, quando Stephen se sentou atrás de Mary numa escola para crianças surdas, em Montreal. Mas só foram se reencontrar mais de 20 anos depois. Durante esse intervalo, Stephen se mudou para o Ontario. Mary saiu da escola aos 9 anos e voltou a viver com sua família, em Terra Nova.

Décadas depois, Stephen foi à Terra Nova trabalhar como tecelão. Ele e Mary se reencontraram quando faziam compras e ele a reconheceu imediatamente, como contou ao The Star, comunicando-se na língua de sinais. Para isso, precisou chegar muito perto do rosto dela.

Os dois se casaram e hoje vivem no Lar Cheshire Rotary em Toronto, onde passam o tempo fazendo tricô, cozinhando e comunicando-se na língua de sinais. Eles não chegaram a ter filhos –a mãe de Mary a obrigou a ser esterilizada quando ela era jovem.

Apesar das dificuldades que enfrentam para se comunicar, Stephen afirma que seu sentido de tato aprimorado era útil quando eles eram “amantes jovens”. “O sexo é bom”, ele explicou por meio de sinais.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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